“Queridíssimo, Tenho certeza de que vou enlouquecer novamente. Sinto que não podemos passar por outro daqueles momentos terríveis. E, d...

Descanse em paz, Virginia

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“Queridíssimo,

Tenho certeza de que vou enlouquecer novamente. Sinto que não podemos passar por outro daqueles momentos terríveis. E, desta vez, não vou me recuperar. Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Então estou fazendo o que me parece ser a melhor coisa a fazer. Você tem me dado a maior felicidade possível. Você tem sido, em todos os sentidos, tudo o que alguém poderia ser. Não acho que duas pessoas poderiam ter sido mais felizes, até a chegada dessa terrível doença. Não consigo mais lutar. Sei que estou estragando a sua vida, que sem mim você poderia trabalhar. E você vai, eu sei. Veja que sequer consigo escrever isso apropriadamente. Não consigo ler. O que quero dizer é que devo a você toda a felicidade da minha vida. Você tem sido inteiramente paciente comigo e incrivelmente bom. Quero dizer isso – todo mundo sabe. Se alguém pudesse ter me salvo, teria sido você. Tudo se foi para mim, menos a certeza da sua bondade. Não posso continuar a estragar a sua vida. Não creio que duas pessoas poderiam ter sido mais felizes do que nós.
V."

Carta de Virginia Woolf a Leonard, em 28 de março de 1941

Este é um dia que me dói de uma forma que mal consigo dizer. Hoje fui às lágrimas (de novo) ao ler em voz alta a carta de despedida de Virginia Woolf, que morreu há 81 anos.

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Virginia Woolf no jardim de casa (Rodmell, Ing.) ▪ Fonte: Wikimedia CC0
Talvez seja esse o mistério dos grandes artistas: eles fazem morada na nossa alma. Deixam-se ficar, habitando o terreno das emoções mais puras. E sua dor nos pesa como algo que queima o coração.

Virginia é isso para mim: a mais amada, a senhora de um texto belo, sofisticado, e de uma cultura invejável. Nestes dias que trabalho na preparação da nova edição de dois de seus livros, por vezes sonho com ela, com suas palavras exatas, pequenas joias a brilhar nas páginas. É como uma amiga. Acordo com saudade dela, invariavelmente.

Virginia lutava com graves problemas psiquiátricos. Passava por uma fase de profunda depressão e adivinhava que viria algo dificílimo: as crises que antes a levaram a ser internada e a sofrimentos indizíveis para ela e a família.

Havia terminado o manuscrito de seu último romance, Between the Acts. A II Guerra Mundial tinha começado e sua casa havia sido destruída no bombardeio de Londres. Quando Leonard se alistou na Guarda Nacional, Virginia, pacifista, se ressentiu. A guerra a tornou obcecada com a ideia da morte: já havia passado pela I Guerra Mundial e acompanhado os dias sanguinolentos da guerra civil espanhola.

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Monk's House, Rodmell, East Sussex, Ing. Nick Lansley
Naquele 28 de março de 1941, estava cansada. Escreveu a carta, encheu os bolsos do sobretudo com pedras e entrou no rio Ouse, perto de sua casa. Sempre imagino no que pensava enquanto caminhava até o rio. Ouviu os pássaros? O vento entre as folhas?

Partiu em meio às águas, sempre tão presentes em seus romances. Seu corpo foi encontrado no dia 18 de abril. Leonard pôs suas cinzas debaixo de um olmo no jardim de sua casa em Rodmell, Sussex. Sua voz está preservada nos seus textos. Forte, vigorosa, grandiosa.

Descanse em paz, Virginia.

COMENTÁRIOS
  1. Sempre achei que a genialidade não é para pessoas de biografia tranquila.

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  2. 🙏🙏🙏🙏🙏🙏🙏🙏🙏🙏🙏

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