Tempos difíceis neste presente, que nos conduz a revisitar o presente passado, e, se possível, mergulhar no presente futuro, como nos en...

Olhos no exílio

cristovam buarque exilio paris ditadura
Tempos difíceis neste presente, que nos conduz a revisitar o presente passado, e, se possível, mergulhar no presente futuro, como nos ensinou Santo Agostinho. Neste mergulho ao passado, tenho incessantemente procurado ir a lugares, procurado amigos que o tempo e a distância esconderam. Buscando reeditar velhos e bons afetos. Foi assim que encontrei Cristovam Buarque, com quem tive uma grande convivência na diáspora parisiense durante a ditadura.

Recentemente, Cristovam, ao ler meus rabiscos sobre aquela época dos anos setenta, brindou-me com um formidável e afetuoso texto sobre a nossa vida, passados cinquenta anos. Sem o seu “avis favorable”, o enxertei no introito do meu livro Os Olhos no Exilio – Antimemórias,
trazendo assim Cristovam, grande figura humana e homem publico para perto de mim. Razão de sobra tem o ditado “o afeto do passado é como os ventos apagam as pequenas chamas, e acendem as grandes.
O Exílio é Sempre.

H
á livros tão bons, que ao terminar de ler queremos recomeçar a leitura imediatamente; outros, ainda melhores, nem pensamos isto porque os olhos ficaram marejados e a mente turva pelas lembranças provocadas. Senti-me assim ao terminar a primeira leitura do “Os Olhos no Exílio: Fragmentos & Antimemórias”, de Francisco Barreto.

É possível que seja um sentimento pessoal por ter compartilhado o mesmo tempo da história e o mesmo espaço do mundo, até mesmo algumas das estórias e os mesmos lugares que o livro descreve.

Mas além das razões para minha empatia pessoal, o livro tem as razões básicas para emocionar qualquer leitor: o lirismo poético da linguagem que flui, a aventura em um momento histórico estimulante e perigoso de se viver, as inquietações morais, politicas, intelectuais
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e religiosas que seu autor expõe e provoca. Sobretudo, as razões básicas um bom livro: uma boa estória bem escrita, que nos encanta e ensina.

Para aprender e se deslumbrar, o leitor não precisa ter seus caminhos entrelaçados com o autor e com a estória. Basta abrir o livro e mergulhar nele. Deixar-se levar pela estória, sentir a alma do autor naquele tempo, vendo o ao redor onde ele caminhou, se arriscou, chorou, riu, amou, sofreu, teve dúvidas, se apaixonou por pessoas, por ideias, crenças e lugares. Em um marcante período de nossa história brasileira e mundial, na politica e nas ideias.

Contada por um brasileiro que sofreu e usufruiu de seu tempo e espaço, entendeu onde e quando vivia, quis transformar o mundo para fazê-lo melhor, e agora nos oferece este relato de sua biografia e da história, entrelaçadas com personagens instigantes, descritos com amor e sinceridade.

Sou um garimpeiro de memórias, especialmente por personagens de nosso tempo, esta é uma pepita de raro valor, como algumas encontradas na luta de Serra Pelada, fotografada por Tião Salgado que é um dos personagens do livro.

Ao reunir suas lembranças e construir esta joia, que nos oferece sob a forma de livro, Barreto permite o deleite da leitura, provoca reflexões,
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nos ensina a história de um tempo, sem amargura, reclamações, nem euforias: apenas o lindo relato de uma vida.

Há pessoas que vivem para acumular bens, outras para aumentar o curriculum, Barreto viveu e vive para viver. Tanto quanto Neruda - a quem ele encontrou em Paris, mas timidamente não beijou a mão.

Barreto viveu e acumulou memórias e entendimentos do mundo no tempo em que viveu. Acumulou lembranças que teve a generosidade e a genialidade de nos transmitir em um belo e estimulante livro.

Nele, Paris e João Pessoa são personagens centrais, tanto quanto suas ideias e dúvidas: partir ou não partir, ser ou não ser cristão, fazer ou não fazer luta armada.

Este livro é um presente do autor a seus leitores, contemporâneos e entrelaçados a ele ou de gerações futuras. Por isto, ao terminar de ler fica vontade de recomeçar a leitura e de dizer muito obrigado, Barreto.

Cristovam Buarque

PS. Barreto, a descrição da viagem de navio atravessando o Atlântico para a França, me lembrou Neruda atravessando os Andes a cavalo para o exílio na Argentina. Não lembro o nome do cavalo de Neruda, mas foi bom você ter dado o nome do barco que o levou para o exílio, do qual você nunca desembarcou, porque o exílio é para sempre, não importa onde moramos.

O livro mostra que o exílio não nos deixa, nós o carregamos conosco. Paris e todas nossas lembranças, nossas dúvidas e lutas, fracassos e conquistas, sustos e deslumbramentos continuam em nós. Seu livro nos ajuda a ver o exílio eterno dentro de nós, sem temê-lo.


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  1. Pois é, Barreto: no seu livro você nos expõe uma coleção de momentos , situações vividas e personagens inesquecíveis, que enriqueceram a sua personalidade que é hoje.
    E escrito num estilo muito agradável, sem viés.
    Que venham outros livros!

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  2. Quanta inveja de alguém que é tão amigo de alguém que chama o enorme Sebastião Salgado de Tião!

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