Entre as muitas e muitas lembranças que me ficaram de Martinho Moreira Franco, uma delas me acudiu no fim da tarde desse último domingo...

A cidade de Martinho

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Entre as muitas e muitas lembranças que me ficaram de Martinho Moreira Franco, uma delas me acudiu no fim da tarde desse último domingo: “Lembrou-se de ir ver os preparos da festa?” Era a pergunta de todo ano e que não faltou, agora, na sua ausência.

Os pavilhões se armando ao longo da General Osório, as barracas a impedirem o trânsito nas três ruas paralelas que saem da Catedral e de São Francisco, e os primeiros ensaios, os pileques preliminares ou simples arrastos de cadeira da boemia ansiosa.

Martinho era de 6 de abril, mas aniversariava, duplamente, com a sua cidade, no 5 de agosto. Seu Liu, o pai, e um tio grandão que morava perto do quartel devem ter botado o menino no costume. Seu Liu não bebia, era funcionário modesto e, como tal, exemplar, da Justiça; o tio, de quem ele deve ter herdado o tamanho e o humor com a vida, eu já não sei.

Na gestão de prefeito de Oswaldo Trigueiro do Vale, a amizade dos dois, dele e Martinho, encorajou o alcaide à vã tentativa de promover a festa como ela era nos gloriosos tempos. A festa à antiga. Os pavilhões se ornamentaram, a banda de música foi recomposta, o cenário se encheu de luzes e a chamada de página inteira no jornal com apelo da lavra de Martinho era ilustrada com uma beldade dos anos 1920 caprichada no traço amoroso de Milton Nóbrega. Só faltou a bagaceira, réplica dos cachaceiros à grã-finagem dos pavilhões.

Meu compadre tentara com Oswaldo a sua à la recherche du temps perdu. Mas os tempos já eram outros, o amor desencantara e o humor já não via graça no jornal de festa. Um jornal tão irresistível a ponto de converter, no seu tempo, um poeta das moneras como Augusto dos Anjos num dos seus redatores.

Mesmo assim, a festa não largava o calendário de Martinho. Ele saía de véspera a cada montagem de carrosséis, rodas-gigantes, arremedo de pavilhões, os olhos do menino e rapaz socorrendo, pródigos, os do setentão nunca rendido.

- Tem mais festa não, amigo velho!

- Não tem pra você – revidava rude.

Aposentado, rodeado de netos, morava em Manaíra. Creio que mais pela família, presa à tendência dos novos tempos ou da mudança da cidade de água doce para a do azul salgado.

Em seu último aniversário, isolado pela pandemia, a meninada, os filhos foram saudá-lo à distância, acenando da praça, lá embaixo, ele na varanda, de bengala, o abraço no ar os tornando muito mais juntos. Compartilhei, compartilhamos todos, familiares e amigos, por onde o instantâneo passou, registrado por Hermes de Luna na TV.

Mas ali não eram os seus pagos. Gostava do mar, sim, mas até onde a mesinha do petisco encontrasse chão mais duro e firme. Dela não passava, ainda que viesse de sua lavra a maioria dos textos oficiais de nossa promoção turística, desde João Agripino, quando gritamos juntos em manchete de O Norte: “Pode vir que tem hotel”. Seus pagos, seus penates, seus lares eram mais enladeirados, a mesma coisa a vida toda e não cansava de ver. Rara a vez que saíssemos juntos para não conferir os mesmos lugares, as mesmas saudades. Tudo visto como pela vez primeira.

Pois foi das bandas do mar que vi Martinho se despedir, ele sereno no seu aceno ou no seu adeus. Aqui, entre um rio e outro, a cidade com as suas torres velhas e o fantasma de sua festa, aqui ele continua sempre vivo, reabrindo o Plaza, o Rex, o Municipal, as portas do sonho de sua cidade.

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  1. Quantos dessa patota já se foram, hein Gonzaga?
    Cada um deles deixando relembranças mís e vazios impreenchíveis.

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