Um livro de crônicas é um reencontro. Do escritor com seus textos acumulados pelo tempo. Do público com o cronista, agora em outra dimensã...

O cotidiano transfigurado pela perspectiva lírica

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Um livro de crônicas é um reencontro. Do escritor com seus textos acumulados pelo tempo. Do público com o cronista, agora em outra dimensão.

Provavelmente a seleção rigorosa do autor não possibilitará a cada leitor em particular o reconhecimento de sua crônica preferida. Aquela que, recortada com emoção e
Acervo A União ▪ Gov.PB
guardada há tanto tempo, ameaça desfazer-se em pó.

Como não relembrar aqui Juarez, o helênico, que foi preciso transcrever, a fim de que restasse preservada a continuidade da leitura?

Nenhum prefácio, por mais elucidativo, alcançará o poder de persuasão do recorte amarelado, até perdido entre outros papéis, mas que a memória identifica prontamente no arquivo de suas emoções. Um livro de crônicas tem essa peculiaridade. A extensão de inumeráveis páginas dispersas. Folhas volantes que se anteciparam em mistérios de anunciação.

É escassa e relativamente recente a reflexão teórico-crítica sobre este "pós-gênero literário, flexível e integrador, narrativa estruturalmente aberta" capaz de estabelecer-se como ponte entre a função da paraliteratura e a natureza da literatura. A iniciativa pioneira vem do professor Eduardo Portella, alertando para a necessidade de enfatizar a importância da crônica na moderna literatura brasileira. Segundo ele, isto significa valorizar "um esforço ponderável de configuração de um discurso poético qualificado".

O ajustamento da crônica à trama existencial complexa da sociedade de massa precisa ser examinado à distância do preconceito elitizante, onde tem origem a presunção de uma ordem hierárquica entre as espécies e formas literárias.
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Privilegiando-se agora o romance, como em outras épocas parecia indiscutível a superioridade do poema épico sobre o lírico, da tragédia sobre a comédia. O julgamento e o prestígio dos gêneros determinados pelo contexto. Incidindo, assim, sobre as obras literárias, o mesmo modelo de separação e distanciamento que impera entre as classes sociais.

Minimizar o valor da crônica é ainda uma atitude comum, quando o argumento para sua configuração como discurso poético qualificado é o mesmo que servirá para qualquer gênero literário. "A crônica é literatura toda vez que o cronista se resolve em nível da linguagem".

Mas é rara a caracterização de um escritor, exclusivamente através da crônica. E não se trata apenas de uma dificuldade da crítica. Também os cronistas acentuam essa tendência. Ou porque quase todos se dedicam simultaneamente a outras formas literárias, ou porque deixam sempre transparecer que o exercício aprimorado deste "gênero não canonizado" é mais exercício que opção.

Trata-se de uma visão cultural tão arraigada que, mesmo o professor Jorge de Sá, a quem se deve até agora o estudo mais sistematizado sobre a crônica (o primeiro livro inteiramente dedicado ao gênero), enfoca Rubem Braga nesta perspectiva: "corajosamente ele só tem publicado crônicas". E completa:
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"Certamente capaz de escrever contos, novelas e romances, não se deixou seduzir pelo brilho dos chamados gêneros nobres".

É fácil constatar como a literariedade não se inclui nestes parâmetros de julgamento da crônica. São outros os critérios que sustentam a insistente hierarquização dos gêneros. Critérios que deixam sem resposta convincente questões fundamentais:

Por que um romance seria necessariamente superior a um livro de crônicas?

Por que, em geral, não se estabelece esta mesma relação entre um romance e um livro de poemas?

Qual seria o superior, na comparação entre um livro de poemas e um livro de crônicas?

Nem Rubem Braga pôde fugir à realidade do confronto entre as duas espécies narrativas. Na sua visão poética,

"Há homens que são escritores e fazem livros que são verdadeiras casas, e ficam. Mas, o cronista de jornal é como o cigano que toda a noite arma a sua tenda e pela manhã a desmancha e vai".
"A crônica é uma tenda de cigano enquanto consciência da nossa transitoriedade, no entanto é casa — e bem sólida até — quando reunida em livro, onde se percebe com maior nitidez a busca de coerência no traçado da vida".

É irretocável o comentário do especialista. No entanto a pluralidade da metáfora permite a ousadia de outra leitura.

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Rubem Braga (1913—1990) Div.
Sem opor à transitoriedade qualquer resistência. Mas compreendendo a tenda como o abrigo possível, o mais próximo desta desadorada avalanche humana que se caracteriza como sociedade de massa. Na pressa de não chegar. Na estridência de não ouvir. Na violência de não viver. No automatismo de não ser.

A crônica é o "domicílio em trânsito" desses "passageiros da agonia urbana". Trincheira de resistência da palavra poética que reordena o caos e reinventa o homem.

Para um reencontro com A Dama da Tarde (livro de crônicas de Luiz Augusto Crispim) na sutileza de sua imprevisibilidade, recorri ao caminho mais longo. Do gênero para a obra realizada.
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Do elogio da crônica para o concerto destas rapsódias em azul, À sombra dos ipês em flor, onde o acento lírico de tom nitidamente proustiano atualiza o encanto daquela Última Página que foi para mim o princípio o verbo. E agora se confunde em justaposição com a "saudade da menina descalça que descia a ladeira de Tambiá no destino da Bica, rumo incerto de eternas férias que não voltam jamais".

Acompanhando pela vida inteira a produção intelectual de Luiz Augusto, escrevi avaliações analíticas sobre sua vocação de escritor, firmada essencialmente na crônica. Sobre os temas que se multiplicam como as possibilidades infinitas de percepção ou de imaginação do real. Sobre a excelência da visão crítica que se exprime através do humor habilmente construído. Sobre os recursos de elaboração de uma prosa poética em que o tecido do texto revela o escritor de muitas leituras, dominando inteiramente os processos e efeitos de sua construção.

São afirmações críticas que se reiteram, indicando pontos cardeais deste universo lírico reunido aqui sob critério antológico. Não é um livro extenso. Um pouco mais de cinquenta títulos. Mas de temas tão variados, com enfoques tão específicos e tratamento tão diversificado que fica difícil inventariar.

Estados de espírito materializados em substância poética. Destinos devastados, prodígios de sobrevivência sacralizados na perenidade das imagens. O cotidiano transfigurado pela perspectiva lírica. A violência mil vezes contestada. O riso que castiga os costumes. A doce melodia dos afetos. "a grande dor das coisas que passaram". A saudade que se inscreve desde o título como forma poética de resistência aos "novos tempos que dispensam testemunhas".
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Tempos caracterizados na linguagem metafórica do cronista pelas "feições do asfalto maquilado sobre as ruas da inocência perdida" ou pelo "concreto que se projeta para o alto como blasfêmias de cimento e ferro atiradas contra os céus". Tempo que se confunde com a ideologia desenvolvimentista e impõe aos homens o equívoco de que é preciso "extrair o nervo do humanismo, aplicar-lhes uma boa dose de indiferença e, sobretudo, abandonar de uma vez por todas a memória".

É este o cronista, recuperando o sentido dos valores essenciais. O sentido original comunitário. Nesta resistência da palavra que destroça a prepotência burocrática com a ironia de Quem sou eu? Que recupera o amor no ritmo do diálogo de Montanha Russa. Que faz sobreviver o homem em Um sonho de Natal ou em O menino e o sonho.

O cronista em sua fase azul, entre o céu e o mar. Azul de alma de menina, de pássaro, de rapsódia. Azul de manhã flutuando ao vento, de olhos profundos, de palidez. Azul de historietas de porcelana. "Azuis na vida desta pobre gente de tão acinzentado viver".

O cronista, como o poeta, removendo as cinzas, despertando a brasa, sacudindo os homens do seu torpor.
▪ De “Um certo modo de ler”, sobre o livro A Dama da Tarde, de Luiz Augusto Crispim

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  1. Gabriel García Márquez com sua Cronica de una muerte anunciada, Antonioni com sua Cronaca di un amore, me fazem crer que o "pós-gênero literário, flexível e integrador, narrativa estruturalmente aberta", pode ser mais flexível e integrador do que se suspeita.

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  2. As palavras de Ângela são um alento e um estímulo para quem escreve apenas crônicas

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