Quarenta anos depois de cruzar o umbral da redação de A União, este jornal continua suprindo a Universidade que continua distante de mim...

A União como a voz do campo

Quarenta anos depois de cruzar o umbral da redação de A União, este jornal continua suprindo a Universidade que continua distante de mim.

Quando fui adotado, em 1980, sua redação revelava-se paisagem dos meus devaneios, e à medida que os anos passavam, me deu guarida e agasalho, do jornal recolhi amigos que sempre apontaram horizontes para consolidar aspirações pessoais e os caminhos da Arte.

Quando meus passos se consolidaram na redação, pois chegava como repórter depois de engatinhar pelo ambiente de O Norte, onde copiava telegramas enviados pelas agências nacionais e internacionais de notícias, a diretoria decidiu editar um suplemento agrícola, ajudando no diálogo do governo com o agricultor. Talvez por causa de minha procedência da agricultura ou pelo jeito de camponês de andar, convidaram-me a integrar a equipe que cuidaria do suplemento agrícola.

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A União sempre teve essa aproximação com as classes produtoras, assumindo papel de porta-voz quando os parlamentares se ausentavam das propostas que garantiam o fortalecimento da economia rural, base de sustentação de qualquer plano econômico, ainda no tempo quando tinha em abundância a força do braço para escavacar a terra e semear os grãos.

No tempo do meu bisavô João Mendes, este tomava conhecimento das políticas públicas para o setor agropecuário, do preço da saca de café, do garajau de rapadura à arroba de carne bovina pelas páginas de A União. Na década de 1930, o jornal chegava de trem até Borborema e dali seguia para Serraria, em lombo de animais. Dos poucos leitores da cidade, meu bisavô reservava as tardes para sua leitura, recostado na cadeira de jacarandá, levantando a vista apenas para observar o pôr do sol com nuanças avermelhadas e cinza margeando o alto das serras, a perder de vista.

Sóter
O deputado Francisco Duarte Lima, que Serraria exportou ao Senado no ano de 1936, eleito para substituir José Américo de Almeida que renunciou para concorrer à presidência da República, cujo plano foi frustrado por Getúlio Vargas que desejou ser ditador, servia de gozação porque cobrava melhor preço para a rapadura. O homem do campo tinha voz no parlamento e o jornal era palco de discussões e debates.

Naquela época, A União editava, toda semana, um suplemento agrícola – Parahyba Rural – com reportagens e artigos abordando temas de grande relevância para a agricultura. Os cuidados para o controle de pragas e insetos que atacavam os cafezais, os algodoais e o bicho da seda, além da cana que abundava nas várzeas do Rio Parahyba e todo o Brejo, fontes de renda que engordava a economia da Paraíba, eram repassados por agrônomos especializado em cada assunto. A Paraíba ganhava escolas agrícolas em Bananeiras e Areia, em Umbuzeiro e Alagoinha funcionavam estações de pesquisa para o melhoramento genético de bovinos. Ao final do milênio passado, os olhares ainda estavam voltados para as coisas do campo, e na Paraíba não poderia ser diferente. Se antes a preocupação era para a produção de alimento, àquela época, como agora, além de saciar a fome, setores da sociedade se preocupam com as causas e os efeitos danosos sobre a Natureza, que trazem enormes consequências para o futuro da humanidade. A União daria uma grande contribuição se, como há cem anos e depois nos anos que antecederam a chegada do novo milênio, promovesse discussão sobre a questão ambiental, o uso racional da terra.

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Este jornal sempre foi instrumento usados pelos governos para mostrar suas atividades administrativas, em épocas com maiores ou menos abrangências, o que se propõe desde sua fundação, em 1893, contudo, sem nunca deixar de registrar a evolução econômica e social da Paraíba.

Conhecendo o passado é possível construir o futuro com pedras sólidas, resistentes às ventanias e tempestades. O esforço individual ou coletivo ajuda nessa tarefa de construção uma sociedade onde existam menores dores e mais sorrisos. Assumindo a voz do campo, este jornal contribuirá para a efetivação do fortalecimento da economia e da melhor condição de vida.

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  1. Nunes, pode ser que me engane, mas não há, na Paraíba, ninguém mais apaixonado pelo que faz, do que você. Isso já me ficou visível anos e anos atrás, quando eu via sua quase veneração a Nathanael Alves, o imenso respeito e admiração por Gonzaga Rodrigues.

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