O leitor lembra? Não faltava na mesa de ninguém, nem do rico nem do pobre. Eram universais e democráticas, como as bananas e o feijão....

Bolacha Maria

bolacha maria pilar
O leitor lembra? Não faltava na mesa de ninguém, nem do rico nem do pobre. Eram universais e democráticas, como as bananas e o feijão. Redondinhas, estavam presentes no café da manhã, na lancheira das crianças que iam à escola, no café da tarde e até no jantar. Só perdiam, talvez, nessa onipresença gastronômica, para o pão francês, este senhor absoluto das mesas nordestinas (e brasileiras) até hoje. Não sei a razão, veio-me à mente há poucos dias essa iguaria de minha infância e aí eu pensei: dará uma crônica?
bolacha maria pilar
Fonte: iguaria.com
Não sei. À primeira vista, parece que serão necessárias muitas bolachas para preencher lauda e meia de palavras que façam o mínimo de sentido para quem lê. Mas vamos lá.

O que me anima de saída é o fato de que boa parte dos leitores deve ter conhecido a bolacha Maria em alguma fase da vida, principalmente os setentões, essa gente que já viveu bastante e tem a sorte (alguns) de ainda lembrar de muita coisa. Para esses, imagino, não será difícil sintonizar na mesma estação, para daí seguirmos juntos, andando para trás, em busca da bolacha perdida. Que, aliás, muito lembra a “madeleine” do menino Proust, sem a sofisticação típica dos franceses. A rigor, a “madeleine” é mais biscoito que bolacha, penso eu, mesmo sem aprofundar qualquer pesquisa sobre ambos. É que biscoito, sabe-se (ou penso eu), é coisa mais refinada que bolacha. Isso dá para se sentir apenas com a pronúncia das respectivas palavras.
bolacha maria pilar
Fonte: cdn.sabado.pt
Os esnobes, por exemplo, não comem bolacha, comem biscoito. E a gente pensa logo em algo comprido, com a elegância dos longilíneos, e não na redondeza banal e popular da bolacha, tão óbvia em seu formato descomplicado que só poderia mesmo ser mais do povo que dos granfinos. Outra coisa que também me ocorre, não sei se me engano: bolacha seria mais coisa de nordestino; os sofisticados do Rio e de São Paulo só falam em biscoito e que tais.

Interessante esse poder memorialístico da “madeleine” e da bolacha Maria. É a memória gustativa, tão poderosa, um dos mistérios do nosso corpo. Lembro-me perfeitamente de que em vários Natais de minha infância o presente que ganhava era uma perfeita réplica de um caminhão-baú recheado de bolachas Maria, todas bem embaladas em papel manteiga. E o caminhão trazia por fora, em letras graúdas, a marca Pilar, tradicional fabricante de guloseimas. Rapidamente, as bolachas se iam, claro, e ficava o brinquedo, acompanhando o
bolacha maria pilar
Fonte: @cadan
menino pelo ano novo afora. Produtos diferenciados como esses caminhões, de certo modo refinados, mas perfeitamente acessíveis à classe média local, eram encontráveis nas boas mercearias da época, tipo Armazém Avenida, ali na esquina General Osório e Guedes Pereira. Não existiam ainda supermercados nem lojas de conveniências. As lojas se concentravam nas ruas do Centro e a própria Maciel Pinheiro ainda conservava sua pujança comercial, dividindo com a Duque de Caxias a preferência da clientela mais abastada. Esses foram os tempos do reinado do queijo do reino na época natalina e também de muitas iguarias importadas, hoje nem sempre fáceis de encontrar.

Pessoalmente, não conheci, mas lembro de papai falando na Mercearia Maia, de propriedade de dois irmãos portugueses (seriam personagens de Eça de Queiroz?), cujo estabelecimento era um dos mais sortidos da cidade. Um desses irmãos chamava-se Carlos, já um senhor de idade, e jamais foi visto sem que estivesse de paletó e gravata, alinhadíssimo.
bolacha maria pilar
Fonte: iguaria.com
Essa mercearia um dia incendiou-se, não sobrou nada. Mas Seu Carlos continuou elegante, vivendo de aluguéis, até morrer.

Também recordo que faziam um sanduíche de bolacha Maria: duas bolachas entremeadas por uma fina fatia de goiabada. Era perfeito para se levar de lanche para a escola. A bolacha estava sempre presente; podia faltar tudo, mas ela, não. Igualmente, esses foram tempos do guaraná Sanhauá e do guaraná Dore, ambos fabricados aqui mesmo na aldeia, sem falar nas bebidas da Tito Silva, como o vinho Celeste.

Descobri que a bolacha Maria foi inventada em 1874 por um padeiro inglês, em homenagem a uma grã-duquesa russa de mesmo nome que ia se casar. Vejam só. E eu que pensava que ela fosse brasileirinha da silva ou no máximo portuguesa. Mas não. Veio da Inglaterra, assim como tantas outras coisas boas, naqueles tempos em que os ingleses ainda influíam no mundo e exportavam bom gosto e civilização.

bolacha maria pilar
A bolacha Maria foi criada em 1874 por um padeiro inglês para comemorar o casamento da grã-duquesa Maria Alexandrovna da Rússia com o Duque de Edimburgo▪️ Fonte: @ussiadosromanov
Ainda se encontra a Maria nos supermercados. Continuam redondas e com sabor parecido ao de antes. Também se encontram “madeleines” na França. Mas é claro que a presença das duas na vida das gerações mais recentes é muito menor do que foi para gerações passadas. É outro o cardápio contemporâneo da moçada, provavelmente menos saudável. E não duvido de que nossos garotos e garotas nordestinos de agora já estejam chamando, com a maior naturalidade, jerimum de abóbora e bolacha de biscoito. Ó tempos!

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  1. Crônica delicada e saborosa, em que a bolacha Maria funciona como elemento afetivo na evocação de um tempo, de hábitos e de uma sociabilidade hoje em grande parte desaparecidos. Com linguagem clara, ironia na medida certa e referências precisas, o texto transforma memória pessoal em memória coletiva e confirma a força da boa crônica. Parabéns, Gil! Abraço afetuoso e amigo.

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  2. Samuel Amaral19/1/26 08:32

    Que maravilha, Gil! Até da bolacha Maria fazes uma deliciosa crônica. Parabéns!

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  3. Obrigado, Nevita.

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  4. Amei estas boas lembranças 👏👏👏👏👏👏♥️♥️♥️♥️♥️♥️✂️

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  5. Obrigado, Frutuoso.

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  6. Que delícia de crônica, Gil. Você me fez visitar a minha infância, lembro que mamãe fazia uma torta deliciosa com a bolacha Maria, lembro tb do queijo do reino, chamado assim creio porque devia vir de Portugual, não? A madeleine está mais para um bolinho, mas ela está no imaginário de toda criança francesa, como a bolacha maria no nosso. Parabéns, gostei muito. Lúcia

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  7. Obrigado, Lúcia.

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