A violência está insuportável? Então todas as polícias, numa colossal e imbatível força-tarefa, aparecem na telinha, nas primeiras pá...

O feeling da notícia

A violência está insuportável? Então todas as polícias, numa colossal e imbatível força-tarefa, aparecem na telinha, nas primeiras páginas, em cadeias de rádio e em todos os sites, blogs, portais e tudo o mais, exibindo o resultado de uma megaoperação contra bandidos de alta periculosidade. A sociedade respira aliviada, começa a imaginar que existe de fato um aparato de segurança ágil e eficiente dando proteção a todos, dia e noite.

A corrupção está engarrafando os grampos? Então dá um “zoom” no vigarista “da hora”. Com todo o mundo jogando pedra na Geni, fica a ideia de que o Brasil está sendo passado a limpo. As doenças endêmicas estão de volta? Então vamos distribuir milhões de camisetas com as inscrições: “Todos contra a tuberculose”, “Todos contra o cólera””, “Todos contra a malária”, “Todos contra a hanseníase”, “Todos contra a dengue”. Milhões de pessoas vestindo a camisa formam uma verdadeira cruzada em defesa da saúde pública.

T. Raeng
As drogas estão assustando, invadindo o lar doce lar brasileiro? Então vamos cuidar de distribuir milhões de camisetas, outdoors, banners, jingles, VTs e adesivos com o grito de guerra: “Drogas? Tou fora!” ou “Crack? Jamais!”. Daí pra frente, nada será como antes. O país foi salvo pela vontade indestrutível do seu glorioso povo, em valiosa parceria (palavrinha chata, meu Deus!) com os imaculados meios de comunicação, sempre dispostos a cortar o mal pela raiz.

Não se assuste, respeitável leitor, isso é o feeling da notícia. No mundo do espetáculo em que vivemos, o fato vale muito pouco, a realidade menos ainda. O que importa é a versão do fato, sobretudo a imagem, qualquer imagem diante dos nossos olhos desatentos. Resultado: o sofisma e a verossimilhança são repassados ao chamado povo em geral como verdade verdadeira.

E o feedback (argh!) tem que ser imediato, em cima da bucha, para os contestadores não ganharem fôlego. A preocupação maior é furar o balão da evidência de uma farsa bem bolada, sutilmente convincente, uma coisa tão vazia quanto uma bola de festa, mas que ao explodir (esse é o termo que se usa) na opinião pública, faça o barulho de uma bomba de nêutrons.

T. Raeng
Tem que ser uma coisa poderosa, que de alguma forma justifique o injustificável, explique o inexplicável, mas que penetre nos corações e mentes como acordes de uma sedutora melodia. Se o povo ficar com a vaga ideia de que há governo, de que o governo se move com agilidade, apesar da sua compleição paquidérmica, então é o máximo, a glória, entramos no Nirvana. O povo finalmente assimilou o feeling da notícia. O trabalho se completa com uma pesquisa ligeira, apenas para confirmar que a boiada amansou com o aboio certo, na hora certa .

É impressionante como as autoridades resolveram dialogar com a opinião pública em bases tão fantasiosas. E isso não é de hoje nem é coisa da Paraíba. É um mal universal, planetário, que o diga o nosso Marshall McLuhan. Vai de Joe Biden ao prefeito da Baixa da Égua. O governo vai mal, o povo sofrendo, mas a badalação das pesquisas, encomendadas pelo único interessado por números otimistas, deixa o chefe convencido de que está no caminho certo.

O feeling da notícia é o atual xodó dos homens públicos, em todas as latitudes e longitudes do globo terrestre. E, ao que parece, é uma panaceia tão milagrosa que, quando o cara perde a eleição, trata de botar a culpa no marqueteiro, no manipulador da fórmula, no mago do teleprompter. Coitado, logo o marqueteiro, vítima da mesma miragem, ilusionista que, muitas vezes, como um crente da Universal, passa a ter fé cega no falso brilhante que ele mesmo produziu.

Mas, leitor, para ser sincero, veja tudo isso como coisa de curioso. Admito meu desconhecimento dessas perigosas engrenagens. Sou de um tempo em que as autoridades eram mais discretas, um pouco mais sensatas, criaturas de carne e osso. Sou de um tempo em que as pessoa tinham projeto de vida, não de marketing.

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