Espólio Do que vivi, estou morto. Mas, no porvir, ressurreto. Haverá sempre algum porto onde ancorar meu desejo. Ao recua...

Ensaios Poéticos (2)

literatura paraibana chico viana poemas poesia

Espólio
Do que vivi, estou morto. Mas, no porvir, ressurreto. Haverá sempre algum porto onde ancorar meu desejo. Ao recuar, continuo. Na falta, me complemento. Na dispersão, me situo. Do “não”, extraio o consenso. Se na perda está o ganho, e na vitória, o fracasso, já nem sei qual o tamanho dos nós em que me embaraço. É vão tentar o mergulho, pois mesmo nas profundezas não há mais do que entulho no que outrora foi beleza.
Cara ou coroa
Outrora fui “o cara”, hoje sou “o coroa”, e ser chamado assim dói mais que atordoa.    Coroa de que reino se já em mim falece o brilho de outros dias no tempo que anoitece, e mesmo quem achava “o tal” aquele cara hoje lhe vira o rosto   e até lhe nega a fala?   De bom grado recuso   essa falsa nobreza.      Deixo a outros a glória    revestida em torpeza.      Quero livre o meu crânio — mesmo que só pra vê-lo,   com a tesoura dos anos, caírem-lhe os cabelos.
A doença da paixão
A paixão é uma doença — disso quem é que duvida? E quanto mais forte, ela   mais deixa em perigo a vida. E não é doença tola, dessas que fácil se cura, mas uma síndrome, um complexo, pois com as outras se mistura.  Tem da gripe, o lacrimejo; da asma, a falta de ar; da neurose, o medo mórbido; da artrite, o latejar. Do diabetes, o “açúcar” que não se metaboliza; da psicose, a angústia que deforma e tiraniza. Da rinite, a persistência; da urticária, o calor; da diarreia, a urgência;  da febre alta, o rubor. Do herpes, tem o contágio que se reforça no beijo.  E da otite, o zumbido; da rouquidão, o arquejo. Da paranoia, a tendência     a ser sempre vigiado ou a vigiar o outro    (tão querido e odiado!). Tem da enxaqueca, a aura, que o parceiro diviniza.     Do tétano, a convulsão,  que o prazer mimetiza. E tendo, assim, a paixão sintomas tão variados,  por que então desse mal ninguém quer ficar curado?
Os mortos da pandemia
Aos mortos da pandemia não há quem vele os caixões. Se juntam na mesma vala promíscua, sem orações. Devem ser vistos de longe, ermos de amigos, parentes, e sem rosto em que se note da morte o aspecto indigente. Quiçá da tumba comum, nesse repouso gregário, possam eles ter na cova, não um lúgubre ossuário, mas um lar que lhes conceda    (sem medo à infecção) quem rompa o lacre do esquife e venha lhes dar a mão.
O cão
Cão negro, cão negro, fiel inimigo, que me leva à beira do escuro abismo. Quebra-me o espelho quando mais preciso me ver por inteiro (desfeito Narciso). Se me afaga, sopra seu hálito frio. Faz do meu desejo este porão vazio.   Juntos dividimos   igual calabouço. Minha dor, seu riso.   Minha alma, seu osso.
Visão
Num tempo que demanda calma e siso,    já antevendo a sombra do sol-posto,      vislumbro, sem espera e sem aviso,    a iluminada aurora do seu rosto. Sol ou onda, bateu com força, e tudo que em mim dormia ou parecia quieto despertou. Vi-me então, fraco e desnudo, mover os passos ao caminho incerto. Não o pude trilhar, e o ser errante   se foi (como em silêncio morre o dia) levando no sorriso a tentação.   No entanto me fez, por um instante,      encher de novo o peito de alegria,       de novo bater forte o coração.

comente

leia também