Abri uma porta sem fechadura. Depois a fechei para retornar a um breve esquecimento de mim. Cansada de ver a incidência do tempo. Não ...

Útero oco

mulher maternidade nascimento
Abri uma porta sem fechadura. Depois a fechei para retornar a um breve esquecimento de mim. Cansada de ver a incidência do tempo. Não adianta se aposentar. Nos aposentos, o relógio corre tão rápido quanto na vida afora. A memória é um quadro permanente na parede deste quarto. Nenhuma saudade é espantável, embora me assombre. Fotografias, roupas, cartas. Toda uma vida que foi e poderia ser.

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A lembrança é um presente imaterial. O reencontro feito através de uma leitura infiel com o vivido. Mas, a realidade já se mostra aqui. Neste corpo que se coagula diante da moribundança. Aos poucos, o sepulcro se abre. Perderam-se sorrisos, medos, vontades – não há mais ninguém para pedir favores. Quero apenas um copo de destino.

Senti dúvida quando um vento soprou que ainda há pouco era tempo de namoro. Não encontrei a certeza de o amor ter me ocupado. Teu pai nunca foi minha paz. Ele era apenas uma sentinela dos meus desejos inconfessos. Essa minudência só acabará com a desmaterialização de um vínculo que nunca existiu; minha maternidade.

Sei que nenhum cordão nos atou além do umbilical. Onde estará meu segundo cordão? A que laço me atarei agora? Laços de sangue não são garantia de união, às vezes, estes podem ser o maior desenlace da nossa vida. Hoje sei que filtrei o meu sangue do teu corpo. Teu corpo tinha apenas sangue paterno.

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Entre meu ventre estavas se tornando um morrente. Ao te parir, fui drenada por ti, mais que sangue - roubaste minha identidade de pura – me desmarternizei. Fui desprovida da minha autoplacenta. Quando você nasceu, envelheci. Depois, chupaste meus seios até me desidratar. Perdi o vigor. Meus seios agora têm outras estórias.

O parto é uma ilusão. Quanto mais tu crescias mais eu me diminuía. Ah! Quantos abraços te neguei por me negar. Nasci condenada a não gestar vida alguma. Mal me gerei e tive que carregar
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o fardo de te manter num espaço em que nem eu mesma me cabia.

Ninguém nasce mãe, torna-se mãe ou não... Quem sou? Sou um produto sem processo de mediação entre um antes e um depois de ti. Um útero oco. Um abraço-soco. Um beijo neutro.

Preferiria, na verdade, enforcar-me com ele a ver o choro de um verme gestado na carne imunda das minhas entranhas. Ao passar pelo meu canal, todas as convicções se dispersaram. Com o teu nascimento, veio a solidão. A dor de parir durou até a tua partida. Com esta veio a dor do adeus. Tu já não cabias mais em mim. Tornaste um mundo – e eu não poderia incorporá-lo mais sobre a forma de um feto. Sim, tens meu afeto.

Agora, o que tenho a esperar? Meu útero tornou-se porão inútil. Sou o “mito do amor materno”. Não, não arrumarei o teu quarto. O parto era para ser o revés da saudade e não o contrário. Minha trama se desalinhou. Pietá teria pena de mim. Mas, não me culpo. O meu menino sempre será meu. Mesmo sem eu ser mais de mim.

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