Era um dia como qualquer outro – que bobagem, todos os dias são únicos. Descera do ônibus. Andava pela calçada, rumo à escola. Sentia o cair da noite. Chovera. Algumas flores ainda não tinham despertado do prazer, depois do calor abrasador. As gotículas que delas pendiam ampliavam-lhes o encanto.
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Mas aquela mendiga segurava um pedaço de espelho. Todo quebrado. Servia, porém, para fazer algo que me surpreendeu. Sim, ela, não sei de onde, conseguira uma pinça – toda enferrujada – e naquele vidro tentava equilibrar sua imagem para – acreditem – “fazer” as sobrancelhas.
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Com aquele gesto inesperado, ela matava a sede de seus desejos – mesmo que fosse apenas um. Ela punha contra a parede a tempestade de seus dias. Para ela, nem tudo estava perdido. Era como um apelo: eu sou gente, eu ainda sou uma mulher.
Os ecos do que foi. Isso foi o que vi quando, ao sentir-se observada, virou-se com seus olhos de um mel esmaecido. E continuou naquele ritual, em um raro salão de beleza.







