Não foi um crime… Foi um colapso da humanidade dentro de um homem só. Quando um pai mata os próprios filhos, mata um e o outro, para ...

Feminicídio vicário

feminicidio vicario violencia domestica
Não foi um crime… Foi um colapso da humanidade dentro de um homem só. Quando um pai mata os próprios filhos, mata um e o outro, para ferir a mãe, não estamos mais falando de ódio. Estamos falando de falência moral absoluta. De um lugar tão escuro que já não existe linguagem que explique. Só silêncio constrangido. Porque filhos não são extensão de vingança. Filhos são território neutro. Sagrado até para quem não acredita em nada. Aquele homem não quis matar duas crianças. Ele quis assassinar emocionalmente uma mulher… usando o que ela tinha de mais vivo. Isso não é sobre separação. Não é sobre disputa. Não é sobre guarda ou ciúme. É sobre posse. Sobre a incapacidade de aceitar que o outro é livre. Jornalista Flavio Ferraz (Instagram)
A definição de feminicídio vicário é: “uma forma extrema de violência de gênero em que o agressor mata filhos, enteados(as), ou outras pessoas próximas à mulher (como animais de estimação) com o objetivo específico de causar sofrimento, dor insuportável e punição à mãe, agindo como um ‘feminicídio indireto’”. É uma ferramenta de controle, poder e vingança utilizada após o fim do relacionamento ou para subjugar a mulher, atingindo-a “onde mais dói”.
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Ao comentar o caso em Itumbiara, o Instituto Maria da Penha, organização não governamental (ONG) que atua no enfrentamento à violência doméstica e familiar contra mulheres, confirmou que casos de violência vicária não são exceção. “É uma forma de violência de gênero que atinge mulheres por meio de crianças e adolescentes. Quando filhos e filhas são usados como instrumentos de controle, punição ou chantagem” (Agência Brasil).

É preciso nomear as coisas para que possamos identificá-las devidamente. Sou de uma geração que não tinha nomes para os bois (bois não!), monstros (monstros também não), homens de bem, de família normal, como se diz, que podem cometer os atos mais bárbaros e cruéis.

Sou de um tempo em que não existia o divórcio ainda, e éramos mulheres desquitadas. Quem já se desquitou sabe do que falo. E toda a carga de preconceito e violência, sim, que esse status carregava. Só depois me tornei uma mulher divorciada. Estigma quase igual. E sempre vi ao meu redor, com amigas, familiares,
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colegas, mulheres jovens e mais velhas, os homens se vingarem das suas ex-mulheres através da alienação parental, das mesquinharias com a pensão alimentícia, todas as artimanhas para esconder dinheiro, posses, para deixar a mulher encurralada. Filhos? Abandonavam-nos. Abandono de todos os tipos: financeiro, subjetivo, simbólico, presencial e afetivo. Amor? Essa palavra de luxo!

Nesta semana, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais absolveu um homem de 35 anos acusado de estupro de vulnerável, com a conversa de que viviam juntos; uma menina de doze anos e um acórdão de “vínculo afetivo consensual”. Que vergonha!

Mas o que nos fez sangrar, mais uma vez, violentamente, por esses dias, foi o caso monstruoso que aconteceu em Itumbiara, Goiás, do pai que matou dois filhos, de 12 e 8 anos, Miguel e Benício, para punir a mãe, Sarah Araújo, como diz o termo de que só agora tomei conhecimento: “feminicídio vicário”. Thales Machado, depois desse crime, se suicidou, deixando carta culpabilizando a mãe por adultério, quando vimos que eles já estavam separados havia um ano (a mesma atrocidade aconteceu em 2023 com a delegada
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Amanda Souza, que também teve dois filhos assassinados pelo ex-marido). Talvez o crime hediondo desse pai assassino seja a concretização efetiva do que já paira no desejo inconfessável de muitos pais que até hoje não sabem separar a mulher da mãe dos filhos.

Esse pai de que falamos ainda achou pouco e publicou um vídeo da mãe namorando alguém em público e deixou uma carta culpabilizando a mãe pelo seu bárbaro crime. A cena dessa mãe, acolhida pelo seu pai, à beira do caixão dos filhos, atravessou a todos nós por essa bala invisível que esfacela em nome da defesa da honra, como bem disse Estela Bezerra, secretária nacional do Ministério das Mulheres: “Ele executa os filhos e constrói, antes de morrer, por meio de narrativas, a responsabilização da esposa. E ainda coloca sobre ela a responsabilidade da morte, da execução que ele cometeu, porque estava sendo rejeitado e o relacionamento amoroso já não correspondia ao que ele desejava para a vida dela” (Agência Brasil).

Queridas Amanda e Sarah, e tantas outras mulheres: toda a minha solidariedade e as palavras copiadas do Flavio Ferraz para o nosso desalento e solidariedade:

“Dois meninos não sofreram apenas pelas mãos de um pai. Sofreram também pela negligência coletiva que normaliza sinais, minimiza violências emocionais, trata obsessão como amor. Matar filhos é escolher a dor que nunca cicatriza. Não existe reconstrução possível para uma mãe que enterra o próprio filho assassinado pelo pai dele. E a pergunta que fica não é jurídica. É humana: que tipo de sociedade estamos formando?”.


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