Seu Tatá, o alfaiate , homem de alma boa, gargalhava a não mais poder com a anedota da qual era personagem. Contava-se que a empregada ...

Seu Tatá, a santa e as gasosas

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Seu Tatá, o alfaiate, homem de alma boa, gargalhava a não mais poder com a anedota da qual era personagem. Contava-se que a empregada da casa assim recebia quem por ele procurasse: “Seu Tatá tá?”. E ela: “Seu Tatá não tá, mas a mulher do Seu Tatá tá. É mesmo que Seu Tatá tá”.

Pai de seis filhos e filhas, ele fez com que os meus levassem um deles à pia batismal. A partir de então, minha família teve o compadre à mesa para o café da manhã, o almoço e a janta, duas vezes por semana, tão logo desembarcava
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do trem das sete. Gostávamos dele e das suas crianças, todas educadas e atenciosas. Não me lembro do nome da mulher do Seu Tatá, uma senhora, também, agradabilíssima.

Rita de Cássia é a santa das causas impossíveis e desesperadas. É a padroeira das viúvas, daqueles e daquelas em dificuldades matrimoniais, dos órfãos, dos doentes, dos alcoólatras. E vão além disso os devotos da moça.

Teve, ela mesma, uma vida de provações. Superou um casamento difícil, perdeu marido e filhos, perseverou na fé e tornou-se freira. Muito sabia, portanto, dos males e das dores que tratava e trata de abrandar, sem distinção, segundo a fé católica, quando invocada pela enorme legião de suplicantes, mundo a fora. Agostiniana da Diocese de Espoleto, Itália, nascera Margherita Lotti. Foi beatificada em 1627 e canonizada em 1900 pela Igreja Romana.

Santa Rita deu nome à localidade onde Seu Tatá nasceu e de onde ele provinha para os dois atendimentos semanais à clientela que de bom grado acorria a seu atelier, no Pilar da minha infância.
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Testemunhei, muito novo, a perícia desse alfaiate no manejo da agulha, da tesoura e da máquina de costura. O que dali saía eram calças, camisas e paletós tão desejados quanto os produzidos na loja principal situada na Avenida Juarez Távora, em Santa Rita.

Fui seu hóspede por 15 dias quando de uma das minhas férias escolares. Em seu quintal, comi minhas primeiras jabuticabas. Conduziram-me até aquela árvore alta, frondosa, três dos seus meninos. Eu me tornei devoto desses frutos. Na fase adulta, é de Seu Tatá que lembro quando provo licor de jabuticaba. Uma maravilha.

A lembrança da cidade localizada na área metropolitana de João Pessoa e com raízes profundas na história colonial paraibana também me remete à figura impressionante do saudoso Odilon Ribeiro Coutinho, este provindo de uma família de usineiros. Partícipe do grupo que se reunia, no Recife, em torno de Gilberto Freyre, Odilon também costumava enxergar sua terra e sua gente por ângulos da sociologia, da antropologia, da geografia e da história. “Frutuoso, esta é uma área de profunda evocação lírica e histórica”, disse-me, algumas vezes, num dos nossos muitos encontros.

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Recife, 1984: Odilon Ribeiro Coutinho (esquerda), com Gilberto Freyre (centro) e Edson Nery. ▪ Imagem: FGF, via A União.
Por seu intermédio, o Governo do presidente Sarney despachou técnicos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional para a recuperação de duas capelas erigidas entre Santa Rita e Cruz do Espírito Santo, tão logo ocorreu a expulsão dos invasores holandeses de Pernambuco e Paraíba. Ambas as construções deram-se em pagamento da promessa de um ajudante do Capitão Rebelinho. O homem sobreviveu àquela briga e cumpriu o prometido aos Céus: as Capelas da Batalha e do Socorro, distanciadas 1,4 quilômetro uma da outra, exibem-se, então, ali, novinhas em folha.

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Capela do Socorro, Paraíba. ▪ Foto: M. Estrela, via GMaps.
Inicialmente disposto a restaurá-las com desembolso pessoal, Odilon desistiu da empreitada quando teve o orçamento nas mãos. Gastaria uma fortuna num instante em que sua usina já não andava tão bem das pernas. Além do mais, o Iphan existe para isso, para a recuperação do patrimônio brasileiro. O paraibano Humberto Lucena, então presidente do Congresso Nacional, ajudou-o no apelo a Sarney.

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Capela da Batalha, Paraíba. ▪ Foto: F. Chaves.
É inconcebível que ambas as capelas não estejam, institucionalmente, com todos os méritos e divisas, no roteiro do turismo cultural. Ou seja, em um circuito ali iniciado e findo na região de Pilar, palco dos romances do Ciclo da Cana de Açúcar, de José Lins do Rego, hoje com seus engenhos de fogo morto.

Em Pilar, Dom Pedro II subiu ao pavimento superior da Casa de Câmara e Cadeia (também recuperada e disposta à visitação pública), a fim de conhecer o coração da zona canavieira. Ainda, para um beija-mão à sociedade paraibana, em 26 de dezembro de 1859, um dia depois do Natal. Dona Teresa Cristina, a Imperatriz, então acompanhava o marido, por carruagem, tomando poeira. Também restaurada e com móveis da época, a Casa Grande do Engenho Corredor, berço de José Lins, abre-se aos visitantes num Nordeste onde o turismo costuma ser quase totalmente feito de forró e praia.

Luciano Medeiros é santaritense de quatro costados. Encontramo-nos, diariamente, no Tribunal de Contas da Paraíba, onde cumprimos nossas jornadas de trabalho. Com idade para ser meu filho, foi ele que me trouxe a informação de que eu necessitava para comprovar a história – nem sempre acreditada –
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de que vira uma fábrica de refrigerante na sua adorada Santa Rita, quando hóspede de Seu Tatá, no ano de 1956, por aí assim.

Este moço fez uso de um aplicativo de Inteligência Artificial para percursos largos nas trilhas da Internet. Resultado: existiu, mesmo, a tal fábrica por cuja janela vi garrafinhas em uma esteira veloz rumo ao bico injetor das “Gasosas Santa Rita”. Meu amigo me trouxe o nome do proprietário: Adauto Gouveia.

O prédio de um único pavimento situava-se à rés do chão, com jeito de casa comum, em travessa próxima da Avenida Juarez Távora. E teve engarrafamento na rua principal. Operava com as janelas abertas para a produção da Gasosa de Limão e da de Caju, vendidas com rolhas de cortiça posteriormente substituídas por tampas de metal, por “coroas”, assim denominadas. Ambos os produtos tomavam o destino dos bares e mercearias. A proximidade com a Estação Ferroviária, conta meu pesquisador preferido, facilitava a entrega de insumos, entre os quais
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Antiga fábrica dos refrigerantes Dore, Santa Rita, Paraíba ▪ Imagem: Arq. Dore, via Mun. Alagoinhas.
o açúcar em parte procedente da usina de Odilon.

Acho que empreendimentos desse gênero compuseram o capítulo fabril da história de centenas de municípios brasileiros. Ainda é muito viva, por aqui, a lembrança da criação dos Guaranás Dore e Sanhauá. O primeiro deles nasceu, em 1911, da iniciativa do engenheiro inglês Sidney Clement Dore, fundador da Fábrica Anglo Brasileira de Águas Gasosas, em João Pessoa. Ainda existente, é gerida pela Sidore Indústria de Bebidas, com vendas mais fortes em outros Estados do Nordeste. Produz seu próprio guaraná e marcas licenciadas a exemplo da Grapette e do Tampico.

O Sanhauá, fabricado quase à margem do rio do qual recebeu o nome, sobreviveu a crises econômicas e problemas logísticos até a década de 1990. Hoje, permanece vivo na memória afetiva de boa parte dos paraibanos. Fábricas como estas fecharam, aqui e alhures, em decorrência da chegada de gigantes do setor, um deles de cor preta.

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  1. Como sempre, memória e sabor compondo a crônica perfeita, Frutuoso. Parabéns. Francisco Gil Messias.

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    1. Obrigado, Gil. Meu abraço, Frutuoso.

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  2. Gostei muito 👏👏👏👏👏🙏🙏🙏🙏🙏♥️♥️♥️♥️♥️✂️

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  3. Fruto, ler você é sempre uma alegria. Encontro lembranças inesquecíveis de todos que viveram numa pequena cidade. Nesse texto, você traz Odilon e um dos seus significantes gestos de cidadão culto e consciente. Faz-me lembrar o que ouvi de outro grande paraibano, meu professor Juarez da Gama Batista: “Terra pequena é assim: tem raiva de quem fica maior do que ela, dentro dela”. O silêncio da Paraíba sobre as ações desses dois grandes intelectuais só se pode entender assim: pequenez, incapacidade.

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  4. Frutuoso Chaves Neto23/1/26 17:29

    Obrigado, Ângela. Sempre e sempre.

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