Em sua redondilha “Ao desconcerto do mundo”, Camões diz:
Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E, para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que, só para mim,
Anda o mundo concertado.
Luiz de Camões ▪️ Arte: José Malhoa, 1907
Há momentos na vida em que o mundo parece não apenas injusto, mas estruturalmente equivocado, como se houvesse um erro de cálculo na própria engrenagem da realidade. Não se trata de um sofrimento pontual ou de uma decepção isolada, mas de uma sensação mais profunda e persistente: a de que o bem não é recompensado, o mal não é punido e que, estranhamente, quanto mais alguém tenta agir com retidão, mais exposto fica ao desalento.
Em seu poema, Camões não apenas observa a injustiça; ele se espanta com ela. Um espanto que não é simples indignação moral, mas uma espécie de assombro metafísico diante do fato de que o mundo parece operar segundo uma lógica invertida. Aquilo que, intuitivamente, deveria ser premiado é punido; aquilo que deveria ser contido prospera.
O poeta vai além da simples constatação. Ele confessa sua própria tentativa de adaptação a essa lógica perversa. Não se trata apenas de sofrer por ser bom; trata-se de tentar ser mau para sobreviver e, ainda assim, fracassar. O poeta revela uma experiência moral-limite: ao perceber que a virtude parece inútil e que o vício parece vantajoso, ele tenta inverter sua conduta. Mas o resultado é ainda pior: não obtém os benefícios dos maus nem conserva a paz dos bons. É punido duplamente, pela consciência e pelo mundo.
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Há sempre a tentação de abandonar os próprios princípios quando eles parecem não produzir frutos. Quantas vezes, diante da frustração, não nos perguntamos se vale mesmo a pena continuar sendo justos, honestos, leais, quando isso parece apenas nos tornar vulneráveis? Quantas vezes não somos seduzidos pela ideia de que talvez seja preciso “jogar o jogo”, adaptar-se à lógica torta do mundo para não ser esmagado por ela?
No verso final — “Assim que, só para mim, / Anda o mundo concertado” —, Camões atinge uma ironia amarga. O mundo, para ele, só funcionaria quando se trata de castigá-lo. A ordem universal parece se manifestar apenas no seu infortúnio pessoal.
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A conclusão, ao mesmo tempo trágica e irônica, revela algo mais profundo: não é apenas o mundo que está desconcertado; é o próprio sujeito que se vê deslocado dentro dele. O sentimento não é apenas de injustiça externa, mas de desajuste existencial. Como se o indivíduo honesto fosse um erro estatístico numa realidade construída para outros tipos de sucesso.
No entanto, por trás dessa amarga constatação existe uma pergunta fundamental, que talvez seja a mais importante: se o mundo é assim, o que nos resta fazer? Ajustar-nos a ele, mesmo que isso nos desfigure interiormente? Ou permanecer fiéis a valores que parecem não ter eficácia prática, mas que talvez guardem um outro tipo de sentido, menos visível, mais profundo?
O livro de Jó, por exemplo, já colocava essa questão em termos quase idênticos. Camões, ao retomá-la em forma poética, insere-se numa longa tradição de perplexidade humana diante do mistério do mal e da aparente indiferença do mundo às categorias morais.
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Mas talvez seja justamente aí que se encontre uma chave de leitura mais profunda: o mundo, em si, não é moral; ele é factual. Quem projeta sobre ele uma expectativa de justiça automática acaba, cedo ou tarde, frustrado. Não porque a justiça seja ilusória, mas porque ela talvez não pertença ao mesmo plano que o sucesso, o conforto ou a prosperidade visível. Quando confundimos virtude com garantia de felicidade externa, transformamos a ética em investimento — e a decepção se torna inevitável.
Camões trata dessa fratura: esperar que o bem produza bem-estar e, ao não ver isso acontecer, sentir-se traído pela própria ordem do mundo. Mas talvez o erro não esteja em ser bom, e sim em esperar que o mundo reconheça isso da forma que imaginamos. A virtude, nesse sentido, não seria um meio para um fim externo, mas um modo de ser — algo que se justifica por si mesmo, mesmo quando o mundo não colabora. Essa é uma posição difícil, exigente, quase heroica: continuar sendo justo num mundo injusto, não por esperança de recompensa, mas por fidelidade a algo interior que não quer se corromper.
Vivemos entre a aspiração à bondade e a constatação de que ela não garante proteção. Se o mundo não é justo, ao menos ainda é possível nomear sua injustiça. E nomear algo é, de certo modo, começar a dominá-lo ou, ao menos, a não ser inteiramente dominado por ele.
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Há quem escolha a via do cinismo, tornando-se frio, indiferente, estratégico, adaptado ao pior do mundo. Pode-se também escolher a via da ingenuidade, fingindo que tudo se resolverá automaticamente, que o bem sempre vence, que a justiça é garantida. Ou podemos escolher uma terceira via, mais difícil: aceitar que o mundo é imperfeito, injusto e muitas vezes cruel, mas ainda assim recusar-nos a moldar nossa consciência a essa lógica.
Essa terceira via não promete felicidade fácil, nem sucesso rápido, nem segurança plena. Mas talvez prometa algo mais raro: coerência interior. A adesão à corrupção exterior não resolve o desconcerto interior; apenas o agrava.
Vale a pena sofrer sendo bom do que prosperar sendo mau, não por heroísmo romântico, mas por realismo existencial: ninguém escapa de si mesmo.
O verdadeiro “concerto” não esteja no mundo, mas na consciência que, mesmo ferida, recusa-se a se desafinar.
O desafio de concertar o mundo é menor do que o de concertar a si mesmo.
Um trecho do “Poema de Sete Faces”, de Drummond, também fala dessa dificuldade:
“Mundo, mundo, vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.”
Continuemos — ou comecemos — a mudança, conforme seja o caso de cada um...