Meus amigos Germano Romero e João Batista de Brito se queixaram, quase simultaneamente, expressando o seu descontentamento a respeito da ...

O que queremos?

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Meus amigos Germano Romero e João Batista de Brito se queixaram, quase simultaneamente, expressando o seu descontentamento a respeito da nossa música. O que terá acontecido com a nossa música? Nada se ouve além de uma batida repetitiva, com frases chulas e muito abaixo da linha da inteligência. Um golfinho faria melhor.

Para gerações perdidas e sem escola, num país que nunca teve um projeto nacional de educação, não é de se espantar que haja uma apreciação “disso” que, em todos os ambientes sociais, com honrosas exceções, chamam de música. De um condomínio próximo ao meu, ouço, com certa frequência, alguém que não só a aprecia, como reproduz o fraseado grotesco, numa tentativa frustrada de prolação não menos grotesca de canto.
Vejo também mocinhas fazendo a gesticulação e os movimentos, que traduzem um explícito apelo sexual, sob os olhares de uma horda de rapazes. É de doer.

Como esperar algo melhor, de quem vive num país em que a cultura cambaleia a cada esquina, cujo patrimônio arquitetônico se dissolve a olhos vistos, cujas bibliotecas, quando existem, são mal aparelhadas; país em que se contam nos dedos as poucas livrarias dignas desse nome? Quem vai gostar de Noel Rosa, um autor que coloca nas suas músicas “soturno” (Três apitos), “distúrbios” (Voltaste), “hemoglobina” (A meu amigo Edgar), transformando a tuberculose, sua sintomatologia e os procedimentos clínicos e laboratoriais em música; “vagabundo” (Filosofia), no sentido mais erudito do termo; “carneiro mocho” (Cabrocha do Rocha), além de um verso refinado e belo como “Tu cavaste a minha dor/ com a pá do fingimento/ e cobriste o nosso amor/ com a cal do esquecimento” (Silêncio de um minuto)? Não há alcance para tanto, num país de iletrados.

Lembro que o meu amigo Chico Viana é fã de carteirinha de Chão de estrelas, de Sílvio Caldas e Orestes Barbosa, considerando-a um festival de metáforas, se não estou enganado. Quantos de nossos jovens e adultos atuais, com menos de 40 anos, serão capazes de acompanhar e de se deleitar com a beleza de sua letra? E Serra da Boa Esperança, de Lamartine Babo, verdadeiro poema musical em que alguém parte “levando saudades,/ saudades deixando,/ murchas, caídas, /lá perto de Deus”?


Incompreensível de todo deve ser a excepcional Por causa desta cabocla, de Ary Barroso e Luiz Peixoto, pela simplicidade da letra e pela beleza das imagens ali evocadas. Mesmo a magistral interpretação de Nana Caymmi, cuja voz terna, morna e educada dá o tom da visão compassada do caboclo pela cabocla por quem ele está apaixonado, parece não ter força contra a obtusidade do mau gosto. É puro deleite seguir a Cabocla que faz as flores virem para a beira do caminho, só para admirar o seu jeitinho de caminhar; cujo seio moreno, escapado para fora da camisa, é guardado pelas rolas, que lhe cobrem o colo com suas penas, preservando a sua castidade; cabocla cujos olhos confundem os rios, pensando que já chegaram ao mar, e cujo sono cala toda a natureza, deixando apenas o caboclo acordado, adorando-a na sua paixão.


E nem quero me referir à música erudita, maravilhosamente traduzida nos ensaios poéticos de Germano Romero. Aí seria pedir o impossível aos que desconhecem completamente que música (μουσική) é, para o grego, a totalidade do conhecimento artístico e científico das Musas, não a batida estéril e chã de ruídos impertinentes.

Esta é a realidade que vivenciamos já há alguns anos. Perdemos um precioso tempo, em brigas tolas, defendendo salvadores da pátria, esquecendo de nossa força como cidadãos; permanecendo na mentalidade tacanha de sustentar privilégios de políticos corruptos,
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preguiçosos, inoperantes, e cerrando fileiras por sua permanência ou por sua volta ao poder, sem avançar um milímetro socialmente. Envolvidos nessa briga inglória, que leva cada um a puxar a desrazão para o seu lado, sem que se pregue uma união nacional, visando ao crescimento do Brasil, não percebemos que somos os responsáveis pelo esgarçamento, cada vez maior, do tecido social.

A triste e crua realidade é que nos falta Escola. Escola com E maiúsculo, no sentido maior de um projeto de Estado, exequível, que já passou da hora de se implantar, para poder se ampliar. Projeto que entre na Constituição como uma cláusula pétrea, inarredável, e que envolva a todos. Teremos eleições para o executivo, no ano que vem, e veremos mais do mesmo: todos querendo salvar a pátria, ninguém com um projeto de educação, a ser implementado a partir do primeiro dia de governo.

Do alto dos meus 45 anos de ensino posso dizer que a Escola é, ainda, o melhor caminho para diminuir as desigualdades e gerar oportunidades. Ou isto ou a irritante e inercial batida monocórdica, recheada da mais rasa e vulgar denotação. O que queremos?

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  1. Bolsonaro é o fundo do poço, mas ele já vinha sendo escavado há um bom tempo. Em 2012, quando foi lançado com sucesso internacional, O Som ao Redor - do Kleber Mendonça Filho, do qual participei como ator - teve cinco salas no Rio, seis em São Paulo, nenhuma aqui, enquanto Batman e o Homem Aranha tinham 3000. Nesse mesmo ano vi entrevista de Affonso Romano de Sant´Anna dizendo que as grandes editoras brasileiras estavam sendo vendidas para estrangeiras... que não queriam autor nacional nem pintado. E Nélida Piñon confirmava o que se sabia: que os autores hermanos de nossa vizinhança tem um apoio em Madri, que os brasileiros nem sonham ter em Lisboa, o que me foi confirmado com amigos escritores que vivem lá. No final dos anos 70 fiz uma viagem ao Paraguai e Argentina, e vi confirmado o que lera de José J. Veiga: enquanto veneramos a literatura de nossos vizinhos, eles nos abominam. Nessa época tive meus livros publicados por grandes editoras do sudeste - com direito a distribuição e divulgação nacional - coisa que deixou de acontecer no novo milênio, quando tive de passar a publicar por minha própria conta, apesar dos prêmios. Não me surpreende um Ministro da Educação dizer agora que universidade é para quem possa pagar por ela, quando o do meio ambiente toca fogo nele, o da saúde é - em plena pandemia - nenhum, por um bom tempo, ou um general. Perguntou bem, mestre: "O que queremos?", pergunta a que poderia ser acrescentada outra: "O que faremos?" Flávio Bolsonaro disse tudo, quando, perguntado sobre o que o pai esperava da CPI da Covid, previu-lhe a gargalhada: "Quá quá quá quá quá!" Terrível, isso? Não: terrível é ver que isso tem uma multidão de adeptos.

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  2. Desconheço definição mais perfeita do que esta, para o amor e para o enlevo diante da mulher amada, Solha. A letra é de uma delicadeza que nos admira; o ritmo da música faz uma combinação perfeita com o andar e o descanso da cabocla, que se completa com a contemplação do caboclo, que, único acordado na noite, repete-lhe o nome. Esta maravilha de composição, no entanto é desconhecida, pois a mulher mais conhecida da MPB é "a moça do corpo dourado de Ipanema"... Repito: é de doer.

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