Mais uma vez, o mesmo lugar... encanto renovado, algum detalhe perdido que agora resplandecia... cidade-luz, em companhia de amigos-irmãos...

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Mais uma vez, o mesmo lugar... encanto renovado, algum detalhe perdido que agora resplandecia... cidade-luz, em companhia de amigos-irmãos, um coração que se atropelava de tão repleto, uma emoção que corria o corpo inteiro, como sangue a irrigar todos os tecidos. O inverno reinava com suas baixas temperaturas, o cinza tingindo o horizonte em tons mais claros ou mais escuros, nem por isso menos deslumbrante. “Um minuto de surto de alegria, de canções para rir e ruídos, e longas noites para dormirmos no inverno” (Jacques Prévert).

Um hotel com nome feminino, no “nosso quartier preferido”. Um banco na sua calçada, para sentar após as aventuras, assistir à passagem de moradores e turistas, “gozar da presença das massas populares é uma arte”. (Charles Baudelaire). Experimentar a negação de que as noites prenunciavam o fim de um dia a mais... a resistência ao sono e ao cansaço... tudo valia a pena, até a exaustão, viver Paris até o final.

Dias equipados de energia, o salão de beleza vizinho, a imobiliária que postava na vitrine as ofertas para alugar e vender. A fantasia das escolhas entre tipos de habitações e a diversão com os requisitos necessários... o restaurante pertinho, com um menu de sobremesas tentadoras... o aconchego do lugar... os garfos voando por cima, em mãos que se cruzavam na mesa, para provar o desejo alheio.

Os passeios planejados ou improvisados, até ao Jardin des Plantes... suas aléias exibiam rosas resistentes, com pétalas queimadas pelo frio. Os jardineiros podavam todas que trabalharam anteriormente. Tempo de descansar a beleza para renovar forças, para novos brotos…

Localizar um carrossel que percorria as praças da cidade... e... obrigatoriamente ceder à tentação de “dar uma volta”, amigos registrando esse mergulho nos tempos de criança... e ninguém enfrentava esse prazer gélido... “ é sobretudo na solidão que se sente a vantagem de viver com alguém que saiba pensar”. (J. J. Rousseau), e como tal, a solidão estimulava o proprietário a permitir um tempo a mais.

Percorrer a pé a cidade sempre foi o consenso, visitar um ou outro museu, lojas de arte, desvendar novos lugares, pesquisando cores e odores... na volta um sorvete “Bertillon” para não quebrar o hábito. Deixar-se ficar na Pont Neuf, acompanhando as embarcações e seus deslumbrados passageiros. Nenhum lugar com tamanho poder. Até de olhos fechados, visualizava cada pedra do pavimento, e ao ver uma mulher pedinte, jovem, de belos traços, lembrei de Piaf, a fleur du pavé, a rainha da música francesa, e evoquei “Sous le Ciel de Paris”...


O ar parisiense exalava a cultura, e esse se transformava em interesse. Apesar da chuva, a disposição despertava o prosseguir. “Ó barulho suave da chuva, pela terra e sobre os tetos! Ó canto da chuva” (P. Verlaine).

Como todo viajante que se preze, levei uma lista de encomendas, e, a mais importante, a da neta... após uma breve estadia em Lisboa, a loja de brinquedos não dispunha do objeto solicitado... em Paris, uma fila interminável aguardava os ansiosos pelo requisito. O segurança, após longa espera, comunicou que o estoque esgotou, e que talvez à noite, recebessem uma reposição. Embora o corpo solicitasse descanso, não poderia frustrar a expectativa de Julinha... e às vinte horas, propus ao grupo uma missão noturna... apenas um amigo se prontificou, sair à noite, com um temporal daqueles?

Muitos dos meus amigos vieram das nuvens, Com o sol e a chuva como simples bagagem Fizeram a estação da amizade sincera A mais bela das quatro estações da terra
(L’amitié – Françoise Hardy)

E lá fomos nós, moleques noturnos, encolhidos, sob um guarda-chuva, a sorrir de tudo que nos acontecia... observando o contraste dos franceses que não alteravam o passo e o porte, sisudos e firmes.
Parecíamos crianças, no total usufruto da liberdade. O vento forte desalinhava o cabelo, pois o capuz do doudone caía nos ombros continuamente. O frio, semelhante a uma echarpe de seda pura no inverno, envolvia o corpo como uma capa longa. Porque não vesti o mantô? os sapatos macios para longas caminhadas, tornavam-se pesados, absorvendo as poças no percurso. Inconscientemente havia um movimento direcionado à transgressão... os saltos das botas de couro não permitiriam correr para atravessar as ruas!

A avenida Champs Elysées estava vazia como nunca, suas luzes desfocadas nas lentes das gotas d’água. “Ah Champs Elysées, com sol, sob a chuva, ao meio dia ou à meia noite, tem tudo que você quer na Champs Elysées”. (Joe Dassin). Enfim, a loja estava aberta, sem fila, entramos sob o olhar crítico do vendedor, que imediatamente nos trouxe a fantasia de princesa. Solicitei duas sacolas com o mesmo tema para evitar danificar o objeto do desejo. Saímos felizes com o problema resolvido, e a animação maior, nos fez parar e comprar uma sopa quente para os que ficaram no hotel. “Eu deixarei o vento banhar minha cabeça nua” (Arthur Rimbaud).

E, como os antigos egípcios, conclui que o banho era sagrado, uma forma de purificar o espírito, mais vivenciar com um amigo verdadeiro, partilhar momentos de tão simples e intensa diversão, contar com alguém que priorizou o desconforto para servir, foi a melhor associação de alegrias em Paris. Merci Miguel.

“O céu está cinza e a chuva convida como que por surpresa... os guarda chuvas abrem em cadência... e as gotas caem em abundância na doce França” (La pluie – Zaz).


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  1. Lu vc me deu uma tarde maravilhosa com seus escritos. Poesia pura
    LI e reli várias vezes e cada vez gostava mais. Que orgulho de minha irmã poeta. Parabéns

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  2. Cara Marluce
    Suas reminiscências sobre Paris me fizeram lembrar comentário que fiz recentemente em torno de escrito do nosso Zé Mário Espínola, que ouso considerar enquadrar perfeitamente essas suas recordações.
    "Infelizmente, caro Zé Mário, muitas dessas impressões, hoje, são vãs.
    Aquele ar "démodé" que caracterizava a Paris eterna já não existe, dada a invasão étnica que a cidade está sofrendo e que a faz adquirir ares de miséria que não se coadunam com sua importância como capital mundial da cultura e do bom gosto.
    Mesmo assim, como disse o Rei Henrique IV, “Paris vaut bien une messe”, frase que, segundo se comenta, teria sido repetida pelo General Dietrich von Choltitz, comandante das tropas nazistas que ocupavam a cidade, ao se recusar a obedecer a Hitler, que lhe determinara destruir completamente Paris.
    Recusa que bem podemos considerar como um preito à civilização ocidental."

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  3. Marluce, na próxima viagem à Paris (esero que seja muito brevemente!)usarei seu texto como um roteiro cultural clássico. Que beleza de viagem! Que belo roteiro!
    Agradeço a Arael a sua lembrança, muito me engrandece! Me fez lembrar o excelente filme "Paris Está em Chamas?"

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