31.8.23
Das cinco perguntas, a primeira é tão abrangente e desafiadora que, nela, todas estão contidas. Assumo a ousadia de responder: “quem fo...
Odilon, a condição humana cultivada
Das cinco perguntas, a primeira é tão abrangente e desafiadora que, nela, todas estão contidas. Assumo a ousadia de responder: “quem foi Odilon como pessoa, como homem. Qual sua filosofia de vida, que valores ele defendia.”
Partirei de uma indagação: Por que Odilon tinha o dom de encantar pessoas com características tão diversificadas? Ou, em outras palavras, o que fazia de Odilon um ser tão especial?
31.8.23
“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida” (Vinícius de Moraes) No corre-corre da cidade, as opções são ...
A vida é a arte do encontro
“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”
(Vinícius de Moraes)
No corre-corre da cidade, as opções são tantas e nenhuma. As pessoas parecem até perdidas sem saber para onde ir, o que fazer, com quem fazer. Encontros que poderiam levar a um caminhar juntos, terminam sem dar em nada. Antes, tudo era mais linear, até sem graça o rumo era certo. Hoje, nada é certo, até as profissões que se escolhem, logo deixam de ser importantes. A inteligência artificial substituindo o humano nas mais diversas funções. No amor, sim o amor é tão efêmero como as profissões, casar, ter uma família, filhos, saiu para fora da linha, não é mais uma certeza — ainda bem, assim muitos tabus foram quebrados. Tudo é permitido, nada é obrigado e certo. Obrigada às mulheres que tanto lutaram para chegarmos onde chegamos.
31.8.23
A utilização excessiva de procedimentos tecnológicos, vem cada vez mais, afastando o médico da cabeceira do doente, fazendo com que a ...
A cardiologia não pode perder o seu coração
A utilização excessiva de procedimentos tecnológicos, vem cada vez mais, afastando o médico da cabeceira do doente, fazendo com que a relação médico-paciente – tão importante e valorizada no passado, – seja substituída pela solicitação de exames complementares, cada vez mais sofisticados, em detrimento da história clínica e do exame físico. A mão que sentia, percutia, e o ouvido que escutava, foram substituídos por visores “precisos”. Se por um lado, o desenvolvimento tecnológico trouxe benefícios inquestionáveis, por outro, o médico foi ficando cada vez mais afastado do enfermo, como ser humano (Décourt, 1995).
31.8.23
Na Rua da República vocês acham o que procuram”. Era uma cadeira antiga, de madeira, com encosto e assento em palhinha. Coisas do arco...
Ao balanço do sonho
Na Rua da República vocês acham o que procuram”. Era uma cadeira antiga, de madeira, com encosto e assento em palhinha. Coisas do arco da velha. Hoje, tudo é descartável, de rápido servir, pouco tempo de uso e sacudido no lixo. Existem lojas sobreviventes apinhadas de antiguidades. Negociantes de mobiliário são mais encontradiços na Rua da República. Não são muitas e ficam espalhadas ao longo de casarões centenários.
30.8.23
Quando o sangue de Margarida Maria Alves embebeu as terras de Alagoa Grande, umedeceu todos os canaviais da Paraíba. Seu ma...
As flores de Margarida
Quando o sangue de Margarida Maria Alves embebeu as terras de Alagoa Grande, umedeceu todos os canaviais da Paraíba. Seu martírio transformou-se em um grito que, quatro décadas depois, continua ecoando pelos córregos e chãs cobertas de cana, fazendo brotar novas margaridas em cada pé de serra.
30.8.23
Passando pela porta de um colégio, me veio a sensação nítida de que aquilo era a porta da própria vida. Afonso Romano de Sant'Ann...
Diário de classe
Passando pela porta de um colégio, me veio a sensação nítida de que aquilo era a porta da própria vida.
Afonso Romano de Sant'Anna, Porta de Colégio
Dou um mergulho no tempo e me vejo aluna do Colégio da Imaculada Conceição (Colégio das Damas), em Campina Grande. Nesse educandário de origem belga, fiz todo o antigo curso primário e ginasial. Na época em que fui aluna, o colégio só aceitava meninas, meninos apenas no curso infantil.
Um dos fatos marcantes desse tempo do curso primário era o exercício das composições. Uma vez por semana, a professora colocava um quadro em um cavalete retratando, geralmente, cenas rurais e as alunas
29.8.23
DIREITO, MORAL, ÉTICA E DEONTOLOGIA O Direito, a Moral, a Ética e a Deontologia estão interligados, mas representam diferentes asp...
Direito, Moral e Deontologia
DIREITO, MORAL, ÉTICA E DEONTOLOGIA
O Direito, a Moral, a Ética e a Deontologia estão interligados, mas representam diferentes aspectos das normas e valores que regem o comportamento humano. É necessário compreender o fio que os une e as especificidades que os diferenciam para que cada cumpra bem o seu papel.
1.1 A HETERONOMIA COMO ÂMBITO DO DIREITO E DA MORAL
O Direito e a Moral se assentam na Heteronomia, ou seja, na ação humana sequestrada ou tolhida por uma força maior, seja ela social ou legal.
29.8.23
DESPEDIDA... OU ATÉ BREVE? Levanto a mão e dou adeus em despedida... Escondo os olhos para ocultar a lágrima teimosa. C...
Despedida... ou até breve?
DESPEDIDA... OU ATÉ BREVE?
Levanto a mão e dou adeus em despedida...
Escondo os olhos para ocultar a lágrima teimosa.
Chegou o momento em que preciso decidir a minha vida
e, espero, que não seja uma decisão tão dolorida.
Repenso o meu gesto, antes que seja tarde...
Por que não trocar a despedida por um até breve?
A vida é luta, não foi feita para os covardes,
não vou deixar que a tristeza nos braços me carregue.
29.8.23
Este texto é dedicado à Escola Integral Técnica Estadual de Arte, Tecnologia e Economia Criativa Poeta Juca Pontes. No início do séc...
Educação pela arte
Este texto é dedicado à Escola Integral Técnica Estadual de Arte, Tecnologia e Economia Criativa Poeta Juca Pontes.
No início do século 20, havia conflitos internos e externos em diversos países, cujos objetivos consistiam em definir territórios e impor, aos povos, o sentimento de nacionalismo. Revoltas sociais sangrentas eclodiam nesse cenário. A discriminação determinava as relações humanas. As nações estavam doentes de ódio, o que resultou em guerras mundiais. Com o intuito de construir a paz entre as nações, o livro Educação pela Arte (1943), escrito por Herbert Edward Read (1893 - 1968), crítico de arte e literatura e poeta britânico, apresenta a arte como a base da educação e como elemento para desenvolver a sensibilidade, a percepção, o sentimento, o respeito e a criatividade. Essa proposta engloba todas as formas de expressão artística,
29.8.23
Costumávamos nos reunir aos sábados na casa de Ferdinando, um velho amigo da adolescência, para ...
O anúncio
Costumávamos nos reunir aos sábados na casa de Ferdinando, um velho amigo da adolescência, para ouvir música e tomar cerveja. Nesses encontros falava-se de política, esportes, antigas badernas, enfim, daquilo que podia animar uma roda composta por amigos e amigas de longa data.
28.8.23
Nosso mundo altivo, com defeitos e qualidades, ainda é o único lugar que possuímos para ficar e respirar normalmente. Por isso, não é ...
A maldição suspensa sobre a história
Nosso mundo altivo, com defeitos e qualidades, ainda é o único lugar que possuímos para ficar e respirar normalmente. Por isso, não é possível aceitar um bebê fujão que foi devolvido para a barriga da mamãe, pois achou esse lugar horrível, sendo necessária a realização de uma manobra chamada parto reverso. Ele não queria assumir sua responsabilidade em sobreviver aqui fora. Ao final das contas, é o que devemos aceitar na chegada aos berros na maternidade.
28.8.23
Importante é observar que o universo leibniziano é uma bem ordenada estrutura com amarração metafísica e ontológica, com elementos e ...
Leibniz e a contemporaneidade (parte 2)
Importante é observar que o universo leibniziano é uma bem ordenada estrutura com amarração metafísica e ontológica, com elementos e conceitos filosóficos ecléticos (platônicos, aristotélicos, agostinianos, tomistas, luteranos, calvinistas e da revolução científica do então mundo moderno). Além disso, a chamada “harmonia preestabelecida” ocorre por obra de Deus, hipótese metafísica com a qual arremata seu sistema especulativo (é a cereja do bolo leibniziano). É essa elaboração racional que garante a perfeita correspondência
28.8.23
Atemporal e corajoso. Atemporal porque é eterno, está além do tempo, existirá, sob mil disfarces, enquanto existirem os humanos e o s...
O romantismo atemporal de Leo Barbosa
Atemporal e corajoso. Atemporal porque é eterno, está além do tempo, existirá, sob mil disfarces, enquanto existirem os humanos e o sentimento amoroso que lhes é próprio. Corajoso porque publicizado em poemas reunidos em livro sem nenhum temor – ou pudor. Admirável romantismo que se expõe em tempo tão antirromântico como o nosso, tempo em que até se ri do romantismo, tido por obsoleto por amantes que talvez desconheçam o amor enquanto lirismo, posto que limitados ao rés do chão do sexo casual; amantes que, mal informados - e mal formados -, confundem romantismo com pieguice e não entendem absolutamente a sutil distinção feita por Rita Lee em célebre canção: “sexo é prosa, amor é poesia”.
27.8.23
Desde que o russo Semyon Kirlian fotografou a aura das plantas, há 84 anos, que mais pesquisas científicas se intensificaram em busca...
Um brinde aos sentimentos
Desde que o russo
Semyon Kirlian fotografou a aura das plantas, há 84 anos, que mais pesquisas científicas se intensificaram em busca dos mistérios do mundo vegetal, em que há muito mais coisas do que imagina a nossa sã filosofia. E tudo vem servindo para se concluir que esses seres, tão especiais e importantes para nós, também têm sentimentos.
27.8.23
Era a nota que faltava à teimosia de uma crônica que nunca soube como começa e menos ainda como termina. De que procedência, ...
Faltava-me Elizabeth
Era a nota que faltava à teimosia de uma crônica que nunca soube como começa e menos ainda como termina.
De que procedência, essa nota?
Nos anos setenta animava-me o sonho de leitor literário ou de boa parte dos leitores do gênero de se transpor inteiro na ventura libertária de uma criação superior às rígidas limitações da vida. De superar essas limitações não só esconjurando-as no endereço da consciência social mas ajudando na formação dessa consciência. A sensibilidade que a lógica e a retórica não conseguiram ferir, uma brochura como a que me fez conhecer o escrivão Isaías Caminha mudou profundamente a direção de toda uma vida.
27.8.23
Os europeus que vieram nas primeiras embarcações que chegaram ao Brasil, nas primeiras décadas do século 16, se deparavam com a opulênc...
Um dos símbolos do Brasil veio do exterior
Os europeus que vieram nas primeiras embarcações que chegaram ao Brasil, nas primeiras décadas do século 16, se deparavam com a opulência da vegetação do litoral. “Ao longo do mar eram tudo barreiras vermelhas: a terra he toda chãa, chea d'arvoredo”, anotou, em 1531, no seu Diário de Navegação Pero Lopes de Souza, que viria a ser o primeiro “dono” de trinta léguas de terras, recebidas em doação do rei português D. João III, que iam da ilha de Itamaracá à Baía da Traição, o que incluía a área do atual Estado da Paraíba.
26.8.23
Em Veneza há uma lenda consolidada, a de que os amantes que passam de gôndola debaixo da bela Ponte dos Suspiros estarão apaixonados pa...
A Ponte dos Suspiros
Em Veneza há uma lenda consolidada, a de que os amantes que passam de gôndola debaixo da bela Ponte dos Suspiros estarão apaixonados para sempre. Hollywood ajudou muito com cenas de beijos sob a ponte.
Mas há outra versão, muito distante dos suspiros de amor.
Um dos mais famosos pontos turísticos de Veneza, a construção em estilo barroco data de 1603 e foi projetada pelo arquiteto Antonio Contino. Com 11 metros de largura, inteiramente feita de pedra de Istria, uma rocha calcária, a Ponte dos Suspiros é toda fechada e coberta. Tem apenas duas janelas com barras de pedra. É que ela servia para ligar dois prédios, o Palácio Ducal e as Prisões Novas, o primeiro edifício do mundo a ser construído para ser uma prisão.
26.8.23
Venho falar-vos de Beethoven , Luiz de Beethoven. Não apenas o Beethoven das partituras, das notas musicais, mas o Beethoven, homem...
A outra face de Beethoven
Venho falar-vos de Beethoven, Luiz de Beethoven. Não apenas o Beethoven das partituras, das notas musicais, mas o Beethoven, homem de ideias, Beethoven filósofo. Como se sabe, ele não foi um temperamento essencialmente musical. Teve outras preocupações que não só artísticas. “Aos vinte e oito anos eu já era filósofo” — exclamava ele no seu Testamento de Heiligenstadt.
26.8.23
Ouvi a frase que intitula este artigo de um homem simples, sem escolarização formal, mas com a consciência bem azeitada sobre a triste ...
Daqui pra frente, só tem pra trás...
Ouvi a frase que intitula este artigo de um homem simples, sem escolarização formal, mas com a consciência bem azeitada sobre a triste condição do Brasil. Como sempre digo, o fato de ser analfabeto ou de não ter uma escolaridade formal e completa, em que se inclui o curso superior, não descredencia a inteligência de ninguém. Muitas vezes, pessoas assim são mais inteligentes e perspicazes do que muito doutor de anel no dedo e de título acadêmico.
25.8.23
Certa vez, numa entrevista, perguntaram a Hebe Camargo se ela tinha medo de morrer. Ela falou que não. O que sentia era pena de deixar ...
Bloco na rua
Certa vez, numa entrevista, perguntaram a Hebe Camargo se
ela tinha medo de morrer. Ela falou que não. O que sentia era pena de deixar de viver, porque havia muito ainda a ver e
a fazer.
É assim que tenho me sentido nos últimos tempos quando saio dos shows a que tenho assistido. Eu me coloco no lugar dos que, mesmo após os setenta, oitenta anos, conseguem se reinventar e continuam fazendo sucesso com os fãs do seu tempo e os de agora, pelo que podem significar para uma geração inteira de filhos e netos que não os conheceu à época deles, mas sabe que existem na memória dos pais e avós.
25.8.23
Naquele começo de tarde de 1995 – ou 6, consigo ainda, em dado momento, rever-me em minha ativida...
A Transversa
Naquele começo de tarde de 1995 – ou 6, consigo ainda, em dado momento, rever-me em minha atividade diária da pintura: aos poucos, muito lentamente vou delineando uma figura masculina como elemento central do quadro. O primeiro plano é ocupado por este elemento humano, sentado em um banco de pintor. Ele tem o torso nu, descamisado. Ao lado dele há um garoto. O desenho havia se modelado pela memória de meu filho que já não vivia comigo. Passados 28 anos, consigo ainda lembrar alguns detalhes daquele momento.
25.8.23
Ela foi a terceira pessoa a descer do ônibus das 19 horas, da Sopa, no dizer do pessoal do Interior, por volta de 1960. É termo alusivo...
Tanto engordam quanto matam
Ela foi a terceira pessoa a descer do ônibus das 19 horas, da Sopa, no dizer do pessoal do Interior, por volta de 1960. É termo alusivo ao prato típico das refeições coincidentes com o horário daquelas idas e vindas. Sempre assim: jantar à mesa no santo recesso dos lares e, lá fora, sem falha, a buzina tocada pelo motorista Hilário, da ponta da praça.
24.8.23
Reencontrei o amigo querido na padaria Bonfim depois de muitos anos, na verdade desde os tempos em que estudáramos no IPEP de Dona Mar...
Agruras dos empreiteiros
Reencontrei o amigo querido na padaria Bonfim depois de muitos anos, na verdade desde os tempos em que estudáramos no IPEP de Dona Maria Bronzeado. Do abraço apertado sentamos ao redor de uma mesa e ele começou a contar sua vida errática de empreiteiro.
24.8.23
Tive algumas experiências com a palavra. Claro que escrever romances é bem diferente de escrever poemas, para os quais você puxa o fre...
Palavras maravilham, mas também angustiam
Tive algumas experiências com a palavra. Claro que escrever romances é bem diferente de escrever poemas, para os quais você puxa o freio de mão. Nos dois casos, porém, as palavras são utilizadas e, em geral, lidas em silêncio.
Aí fiz teatro, e vi atores dizendo tudo aquilo em alto e bom som, dando vida ao que eu criara. Fiz cinema e eu mesmo disse falas e vivi as que escrevera, como se as trouxesse pra outra dimensão.
24.8.23
Ah, os poetas! Se não conhecê-los, como sabê-los? Dizem que quando Deus cuidou de esparramar gente por esse mundão, dividiu a humanidad...
A matula do poeta
Ah, os poetas! Se não conhecê-los, como sabê-los? Dizem que quando Deus cuidou de esparramar gente por esse mundão, dividiu a humanidade em duas categorias, os poetas e nós. Eles (estou me referindo aos poetas) são definitivamente criaturas diversas da outra banda onde está a turma do “nós”, em que me incluo.
23.8.23
Serei um andarilho viajante, percorrendo diversos estados deste vasto país. Durante minhas jornadas, vivi experiências únicas e aprend...
Serei um andarilho viajante
Serei um andarilho viajante, percorrendo diversos estados deste vasto país. Durante minhas jornadas, vivi experiências únicas e aprendi valiosas lições com os mais velhos. Eles, por vezes, se mostraram confusos e frustrados, incapazes de realizar seus próprios desejos devido à criação severa e equivocada que receberam de seus pais.
23.8.23
No silêncio da madrugada de Arara, o galo cantou repetidas vezes e recordei tantas ocasiões semelhantes quando morava no sítio. Acorda...
O galo da madrugada
No silêncio da madrugada de Arara, o galo cantou repetidas vezes e recordei tantas ocasiões semelhantes quando morava no sítio. Acordado por esse canto do galo madrugador bem próximo, tentei descobrir de onde vinha seu cantar, como fazia no tempo de menino camponês, enquanto dormia o sono dos justos.
23.8.23
As alucinações são características das manifestações delirantes, podendo ocorrer tanto de forma individual quanto em grupo. Um dos se...
Futuro de uma ilusão
As alucinações são características das manifestações delirantes, podendo ocorrer tanto de forma individual quanto em grupo. Um dos seus sintomas mais intensos é o delírio religioso, que se classifica nos critérios estabelecidos pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM). Sigmund Freud (1856 - 1939), psiquiatra e psicanalista austríaco, em seu artigo intitulado
O Futuro de uma Ilusão (1927), afirmou: "A ilusão religiosa é a mais implacável e persistente, ela está ligada a um impulso e se aproxima dos delírios psiquiátricos". Essa falha psíquica pode incluir a projeção de grandiosidade,
22.8.23
TRISTEZA NO OLHAR Quem me vê, assim, contente, Sorrindo por todo canto, Não percebe que o meu pranto, Habita em mim, aq...
É uma alegria ter meu verso recitado
TRISTEZA NO OLHAR
Quem me vê, assim, contente,
Sorrindo por todo canto,
Não percebe que o meu pranto,
Habita em mim, aquiescente.
Sinto o que o coração sente,
Preciso compartilhar,
Escrever, desabrolhar,
O meu verso é profundeza,
E o meu olhar traz tristeza,
Muita tristeza no olhar.
22.8.23
Em nome de discutíveis ordens, de injustas leis, de absurdas razões, os poetas são impunemente censurados, perseguidos, presos, tortura...
''Para sempre viverão os poetas martirizados''
Em nome de discutíveis ordens, de injustas leis, de absurdas razões, os poetas são impunemente censurados, perseguidos, presos, torturados, fuzilados. Silenciados, enfim, os poetas. E, em cada um deles que se cala, morre um pouco da Humanidade. Sepulta-se parte do imaginário, esse traço atávico, essa força instintiva e divinatória que lhes permite profetizar o futuro, sonhar com outra humanidade, perseguir a utopia realizável de um mundo mais justo e, consequentemente, mais humano e mais feliz.
22.8.23
Acendeu a luz, pressionando o interruptor até ouvir um clique, e entrou no quarto transpondo o umbral que separava esse cômodo da sal...
Reconto (para ler cortando)
Acendeu a luz, pressionando o interruptor até ouvir um clique, e entrou no quarto transpondo o umbral que separava esse cômodo da sala onde se encontrava. Percebeu que estava sozinho, pois ali não havia ninguém. Lembrou-se então de telefonar para Lucélia. Fez isso utilizando o único aparelho que havia no quarto, já que ali não existia outro, e pressionando o polegar nas teclas que correspondiam ao número da moça. Certamente ela ouviu a chamada, pois atendeu. E quase imediatamente, uma vez que não se passou muito tempo, perguntou “Quem é?” – sinal inequívoco de que não sabia quem tinha ligado.
21.8.23
Uma obra de arte, mesmo que composta por resina de poliéster e aço inoxidável, pode inspirar este escritor a sentir o silêncio da fal...
Perca-se!
Uma obra de arte, mesmo que composta por resina de poliéster e aço inoxidável, pode inspirar este escritor a sentir o silêncio da fala impedida, através da expressão fechada e assustada, como um lamento e vontade de fuga da palavra, que se esconde na alma ansiosa do verbo. O artista e escultor espanhol Jaume Plensa, construiu a escultura "Silent Hortense", um rosto de mulher com mãos na boca, e semblante com dor expressa em olhos, marcados pela angústia e sufoco.
21.8.23
Era um casal simpático. Caseiro. Ele cego. Ela colecionadora de terços. Viviam a estação da colheita. Aguardavam minha visita, cada ta...
Presente anual
Era um casal simpático. Caseiro. Ele cego. Ela colecionadora de terços. Viviam a estação da colheita.
Aguardavam minha visita, cada tardinha de sábado, e me recebiam efusivos; notava neles uma certa ansiedade se diluindo, enquanto eu me aposssava de confortável poltrona. Ele conversava todos os assuntos mais importantes da atualidade. Passados alguns minutos começava o ritual. A vela acesa num candelabro ímpar bonito e trabalhado.
21.8.23
A escritora Heloísa Buarque de Hollanda, que acabou de tomar posse na Academia Brasileira de Letras, na vaga de Nélida Piñon, resolve...
Heloísa troca de sobrenome e continua a mesma
A escritora Heloísa Buarque de Hollanda, que acabou de tomar posse na Academia Brasileira de Letras, na vaga de Nélida Piñon, resolveu, aos 84 anos, trocar de sobrenome. Reirou o Buarque de Hollanda de seu ex-marido e colocou no lugar o Teixeira de sua mãe. Heloísa é uma intelectual respeitada, independentemente de gênero. É também uma feminista antiga (no bom sentido) e militante, e é provavelmente por este viés que ela explica a inusitada decisão.
20.8.23
O Brasil não merece os brasileiros... O brasileiro não conhece o Brasil... Quando na cerimônia da XXXI Abertura dos Jogos Olímpicos ...
A Diva e a dívida
O Brasil não merece os brasileiros...
O brasileiro não conhece o Brasil...
Quando na cerimônia da XXXI Abertura dos Jogos Olímpicos de Verão, no Rio de Janeiro, escolheu-se aclamar Larissa de Macedo Machado em detrimento de inúmeras cantoras de fato, tivemos, ali, um crasso exemplo de que o importante no Brasil de hoje é lacrar, fechar, abafar, parecendo ser, e nada mais...
Em 1987 a grande musicista, já aposentada há tempos, Balduína de Oliveira Sayão concedeu uma densa entrevista ao importante radialista e produtor musical Lauro Gomes Pinto. Desse precioso momento, Bidú nos dá muito o que refletir sobre
20.8.23
Nos poucos momentos de pausa e de lazer, contrapondo-se ao meu exercício da prática médica diária, busco sempre a contemplação, e de im...
Existem momentos na vida em que é preciso silenciar
Nos poucos momentos de pausa e de lazer, contrapondo-se ao meu exercício da prática médica diária, busco sempre a contemplação, e de imediato surgem retalhos, lembranças que me levam a uma viagem retrospectiva no tempo pretérito, ativando sutilmente meu cérebro e meus neurônios. Buscando por conseguinte fatos de minha vida, concomitante as grandes mutações que vem sofrendo a humanidade nos tempos atuais.
20.8.23
“Assim, em toda cultura, entre o uso do que se poderia chamar os códigos ordenadores e as reflexões sobre a sua ordem, há a experiência...
O lugar onde se faz a História, ou a História do lugar?
“Assim, em toda cultura, entre o uso do que se poderia chamar os códigos ordenadores e as reflexões sobre a sua ordem, há a experiência nua da ordem e de seus modos de ser.
... o que se quer trazer à luz é o campo epistemológico, a epistémê onde os conhecimentos, encarados fora de qualquer critério referente a seu valor racional ou as suas formas objetivas, enraízam sua positividade e manifestam assim uma história que não é a de sua perfeição crescente, mas, antes, a de sua condição de possiblidade...”
(Foucault, 1987. P.11)
Neste último 19 de agosto comemorou-se o dia do Historiador. Claro que não existe, entre os diversos saberes humanos, uma hierarquia valorativa que estabeleça graus de importância maiores ou menores, mas distintas características que determinam o seu lugar na ordem dos dias dos homens.
20.8.23
Gastão d'Orleans tinha 22 anos de idade quando, em setembro de 1864, chegou ao Brasil. Seu avô, o rei francês Luis Filipe, fora de...
A visita do Conde d'Eu à Paraíba
Gastão d'Orleans tinha 22 anos de idade quando, em setembro de 1864, chegou ao Brasil. Seu avô, o rei francês Luis Filipe, fora deposto pela revolução que irrompera, em 1848, em Paris, e a sua família se exilara na Inglaterra, onde Gastão foi educado. Depois, ele foi para a Espanha cursar a academia militar de Segóvia e, em seguida, ingressou no exército espanhol onde conseguiu a patente de capitão, tendo se destacado em batalha no Marrocos. Gastão ostentava o título nobiliárquico de Conde d'Eu, que tinha sua origem na Comuna de Eu, na Normandia, onde os Orleans tinham um Castelo.
19.8.23
Travessia: aquele constante entrelugar. O mantra. Entre uma ponta e outra da vida, mas não somente. Entre mundos, entre vidas, entre in...
O tempo & o ar: As perdas & os danos
Travessia: aquele constante entrelugar. O mantra. Entre uma ponta e outra da vida, mas não somente. Entre mundos, entre vidas, entre instantes, entre dias, entre noites. Deixar, ficar, voltar, permanecer.
Tudo travessia.
(De "Todo o tempo que existe")
No seu livro Todo o tempo que existe, Adriana Lisboa, Belo Horizonte: Relicário, 2022, ensaio de caráter autobiográfico, fala da sua experiência de luto quando da perda dos pais, em curto intervalo de tempo. Entre uma perda e outra, longos passeios pelo Jardim Botânico e devaneios sobre a existência.
19.8.23
Para desfrutar com mais intensidade o sabor das manhãs parisienses, costumava ir logo cedo à “boulangerie” mais próxima, no país onde ...
Momento ecumênico
Para desfrutar com mais intensidade o sabor das manhãs parisienses, costumava ir logo cedo à “boulangerie” mais próxima, no país onde há os melhores croissants e baguetes do mundo. A cidade ainda parecia adormecida, quase ninguém na rua, já que era inverno, quando os dias se encurtam e o Sol se atrasa.
19.8.23
Há coisa de uns quatro anos li aqui em “A União”, no Caderno 2, a inspiradíssima (como soe acontecer) crônica da lavra do acadêmico H...
Ah, se eu nascesse novamente
Há coisa de uns quatro anos li aqui em “A União”, no Caderno 2, a inspiradíssima (como soe acontecer) crônica da lavra do acadêmico Hildeberto Barbosa Filho: “Outras vidas”. Se as tivesse, nosso ilustre cronista aventara para elas algumas possibilidades que a presente existência não lhe obsequiou. Quem nunca sonhou para si um cenário de sortilégios? Eu sonhei e não poucas vezes.
19.8.23
O Estado, a Associação, os Municípios Eram mortos. De todo aquele mundo Restava um mecanismo moribundo E uma teleologia sem princípios...
Memória jogada no lixo
O Estado, a Associação, os Municípios
Eram mortos. De todo aquele mundo
Restava um mecanismo moribundo
E uma teleologia sem princípios.
“As Cismas do Destino”, versos 409-412
18.8.23
Pois é, sonhadores leitores, quando vi a informação de que a loteria americana mega millions iria pagar sete bilhões, setecentos e cin...
Mais de um bilhão de dólares
Pois é, sonhadores leitores, quando vi a informação de que a loteria americana mega millions iria pagar sete bilhões, setecentos e cinquenta milhões de reais não me contive. Apostei como sempre aposto em todas as loterias brasileiras, porém mantendo o valor mínimo em cada aposta. Nunca me iludi com a possibilidade de ganhar. O que vale mesmo é sonhar o que farei com esses prêmios milionários. É o sonho mais barato do mundo. Mesmo porque não posso ter fé absoluta num sistema que não revela o nome dos ganhadores para conferirmos a veracidade dos resultados.
18.8.23
Friedrich Nietzsche, Arthur Schopenhauer, Andre Comte-Sponville e outros filósofos já discorreram amplamente sobre a relação conflit...
Geração dopada
Friedrich Nietzsche, Arthur Schopenhauer, Andre Comte-Sponville e outros filósofos já discorreram amplamente sobre a relação conflituosa entre prazer e sofrimento. A nossa incessante busca pelo prazer se mistura ao combate à dor. Na contemporaneidade, o discurso do hedonismo, do “aproveite a vida”, do “deixa a vida me levar” tem promovido a urgência, acarretando patologias. Nessa seara, vivemos uma época de abundância extrema, de tal modo que a expressão não pode ser vista como redundante, mas importante para entendermos as circunstâncias que nos fazem adoecer. Do trabalho às redes sociais, das telas aos alimentos, até a droga e o sexo. Tudo isso como estímulo para nos sentirmos mais interligados à vida, porém afasta-nos mais dela. É um tempo de muita vulnerabilidade, em que, como diria Sartre, o universo das possibilidades nos angustia.
18.8.23
Impressionam-me esses aparelhos de rádio moderníssimos, com dispositivos eletrônicos para encaixe de pen drive e captura de sinais, v...
Era melhor e não fazia mal
Impressionam-me esses aparelhos de rádio moderníssimos, com dispositivos eletrônicos para encaixe de pen drive e captura de sinais, via bluetooth. Você pode conectá-los sem fio ao telefone celular, ou computador, e pronto: passa a desfrutar dos muitos canais de notícia e música dispostos pela internet ao bel prazer e pelo tempo que desejar.
Todavia, meu espanto maior advém da preferência dos fabricantes pelos modelos retrôs, exigência, evidentemente, da distinta clientela.
17.8.23
As idades já são avançadas. As peles, pintura gasta, reboco disforme, cimento esburacado, revelam mais que idades. Na verdade, indi...
Quietas ruas
As idades já são avançadas. As peles, pintura gasta, reboco disforme, cimento esburacado, revelam mais que idades. Na verdade, indicam o descuido dos entes próximos, os herdeiros, os habitantes, os passantes. Elas resistem, são guardiãs de muitas histórias, testemunhas de transformações. Os ossos, tijolos ou pedras, fortes, sustentam as estruturas e resistem aos desafios que os séculos impõem. O homem continua a ser, ora o inventor e restaurador, do mesmo modo o aniquilador que faz desmoronar as mais fortes com força bruta e tantas vezes estúpida.
17.8.23
Deslizo sobre o meu velho caderno de receitas e me vejo repentinamente instalada na vitalidade de antigas cozinhas familiares, cujo po...
Gosto de Vida
Deslizo sobre o meu velho caderno de receitas e me vejo repentinamente instalada na vitalidade de antigas cozinhas familiares, cujo poder de evocação vem da vida vivida ali, do afeto partilhado em singulares combinações de cores e odores, e dos sabores que dali saiam, até hoje incomparáveis, inesquecíveis. Não, não se falava em gastronomia, não havia supermercados. Minha tia comprava o “coxão” de porco no habitual vendedor de quem já era conhecida freguesa, e a batata doce, que tradicionalmente era seu acompanhamento, não podia vir de outro lugar que não daquele monturo acumulado no chão da feira pelas mãos de Manoel Cesário, que também vendia inhame e macaxeira, expostos do mesmo modo.
17.8.23
Leibniz, desde o início de sua produção intelectual, aspira à criação de uma ciência universal, que compile em si várias disciplinas, ...
Leibniz e a contemporaneidade (parte 1)
Leibniz, desde o início de sua produção intelectual, aspira à criação de uma ciência universal, que compile em si várias disciplinas, visando a uma organização cultural e política global. Teoriza, portanto, com bastante lucidez e pertinência, a diferença estrutural entre a pesquisa científica e a de cunho filosófico-metafísico. Com a revolução científica capitaneada por nomes como Galileu, Copérnico, Kepler, Bacon e, sobretudo, Descartes, o pensamento ocidental sofre uma reviravolta radical: extensão e movimento são então considerados causas suficientes para a explicação da realidade ontológica do mundo e de seus fenômenos.
16.8.23
Rembrandt morreu pobre, pois – como Bach – foi rotulado, no fim da vida, de ultrapassado. Van Gogh não conseguia vender seus quadros...
Somos (todos) Marias-vão-co'as-outras
Rembrandt morreu pobre, pois – como Bach – foi rotulado, no fim da vida, de ultrapassado.
Van Gogh não conseguia vender seus quadros, ... que tornaram sua cunhada — herdeira de todo o seu lote — rica.
El Greco foi preterido pela corte espanhola.
O retrato de Mona Lisa se tornou “o mais célebre quadro do mundo” quando foi roubado do Louvre e a imprensa tratou de realçar a notícia.
Leonardo da Vinci / El Greco / Van Gogh
Nos anos 50 – estudando pintura - comprei a História da Arte, de Sheldon Cheney, e dei de cara com isto:
“Tempo houve, em nossos anos mais impressionáveis, em que nos ensinaram a aceitar o 'milagre grego', a 'perfeição ateniense' como conceitos inacessíveis aos paralelos”.
Mas – acrescentou Cheney — sem perceber que fazia o mesmo com os leitores:
“nas três primeiras décadas deste nosso século XX houve um desafio ao classicismo e um afastamento dos artistas mais criadores dos objetivos em ideais gregos”.
Bom,
aí todo mundo se tornou cubista, suprematista, fovista, surrealista, inclusive brasileiros que se mandaram para Paris, como Portinari, Di Cavalcanti, Ismael Nery.
Isso me lembra que, um tempo antes, o escândalo impressionista sufocara o impulso naturalista.
Que fazer, então, se somos prisioneiros da circunstância, do universo — “como disse Ortega y Gasset”?
Fazer como Bach, El Greco e Rembrandt.
Di Cavalcanti / Ismael Nery / Portinari