Chegou com 1 quilo e 400 gramas. Mal ficou em pé e já saiu andando desengonçada pelo corredor, cheirou todos os cantos até fazer o primeir...

A chegada de Lola

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Chegou com 1 quilo e 400 gramas. Mal ficou em pé e já saiu andando desengonçada pelo corredor, cheirou todos os cantos até fazer o primeiro xixi. Volumoso e amarelinho no meio da sala. Assustei com a quantidade que saiu de uma cachorra tão pequena. Minha filha e minha esposa comemoravam com aplausos e entusiasmo o xixi na sala.

— Que linda! Ela sabe fazer! — Que fofa!

Enquanto isso o líquido citrino escorria pelo rejunte do piso até o pé do sofá.

Essa história começou há dois anos com uma campanha sorrateira, dissimulada e apelativa para me convencer a adquirir um cachorro para minha filha.

De um lado os "pró cão", representados por quase toda família e do outro os "contra cão", com só um representante, eu. A disputa era acirrada e desleal. Valia tudo; choro, drama, ameaças, fake news e chantagens. No auge do debate entre os "pro cão" e o "contra cão", eu ouvia promessas do tipo:

— Pai, eu fico sem presente no natal e sem festa de aniversário; — Fico sem mesada; — Fico sem almoço; — Limpo todos os xixis, cocôs; — Dou banho; — Levo para passear.

A esposa em tom sóbrio ponderava:

— Um cachorrinho vai alegrar a casa; — Não tá caro, o preço é esse mesmo; — Vai ser tratado sem frescura, igual cachorro de antigamente; — Jamais vai dormir na nossa cama.

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O filho, morando longe, fazia pressão mandando fotos de cachorros pelo Whatsapp. Imaginem ouvir essa ladainha por dois anos, foi quase uma lavagem cerebral.

Cheguei a pensar em dar um cheque mate, tipo: O cachorro ou eu? Mas desisti, fiquei com medo da resposta.

E como era de se esperar, perdi a votação.

A compra transcorreu em sigilo e fui o último a saber.

Um mês depois ela chegou; Pretinha, fininha e como boa mineira, meio desconfiada. Junto veio uma lista de recomendações: Banho, só depois de 2 meses; Passeio, só após tomar as trezentas vacinas. Gritar com ela, nem pensar; Comida de gente, jamais. Tem que escovar os dentes.

A ração tem que ser a Extra Plus Mega Golden Light Protéica para filhotes até quatro meses, e custa o dobro do preço do filé mignon.

E também, não menos importante, colocar jornal no chão para ela fazer xixi. E quando ela acertar tem que premia-la com o biscoito canino mega plus extra top, sabor carne de primeira. Mais caro que a ração.

Enquanto líamos o manual de uso, ela fez outro xixi. Agora no quarto. Quase uma lagoa, uma beleza! Nem imaginava que rins de cachorro funcionavam tão bem.

Ela é até bonitinha, uma mistura de morcego sem asas com o ET do filme "Alien O 8º passageiro", aquele que tinha uns dentinhos para fora. A escolha do nome uniu a família espalhada em todos os pontos
cardinais do Brasil. Vieram sugestões de Ubatuba, Itajubá, João Pessoa, Botucatu, Vila Velha, Rio de Janeiro e Vitória. Foram semanas chamando o bicho por vários nomes, até que no final prevaleceu o nome dado pela tutora. Isso mesmo, agora cachorro não tem dono, tem tutor ou tutora. O nome escolhido foi Lola.

Passado o impacto da chegada surgiram as dúvidas. Onde vai dormir, o que vai comer e onde será seu banheiro? Pensei em pegar umas tolhas velhas, arrumar numa caixinha de papelão e colocar lá na varanda, mas quando eu vi chegar em casa uma cama de cachorro mais sofisticada que a minha, ossos de brinquedo, bolinhas para coçar a gengiva, bichinhos de pelúcia, eu vi que a caixa de papelão com pano velho estava totalmente fora de cogitação.

Depois da escolha do nome tivemos outros problemas como o choro a noite, a coceira no ouvido, as 300 vacinas e o mais difícil, o xixi e cocô no lugar certo. Espalhamos jornal, não deu certo. Já fechamos ela na varanda, não deu certo, colocamos tapete próprio, não deu certo. Aí comecei ouvir frases inimagináveis um mês antes.

— Não tô aguentando o xixi dessa cachorra; — Como é que pode fazer tanto xixi assim? — Alguém me ajudaaaaa! — Essa vaca fez xixi de novo. — Aí não, Lolaaaaa! — Socorro, traz um pano de chão.

Marcaram uma consulta com a veterinária. Lá vai dinheiro. Pensei até em usar aquela eficaz técnica de esfregar o focinho dela no xixi, mas no mínimo, eu seria escorraçado e denunciado à ONG de proteção de animais. Fiquei com muita vontade de dizer, "eu te disse", "eu te disse", mas seria divórcio na certa.

Outro baque foi quando, de madrugada, depois de meia hora de choro na beira da cama ela venceu e ganhou um lugar no camarote da cama, entre eu e minha mulher. Acordei assustado, mas antes que pudesse brigar ela foi enfiando o focinho debaixo do meu braço, balançando o rabo e dormiu quase que instantaneamente. Respirei fundo e deixei para resolver isso de manhã. Briguei muito, argumentei com respaldo técnico e hoje em dia ela só dorme na cama depois das 5 da manhã e tenho que confessar, quando ela demora eu fico preocupado.

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Semana passada quando cheguei do trabalho minha mulher estava eufórica comemorando que a Lola enfim estava fazendo xixi só no jornal.

Já ia comemorar quando reparei que a casa inteira estava com jornal. Pensei, desse jeito até eu.

Hoje ela está com 4 meses, dorme na nossa cama, faz xixi e cocô onde bem entende e a família inteira já está adaptada ao estilo de vida da cachorra.

Mas o pior, o golpe de misericórdia aconteceu ontem. Minha filha colocou a Lola perto de mim no sofá e disse pra ela com aquela voz melosa: "Fica com o vovô um pouquinho, fica".

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  1. Muito bom. Lembrou-me muita uma pequinês de saudosa memória chamada Lady - como a do filme - que a todos nós encantou enquanto viveu, e depois, também.

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