OFÍCIO Como troféu, carrego em meu pescoço os ossos do meu ofício. O peso, de tantos que são, me impele a não olhar para trás,...

Que saudades das flores de plástico

poesia paraibana marineuma oliveira saudade

OFÍCIO
Como troféu, carrego em meu pescoço os ossos do meu ofício. O peso, de tantos que são, me impele a não olhar para trás, a diminuir os passos e a pensar que chegou a hora de enterrá-los, em cova rasa, para que descansem em paz. Amém!
CIBERNÉTICA
Meu avatar, concebido em hordas de bits frenéticos que vão de 0 a 1, lusco-fusca online, em vitrine virtual. Nesse universo surreal, quando em off, meu ID casual descansa, em standy-by, desligado da complexa rede de conexões infinitas, ciberespacial, que, vez por outra, habito.
DA INFÂNCIA
Minha mãe instituiu o dia da faxina. E tudo ficava de pernas para o ar. Eu queria mesmo era estar de dentro, com importância, jogando água e sabão, usando o rodo e o pano de chão. Mas o que a mim cabia era lavar, horas a fio, as inúmeras e tristes flores de plástico que ela teimava em espalhar pelos quatro cantos da casa. Eu não gostava, mas fazia. E ninguém jamais viu flores mais limpas do que as que eu lavava. Que saudades das flores de plástico da minha modesta e longínqua infância.
DIAS DE CHUVA
Quando chovia, eu tinha a chance de usar as galochas e a capa de borracha que herdei da prima rica. Eu pisava na terra molhada, cujo cheiro me trazia uma lembrança tão boa de nem sei qual lugar. E eu seguia o curso da água que corria rente ao meio-fio. E eu olhava as últimas gotas que caíam pelas biqueiras. E eu achava que aquilo me bastaria...
SONHO
E se o tempo parasse e o sonho se realizasse, quem sabe a vida seria mais suportável? E enquanto o tempo permanecesse parado, o sonho se transformaria em realidade. E nós esgotaríamos todas as possibilidades de achar que o destino, mais que inimigo, é cumplicidade. E quando o tempo outra vez andasse, restaria a angústia de não se poder tornar o etéreo, eternidade.
ENVELHECER
As dores estabelecidas demarcam a sutil presença da morte em vida.

COMENTÁRIOS
  1. Sou suspeita em falar de Marineuma de Oliveira e sua obra, sua poesia é aconchegante e cheia de reflexões e nos convida a viajar no tempo. Gratidão por compartilhar conosco seus versos, professora.

    ResponderExcluir

leia também