Radicalizando e depurando a proposta sonora do Movimento Armorial, tema abordado em nosso artigo anterior, Ariano Suassuna então abraça o ...

Armorial, um grito de liberdade

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Radicalizando e depurando a proposta sonora do Movimento Armorial, tema abordado em nosso artigo anterior, Ariano Suassuna então abraça o Quinteto Armorial, que viria a se tornar um dos mais substanciais grupos musicais brasileiros, na verdade o mais importante a criar, até hoje, uma música de câmara erudita brasileira de raízes populares. Formado em Recife, em 1970, e liderado por Antônio José Madureira, gravou quatro discos até o seu encerramento, em 1980. Sua proposta era criar um diálogo entre o cancioneiro folclórico medieval galaico-português e as práticas criativas e interpretativas nordestinas, ligadas à tradição oral e musical da região, buscando uma síntese entre a música erudita e as tradições populares.

O grupo era composto tanto por rabeca, pífano, viola caipira, violão, marimbau e zabumba quanto por violino, viola e flauta transversa. Integraram o projeto músicos talentosos como Egildo Vieira do Nascimento, Fernando Torres Barbosa e Edison Eulálio Cabral, além de Antônio Carlos Nóbrega, que se tornaria nacionalmente famoso nas décadas seguintes, dando continuidade às suas atividades em São Paulo, em carreira solo, desenvolvendo um rico trabalho ao mesclar dança e música tradicional nordestina, ainda com profundas relações com a proposta armorial.

De 1974 a 1980, gravaram quatro LPs que são verdadeiras joias de nossa música popular e erudita. Era a estética da música pela música, massa sonora de poesia, buscando a identidade, o âmago de nosso povo, sem interesses comerciais envolvidos. Foram desbravadores de um universo que sempre esteve latente em nossa cultura. No final dos anos 90, um trabalho relacionado ao do Quinteto foi desenvolvido pelo Quarteto Romançal, cujo diretor artístico também era Antônio José Madureira.

Visceral, ímpar, inigualável. Todos os adjetivos são insuficientes para qualificar a sonoridade do Quinteto Armorial. Em algumas faixas de apenas dois ou três minutos, viajamos pelos sons, melodias e ritmos do Nordeste: vamos do litoral do Maranhão ao interior da Bahia em um piscar de olhos, cruzando os sertões da Parahyba e de Pernambuco. Sentimos o pulsar de nosso povo naquilo que ele tem de mais honesto, puro, genuíno. Do Romance ao Galope Nordestino (1974) e Aralume (1976) são obras-primas irretocáveis, complementadas pelos enciclopédicos Quinteto Armorial (1978) e Sete Flechas (1980). Abaixo podemos ouvir os três primeiros discos citados, bem como a faixa antológica Improviso, do álbum Sete Flechas.


As músicas estampam, além de composições belíssimas dos membros do grupo, pérolas de mestres como Guerra-Peixe, Capiba, Heitor Villa-Lobos, Raul Morais, Lourival Oliveira, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Quando se ouve a beleza sublime e poética da sonoridade do Quinteto Armorial, temos a exata noção do que é, através de um processo de exclusão, em termos artísticos e musicais, o que hoje muita gente chama de “lixo cultural”. Não citarei aqui nenhum nome de artista, grupo ou gênero de nossa música popular. Não vale a pena. Iria conspurcar o presente artigo. O Quinteto Armorial foi o milagre da transformação do popular em erudito, sem a perda de suas características mais autênticas. Um momento único em nossa música e em nossa cultura.

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