Como uma pessoa que afirma não se lembrar qual foi a roupa que usou no dia anterior, pode ter tantas certezas no coração a respeito de um suposto adultério? Poderíamos dar crédito a Bentinho? Começo esse estudo com uma indagação acerca da ambiguidade do nosso narrador e principal personagem do livro.
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Bento Santiago ou Bentinho, em sua juventude idílica desfruta a felicidade de conhecer e desfrutar um grande amor já na adolescência. Capitu era o seu sonho de amor, sua vizinha, sua amiga. Do amor juvenil, resultou um matrimônio igualmente feliz. Felicidade que duraria 5 anos.
Na altura de 5 anos de casado, ou mais ou menos isso, algumas suspeitas inundaram o pensamento de Bentinho; Estaria Capitu o traindo?
A ambientação da casa onde mora, concorre com a morbidez de Bentinho. A rua Mata-cavalos também. Por ser uma rua muito lamacenta, derruba os cavalos e dificulta-os serem salvos, muitas das vezes a solução é sacrificá-los. Acredito que esse fato também está por trás da intenção do escritor em descrever ainda a ambientação da história. Por fim, mas não menos merecedora de atenção, está a descrição, o significado do nome “Casmurro”. Ele não é sincero quando nos pede para não procurarmos no dicionário, o sinônimo... “ ...não consultes dicionários ‘Casmurro’ não está aqui no sentido que eles lhes dão...” , Ele quer na verdade querendo omitir a sua personalide de teimoso e cabeçudo.
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A memória dele é companheira que se impõe com violência e tirania. O seu maior fantasma é o ciúme que lhe tira a paz. Ele se infiltra de maneira sutil e gradativa; o que começa com inquietação se transfoma em obsessão. O que antes era desconfiança finda em prova irrefutável. As suspeitas se estendem ao longo dos capítulos, perpetuando a narrativa de forma sistemática e cativante para quem o ler.
Capítulo 107, Ciúmes do mar:
“... mas não é por isso que torno a ela, é para que não cuides que a vaidade de professor é que me fez padecer com a desatenção de Capitu e ter ciúmes do mar.
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Não, meu amigo. Venho explicar-te que tive tais ciúmes pelo qual podia estar na cabeça da minha mulher, não fora ou acima dela...foi isto que me fez empalidecer, calar e querer fugir da sala para voltar, Deus sabe quando...”
O livro é escrito em primeira pessoa, desenvolvendo uma proximidade, uma ligação mais acentuada com o leitor; Tudo o que for narrado, toda a história que nos é cedida, será através dele, o narrador, mesmo porque, todos os personagens estarão mortos: o agregado, sua tia, seu pai, sua mãe, seu filho, sua esposa bem como Escobar, o seu grande amigo. O desfecho é denso, silencioso e não nos dará nenhuma certeza sobre a traição de Capitu. A Bentinho restou a velhice, a solidão, a cruel incerteza. Ele envelheceu mas não amadureceu. Ele adoeceu. Ou mesmo se sentisse culpado por ter destruído o próprio casamento dele, sem estar devidamente certo da acusação que fez a esposa.
Capítulo 140, Volta da igreja:
“... pelo dia adiante, e nos outros dias, Ezequiel ia ter comigo ao gabinete e as feições do pequeno davam ideia clara
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das do outro, ou eu ia atentando mais nelas. De envolta, lembravam-me episódios vagos e remotos, palavras, encontros e incidentes, tudo em que a minha cegueira não pôs malícia, e a que faltou o meu velho ciúme. Uma vez em que os fui achar sozinhos e calados, um segredo que me fez rir, uma palavra dela sonhando todas essas reminiscências vieram vindo agora, em tal atropelo que me atordoaram ... e por que não os esganei um dia...”
O enredo da história é simples, mas nas entrelinhas residem metáforas maravilhosas, escrita refinada, pensamentos insondáveis, infundados, talvez certos... talvez não. A escrita de Machado de Assis abre um leque de subjetividade por entre linhas, espaços que exigem de nós leitores, uma observação especial.
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O livro Dom Casmurro foi escrito em 1899. De lá para cá, contamos 127 anos... de sucesso de crítica e de público. Leitores encantam-se com a maestria. A obra é estudada e admirada através de todo esse tempo.
Machado de Assis (1839–1908), criador da Academia Brasileira de Letras, é mundialmente conhecido. Foi jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo. Sua genialidade é reverenciada e também comparada a mestres como Shakespeare, Dostoiésvski, Vladimir Nabokov e James Joyce.
Bentinho precisava transformar a dor em explicação. O tempo não lhe conferiu sabedoria e o amor não o salvou. Em suma, ele não alcançou a paz. Foi um homem eternamente atordoado com suposições infindáveis... talvez errôneas. Nós nunca saberemos.
O livro transcende. Nele há citações de Otelo por mais de uma vez, como também alusões a outros mestres. A ótica, a crítica, os estudos sobre Dom Casmurro tiveram uma nova abordagem, na década de 1960,
quando entrou em cena Helen Caldwell, professora de Literatura Clássica na Universidade da Califórnia (UCLA), escritora e tradutora de Dom Casmurro, autora do livro O Otelo brasileiro de Machado de Assis. Ao ler um pouco sobre ela, afirmo ser necessário um outro artigo, tamanha a satisfação pelo seu trabalho.
“... O núcleo do meu trabalho consiste em responder duas questões suscitadas diretamente do livro; a heroína é culpada de adultério? Por que o romance é escrito de tal forma a deixar a questão da culpa ou inocência da heroína para a decisão do leitor?... Há genialidade em Dom Casmurro em todos os contextos; na estrutura narrativa, na subjetividade, na crítica a burguesia. Obra essencial para entender o desenvolvimento humano.”
Helen Caldwell (1904-1987).
Obra muitíssimo interessante, inteligente e intrigante.