A calçada é ou era uma extensão da casa, feita e conservada pelo proprietário, mas de uso garantido e disciplinado pelas Posturas Municipa...

A calçada e a porcelana

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A calçada é ou era uma extensão da casa, feita e conservada pelo proprietário, mas de uso garantido e disciplinado pelas Posturas Municipais. Temos uma Lei de Posturas sancionada há 26 anos pelo então prefeito Francisco Monteiro da Franca.

Lembrei-me da existência dessa lei ao descer do carro, esta semana, no início da Pedro I, logo atrás do Palácio do Carmo, e ser impedido de tomar a calçada. Não existe calçada, toda ela, de uma esquina a outra, um farelo esburacado, destroçada pelo abandono, reduzida a um montão de cacos, ínvia como diria a mais catedrática titular do português
imperial do nosso Liceu, D. Olivina Olívia Carneiro da Cunha, mestra e ascendente dos Carneiro da Cunha de Ângela Bezerra de Castro.

E me lembrei de antigos tempos, quando o garoto curumim não precisava de calçada plana, lisinha, a não ser para disputar patacho com os “pareceiros” da mesma idade. Patacho na calçada e gude no chão de terra da rua ainda sem calçamento.

E mesmo essa coisa inocente era proibida. O velho Luis Pereira da Cunha poderia tropeçar, escorregar e tombar com seu corpo frágil, e o juiz Lapércio da Silva Valença, um pernambucano muito branco e alto que andava de cabeça para cima e tinha dificuldade de olhar pra baixo, exigindo, só com a sua passagem e a postura assombrosa, calçada rigorosamente limpa, bem varrida. Não tínhamos empregada, e quando Manuel Preto não ia lá em casa, era o caboclo aqui que varria.

Patacho, pelo que andei pesquisando, parece só ter existido no meu tempo de menino e em Alagoa Nova. Dos meus, de lá, com quem pudesse conferir, só restam aqui Teócrito Leal e Jeová Colaço, assim mesmo mais moços, e professor Clodoaldo Muniz Coelho em Campina, todos com o número que eu disco dado como inexistente. Nos dicionários de termos e expressões populares não consta. Nem nos nossos, de Horácio de Almeida e de Leon Clerot, nem no mais rico deles, que é o de Tomé Cabral, do Ceará, calcado quase todo ele na cantoria popular.

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O que você não achar na cantoria não existe. Só existiu esse joguinho de menino pobre, que consistia em atirar caco de telha aos pés da calçada; ganhava quem mais achegasse com ele aos pés da parede. Éramos uns quatro ou cinco meninos que, terminado o jogo, deixavam os cacos para o velho Luis Pereira da Cunha pisar em falso e arriscar a louça fina dos seus 90 anos.

Quando cheguei aqui não era como hoje. Curtiu-se a vaidade das calçadas e um dos belos tentos do prefeito Damásio, o pai do editor das nossas Posturas, o Chico Franca, foi induzir o pessoense a trocar os ladrilhos velhos, antiderrapantes, pelo Copacabana de imitação, do qual ainda restam algumas passarelas no Centro. Eram cozidos na fornalha do velho Gama, avô de Leovegildo, hoje o ex-jogador Júnior, que nos representa na Globo.

Na cidade de hoje mudou um pouco, foi preciso o prefeito Cartaxo intervir com recursos públicos na calçada particular para completar humana e urbanisticamente a avenida Beira-Rio, e parte, até agora, da Epitácio.

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