Na minha terra vivia o tempo de menino silencioso; extasiado, olhava as estrelas, andava pelas capoeiras escutando os pássaros cantando.
Chegando do interior, com as mãos calejadas e, nos pés, as marcas do barro vermelho, andava por esta cidade como um camponês; olhava constantemente o chão, sem ainda entender o sentimento do poeta português. Cumprimentava autoridades com profunda inclinação da cabeça, em reverência e respeito. Parava diante de monumentos conhecidos pelas fotografias que chegavam à Serraria.
Chegando do interior, com as mãos calejadas e, nos pés, as marcas do barro vermelho, andava por esta cidade como um camponês; olhava constantemente o chão, sem ainda entender o sentimento do poeta português. Cumprimentava autoridades com profunda inclinação da cabeça, em reverência e respeito. Parava diante de monumentos conhecidos pelas fotografias que chegavam à Serraria.
Pavilhão do Chá Luana Silva
A cidade das acácias acolhia brejeiros, caririzeiros, curimatauzeiros e sertanejos que se misturavam com o mesmo sentimento, alguns carregando as mágoas ou as alegrias de caboclos da roça que andavam com a cabeça baixa, como estando no mundo da lua.
A década de 1970 conservava o rastro de prédios e monumentos que identificavam a paisagem de séculos passados, o apogeu da cidade mantida pela bonança da pecuária, do algodão, do agave e da cana-de-açúcar, símbolos que se destacam em nossa bandeira, um tanto esquecida.
Saulo Romero Andrade
É fácil identificar, no abandono de prédios residenciais e públicos, um pouco do apogeu de outrora. As beiras e as eiras dos prédios residenciais, sinais de ostentação, hoje representam a saudade e caminham para o esquecimento.
Cheguei aos poemas de Augusto dos Anjos, onde estão o coração das catedrais imensas. Lembro dos pórticos de Florença, da arquitetura do século XV, decantados no imaginário metafórico de poetas, como também dos templos das longínquas construções medievais, até passear com o poeta paraibano pelas ruas da Parahyba do início do século XX e chegar a outro poeta do nosso tempo, aquele que definiu um roteiro lírico da cidade. Para depois caminhar com o professor em busca dos lugares onde estão os passos da poesia de Augusto.
Centro Histórico de João Pessoa (PB) GD'Art
Os poetas dos tempos presentes, Augusto e Jomar, retiraram da retina as imagens observadas, aquilo que Gonzaga Rodrigues e Luiz Augusto Crispim compuseram na crônica sem reboco. Os cronistas do cotidiano da cidade pintaram com pincel de rimas livres as imagens que os poetas observaram com o olhar metafórico.
Antiga Rua Direita (J. Pessoa-PB) Stuckert
O mato que outrora infestava os quintais das casas existentes nos aceiros dos rios Jaguaribe e Sanhauá e nos pequenos riachos formados nos declives dos arrabaldes da cidade chegou às paredes das casas abandonadas depois que os donos fizeram a viagem definitiva.
Raros os recantos da cidade antiga em que não se encontre um arbusto na fresta das casas. O olhar poético do arquiteto Germano Romero descobriu as madressilvas crescendo nas cumeeiras das casas onde antes o sol reluzia. Os monumentos, ornados pelas nuvens amontoadas no horizonte avermelhado, nos entardeceres sobre as margens do Sanhauá, ficaram mais tristes.
Centro Histórico de João Pessoa (PB) Jodson Júnior / Moisés Farias
Os edifícios majestosos que se tornaram invisíveis ganharam vida no fluxo da criação dos quatro artistas da palavra, seja na poesia ou na crônica, ou na atitude do professor. Seus gritos ressoarão. Não seja tarde demais para preservar a memória da cidade.
A cidade foi perdendo a aparência da arquitetura antiga, enquanto escutava frases finas e tocantes, como estão nos poemas de Jomar e nas crônicas de Crispim e Gonzaga. Os gestos do professor Milton em buscar os caminhos de Augusto são uma tentativa de manter viva a memória dele e, consequentemente, de uma época. Mesmo que a memória da cidade continue arranhada.
































