A filosofia moral de David Hume (1711–1776), filósofo e historiador britânico nascido na Escócia, representa uma ruptura com as tradições racionalistas que buscavam fundamentar a moral em princípios objetivos da razão. Ele defendia o conhecimento que advém da prática, dos sentimentos e percepções, e o ceticismo filosófico que trata da impossibilidade de se alcançar a verdade, propondo a suspensão da faculdade de pensar sobre as afirmações para atingir a tranquilidade.
David Hume, para quem "todo conhecimento deriva das percepções e ideias que vêm dos sentidos" ▪️ Arte: Allan Ramsay, 1766
Segundo Hume, a razão possui uma função instrumental no domínio moral. Ela é capaz de informar acerca dos fatos, das relações causais e dos meios adequados para alcançar determinados fins; contudo, não é capaz de produzir, por si só, motivação ou valoração moral. Essa tese é expressa de forma contundente quando o filósofo afirma que “A razão é, e deve ser, apenas a escrava das paixões” (Tratado da Natureza Humana, II, iii, 3), indicando que o impulso para a ação e o julgamento moral provêm das inclinações afetivas, e não do entendimento puro. Assim, enquanto a razão esclarece, é o sentimento que decide.
Entretanto, essa fundamentação sentimental da moral não conduz, segundo Hume, ao subjetivismo radical ou ao egoísmo. O objeto central que impede tal deriva é o conceito de simpatia. Ela é a capacidade humana de participar dos sentimentos alheios, de experimentar, ainda que de forma indireta, o prazer e a dor dos outros. Por meio dela, os afetos individuais são generalizados, permitindo que o julgamento moral ultrapasse o interesse pessoal. Hume afirma que “É pela simpatia que entramos nos sentimentos dos outros e participamos de suas alegrias e sofrimentos” (Tratado da Natureza Humana, II, i, 11), o que torna possível a formação de um senso moral comum.
Outro aspecto da ética de Hume é a distinção entre fato e valor, frequentemente sintetizada no chamado problema do “ser” e do “dever-ser”. Hume observa que muitos sistemas morais cometem o erro de deduzir prescrições normativas a partir de descrições factuais, sem justificar a passagem entre esses dois domínios. Ele adverte que “Não se pode derivar um ‘deve’ de um ‘é’” (Tratado da Natureza Humana, III, i, 1), ressaltando que os juízos morais não decorrem logicamente dos fatos, mas de uma resposta afetiva a eles.
David Hume
A moral sentimentalista de David Hume concebe o ser humano como um agente moral porque sente prazer diante do que é útil e benéfico à vida social, e desprazer diante do que é nocivo ou destrutivo. A simpatia transforma sentimentos individuais em critérios morais compartilhados, e a utilidade orienta a aprovação ética em direção à felicidade humana. Dessa forma, Hume oferece uma concepção da moral baseada na natureza afetiva e social do homem, ao mesmo tempo crítica do racionalismo moral e atenta às condições da convivência humana.









