A primeira vez que o vi, estava ele majestosamente enfurnado em um “pufe” na sala dos professores de um colégio onde eu fora ensinar e...

O Macunaíma Albino

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A primeira vez que o vi, estava ele majestosamente enfurnado em um “pufe” na sala dos professores de um colégio onde eu fora ensinar em Campinas, interior de São Paulo. Todo cheio de pose, voz grave e, mesmo esparramado como estava, pude perceber que não era lá um sujeito grandão, o que confirmei quando soou o sinal para nos dirigirmos à nossa faina diária, de disposição no peito e giz na mão. Isso foi lá no ano 2000. Já em 2001 fui convidado a ser um dos coordenadores daquela escola, e aí nossa relação se tornou muito próxima.

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Esse meu amigo é um camarada (ele gosta de ser chamado assim) de pele bem clarinha, carapinha encanecida pelo peso de quase oito décadas, que se completarão em 2027, barba do mesmo jeito, sempre de boina, como se fosse um pintor parisiense, daqueles que povoam as margens do Sena com seus cavaletes e pincéis. Os óculos de aro metálico não escondem os olhos de menino traquinas que esse meu parça sempre deixa escapar de seu espírito inquieto e irreverente.

Professor de História, dos bons, como poucos vi. Por dois anos dividimos o tablado lá em Campinas. Conosco, gente de qualidade ímpar. Que tempo! Conversa alegre, inteligente e vivaz na sala dos professores. E os encontros nos fins de semana? Que o diga Júlio Sartori. E aqui abro parênteses para que tenham ideia de como era a relação entre nós: Júlio chega no intervalo e vê que estávamos recolhendo “donativos”. Pergunta: “Pra quê essa grana?”. Alguém responde: “Para o churrasco de sábado”. E Júlio: “Não vou ser convidado?”. Aquele mesmo alguém: “Não precisa, porque vai ser na sua casa!”. Era assim. Éramos felizes e sabíamos disso.

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Voltando ao meu Macunaíma Albino, o apodo carinhoso veio da inquietude dessa criatura. Diziam que nascera em voltagem 110, mas estava ligado em 220. Estou falando de Wagner de Oliveira Fernandes, amigo querido. Viajamos juntos em tantos sonhos, tantas quimeras. Vou abrir um outro parêntese. Vale a pena contar.

Montamos um projeto, na verdade um sarau com o tema DE GETÚLIO ÀS DIRETAS JÁ. Mostrei a um outro coordenador, o Robinho, que topou na hora a parada. Nem precisamos pensar para quem iríamos entregar essa demanda. Só podia ser o Wagner. E foi.

Wagner é uma alma multifacetada: professor, poeta, ator, compositor e mais outras coisas que não convém lembrarmos. Tomou para si o projeto. Convocamos os e as docentes; uns eram bons de gogó e capazes de sustentar uma cantoria, outros tocavam algum instrumento. Mas como conseguimos reunir aquela plêiade? O alicerce foi o ambiente de camaradagem incomum e impensável que existia entre nós.

Então, numa noite, o auditório da escola se fez lotado: alunos, convidados, pais (alguns eram docentes da Unicamp). E foi quando tudo aconteceu. Wagner incorporou Procópio Ferreira por mais de duas horas, prendendo a atenção da plateia, que ria quando o
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momento permitia, se emocionava quando a alma fizesse essa exigência. O final foi apoteótico. O baixinho lembrou à plateia que, nos anos de chumbo, tínhamos vergonha de desfraldar nossa bandeira ou entoar o nosso hino. Mas que, no movimento das Diretas Já, o povo tomara esses símbolos de volta. E então uma aluna, cantora lírica (já era combinado), saiu da plateia e nos presenteou com o Hino Nacional. Comoção geral. Lágrimas brotaram dos olhos de cada um daquela plateia embevecida. Wagner tem esse poder.

Só que, em dezembro passado, meu amigo resolveu dar um rolê no México, teve uns piripacos no coração e, numa cirurgia de média complexidade, mas mal conduzida, sofreu um AVC. Acidente, fruto da imperícia médica. E fazer o quê nessa situação? Que luta trazê-lo de volta. Então essa turma que contei há pouco, mais um montão de gente, fizeram-se presentes. Uniram-se e trouxeram nosso Macunaíma numa UTI aérea. Hoje está em casa, aos cuidados de Silvana, a mulher de sua vida.

Do acidente ocorrido em dezembro, soube-o apenas dias atrás. A primeira coisa que fiz foi contatar a outra Silvana, a Romani, que me deu pé da situação. O processo de recuperação vai exigir resiliência desse meu amigo, mas a luta dele será a nossa luta; vamos estar juntos dele. Como não estar?

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