Foi justo, mais que merecido, o comportamento dos que fazem a TV Cabo Branco ao trazer de volta, bem vivo e em grande estilo, o velho Chic...

Um outro Chico Maria

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Foi justo, mais que merecido, o comportamento dos que fazem a TV Cabo Branco ao trazer de volta, bem vivo e em grande estilo, o velho Chico Maria. Não foram poucas as vezes em que me vi preso à entrevista mais pela pergunta de Chico do que pelo que viesse do entrevistado.

“O que Chico vai perguntar a Prestes?” – parei e fiquei aguardando. Ele adivinhava o que queríamos saber e no dizer de Amir Gaudêncio “não chutava para dar cartaz a goleiro.”

Mesmo vindo de uma grande escola de rádio, a da Borborema de Campina Grande, para mim foi uma grande revelação. Eu que o conhecia de prosa e de crônica sempre bem-humoradas, naquele gênero do humorista de cara fechada. Feliz e espontâneo nos seus chistes e em caricaturar pessoas e situações, afinidades que mais nos aproximavam. Sem ser poeta fardado, fazia parte da representação de inspirados de Campina Grande.

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Caricaturou-me como pilantra de óculos ray-ban flagrado em apuros de malandro num cabaré da Lapa dos anos 1950, pura ficção. Deixou crônicas de amor à sua cidade, como as da despedida do Babilônia e do Capitólio, que seria obra pública reeditá-las para as bibliotecas escolares e de entidades culturais.

Sem nenhuma dúvida, o jornalista, o Chico Maria entrevistador, já o notabiliza o suficiente para ser lembrado além da sua própria geração, como ocorreu agora no registro de sua morte. Sua lição foi rememorada com fidelidade e sentida admiração.

Mas ressurge um Francisco Maria Filho, de sessenta anos atrás, que se impôs na memória histórica das nossas lutas sociais, não como o entrevistador, mas sim como o entrevistado. Depois do 2 de abril de 1962 não havia fim de tarde que a imprensa, menos daqui do que fora, não rodeasse o birô do jovem chefe de polícia atrás de saber quem mandou matar João Pedro Teixeira, o líder da conflagração camponesa centralizada por Sapé. Uma Sapé que Robert Kennedy desejou conhecer, que era um ponto vermelho no mapa do FBI com vistas para a América Latina.

Acervo familiar
Quem matou não foi problema. O problema emperrava em quem fez a encomenda. Se o poder não estava do lado do mandante, a facção política e econômica mais forte que o apoiava, esta estava. E a Assembleia a ela obedecia: abriu vaga até chegar a vez de acolher o quarto ou quinto suplente, acusado de mandante na apuração do inquérito.

Chego a supor que Chico aprendeu a entrevistar com o entrevistado daquela hora. Da imprensa local quem melhor perguntava era A União do repórter Severino Ramos. Nem parecia jornal oficial. Todo fim de expediente, num dos sobrados com frente para a Praça Rio Branco, onde funcionava a Chefia de Polícia, era a caça dos jornais do mundo ao dr. Chico Maria. Essa cobertura da chamada grande imprensa e de alguns órgãos estrangeiros, como Time-Life, deve ter ajudado na busca intensa e determinada de justiça posta diretamente nas mãos e na coragem de um advogado de 30 anos, de um promotor (Eurico Santiago Rangel) e de um juiz que valeu, sozinho, por todo um tribunal, dr. Walter Rabelo Pessoa.

Estou falando do que ninguém mais se lembra. Tudo acabou, suponho que até o sonho milenar de reforma agrária, que matou Catilina e veio pegar João Pedro e minha conterrânea Margarida Alves.

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