No Natal que passou, não enviei cartão de boas-festas para ninguém. Como o tempo mudou, ou mudamos nós. A troca de felicitações natalinas nesse período era um momento esperado pelas pessoas mais próximas, nossos familiares.
Era a ocasião de reencontrar amigos, familiares e de lembrar alguém distante, renovar os augúrios de paz a partir das festas celebradas.
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O primeiro e melhor cartão de Natal de nossas vidas.
Nos tempos futuros, outros cartões natalinos eu enviava para as pessoas íntimas, de perto ou morando distantes. Recebia a retribuição, mas nunca tiveram tanta importância como naquele Natal de 1981.
Optando por mensagens eletrônicas, às vezes superficiais e sem a essência do sentido místico emanado das festas que celebramos, perdemos o prazer de manusear a carta que chegava com os dizeres, às vezes simples, mas cheios de sentido e emoção.
No ano que passou recebi um cartão de Natal de um amigo e sua esposa, com frases soltas, ao modo das modinhas do nosso folclore. No Natal do ano passado senti emoção semelhante à de antigamente,
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Como a Poesia cabe em todos os momentos, deslocando-se nos planos visuais e sensitivos, ainda mais no período das comemorações do nascimento de Jesus, que carrega uma profunda simbologia mística e constrói um clima de regozijo entre as pessoas, alegrou-me receber o poema no período de festas natalinas. Respondi ao cartão do amigo, como também às mensagens que entupiram a memória do celular.
Gostava quando recebíamos cartão impresso com mensagens. Igual contentamento quando preparava e postava nos Correios os envelopes com as mensagens, escritos com a caligrafia torta.
Lembro de quando Dom Marcelo Carvalheira nos enviava, todos os anos, seus cartões de Natal. O desenho era feito por sua irmã Miriam, com mensagens de louvação ao tempo que estávamos vivendo.
Acervo do autor
A pintura dos cartões enviados todos os finais de ano carregava uma bonita mensagem que reproduzia a nova vida, na perspectiva bíblica. Sempre com a imagem de uma cegonha conduzindo no bico um ramo de oliveira. Uma referência à passagem bíblica do dilúvio.
As palavras do arcebispo ajudavam a desvanecer o pessimismo e afastar as nuvens da alma. Ao final de cada ano, esperávamos com redobrada expectativa a chegada das mensagens dele.
Palavras que apontavam caminhos dentro da natureza de cada pessoa, porque profundas no sentido de penetrar na alma humana. Tinham raízes na sua humanidade cristã e convivência com a mística dos padres do deserto.
Confesso que certa vez copiei um desses cartões de Dom Marcelo, um belo cartão, e enviei para o casal amigo residente em outra cidade, pensando emocionar a ambos. Deu certo. Os dois amigos falaram da emoção ao olhar a pintura e a mensagem do arcebispo. Lembramos do tempo quando participávamos das missas na capela particular de Dom Marcelo, em sua residência episcopal.
Acervo do autor
A emoção nesses momentos de final de ano ocupa espaço enorme no adulto que continuo a ser, emotivo e que se sensibiliza ao observar um velho cartão de Natal.
Uma noite acordei pela madrugada, lembrei do cartão recebido no final deste ano. Recordei das conversas com o religioso, um místico da ternura sempre de braços abertos para a acolhida. Como foi bom novamente manusear os presentes ofertados por Dom Marcelo.










