Gosto da brutalidade do solo onde piso, do cheiro do verde e da palavra. O solo me transmite a sensação de terra firme. Nela, aprecio a su...

Tudo em terra firme

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Gosto da brutalidade do solo onde piso, do cheiro do verde e da palavra. O solo me transmite a sensação de terra firme. Nela, aprecio a suavidade do colibri e a materialidade da escrita. Mas eu não vivo unicamente da palavra. Dou risadas de bobagens que vejo naquele filme assistido repetidas vezes, do chinelo que guarda um lugar na fila cheia de gente, da piada sem cabimento. Isso também é viver. Música suave me agrada. Guns n' Roses também. Falo baixo com palavras escandalosas, amorteço a guerrilha interna, leio. Gosto do livro que me segura na mesma página quando a conversa é boa, gosto do texto. Ele é meu território, já disse muitas vezes, mas, antes dele, precisava de um chão consistente para criar.

Iniciei com uma escrita embrionária, mas geniosa. Eu já sabia o que ia dizer. Só precisava da constância pra dizer que era aquilo mesmo que eu ia dizer. Tenho um mapa de referências. Na literatura, Lya Luft, Clarice Lispector, Fernando Pessoa. Na pintura,
Ezequiel Junoe
Wendell Well e sua genialidade. Nas artes visuais, o fotógrafo Cássio Vasconcellos. Mas meu DNA também carrega desafetos. Irrita-me o alto-falante que me cerca na rua às quinze horas, o som áspero do despertador quando a noite ainda dorme, a peça de roupa perdida na gaveta que reaparece depois.

O gosto é algo muito peculiar. E relativo. Se fosse uniforme, não despertaria interesse público. Acredito que aí reside um dos pontos altos do texto autobiográfico: escrever a respeito do que se gosta. E desgosta. Me parece uma forma diferente de conhecer alguém e pensar o que ele tem de diferente de nós. Gostos, desgostos, lembranças. O nexo e o desconexo também interessam. Gosto de pensar o espaço onde vou produzir minha escrita. Isso diz muito de mim. Se a luz me favorece, escrevo o que surpreende. No escuro, a solidão me espera na ponta do lápis. Gosto do nexo. Não contrária a religiões. Sem dogmas. Venceu meu contrato. Prefiro morango a doce de leite. O preço do meu gás está nas alturas. Me lembrei da aula de Química. Chego muito cansada. A última viagem nem me lembro quando foi. Uso Staedtler. Nunca em cima do muro. Recortei a foto. O curso é ótimo. Gosto do desconexo. A autocompetição me estimula. Jogos de sorte. Não gosto da morte. Lembrei da piscina na infância (a cabeça sempre fora d'água). Lembro da noite e reclamo dela. Prolonguei o dia. Irei à Itália. O nexo mora no corpo. O resto é descontexto.

Estou juntando pedaços de mim para resumir o conjunto de um corpo: o corpo de minha escrita. O tempo desta narrativa é o tempo da escrita de um livro. Portanto, meu texto admite toda ideia de relatividade.
Rieza
Escolhi dizer isso porque não cabe aqui um tempo fixo ou previsto. As minhas letras podem se concretizar em uma cena, em dois conflitos ou até em cinco anos. Só não quero dedicar a este texto as sobras de meu tempo. Desconheço quem se solidarize com as sobras. Toda autobiografia precisa nascer em terra firme e como prioridade do autor. A escrita autobiográfica surgiu em minha vida como fruto de uma não verdade.

Quando em menos esperava, fui mãe. Gabriel era a extensão.doc de meu corpo. Renato e eu não sobrevivemos às brigas. Restou apenas o filho de pais desgastados e o primeiro texto de romance autobiográfico foi publicado em antologia de uma editora sediada em Portugal, minha terceira casa literária. Não me preocupava se Gabriel cresceria com traumas da experiência vivida. Pensava em como eu poderia evoluir por meio de uma escrita autobiográfica que não era a minha. Era a de outra pessoa. Emprestei de um alguém uma história de vida e escrevi a minha própria. Não que eu me solidarize com sobras. Preciso de frações do outro para constituir minha jornada no mundo da escrita, que nada mais é senão um resumo do infinito que mora em cada um de nós.

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