SOUL Só posso afirmar que sou o vento, o conforto, a ilusão. Mas cesso com o suspiro da primeira face que atinjo. Não sei reto...

Em busca da fantasia das asas

poesia capixaba espirito-santense jorge elias neto
SOUL Só posso afirmar que sou o vento, o conforto, a ilusão. Mas cesso com o suspiro da primeira face que atinjo. Não sei retornar à boca de Deus, me derramo antes. Dissolvo brumas, sussurro silêncios. Converso com os atentos, deixo um mimo, um novo conceito de tempo. Permito-me o desperdício, lambendo as chamas. Beiro muros infinitos, buscando sobreviventes. Deixo rastilhos na areia, brinco de transitoriedade. E percorro os céus em busca da fantasia das asas. MONÓLOGO A DOIS Falo a história dos dias, assim, despercebido, entoando versos que não ecoam mais o assombro da beleza. Perto de mim há um anjo que me entende, e chutamos pedras. As luzes polvilham a cegueira, e eles já não veem o bordado das asas, as tranças do anjo, a textura desalinhada de seus passos, e me condenam à loucura. (A praticância desassistida de sonhos é o testemunho da morte que abomino.) Beijo a boca do anjo e tento adivinhar o seu nome antes que desista deste mundo e me abandone, perdido em alguma esquina, repleta de olhares ausentes. PARTES E CRUZES E, se entrecortássemos o destino, ele flutuaria mais fácil no caudal de angústias? Assim, picotado, ele se desdobraria em infinito? E seria ele a nos cerrar os olhos? DIUTURNAMENTE Eu me encontro no desperdício do entretanto, mesmo que me custe a sanidade. Entretanto, a tormenta e o rugido da fome me recebem na porta dos dias, recostados em sua rotina despercebida. E não acelero os passos, e isto é muito. A BUSCA DO AMPARO Deixem-me ler as cartas dos mortos, perder-me do tempo onde as peles falam, sentindo a visceralidade do silêncio. (Quando morremos, o mundo se fecha, imiscui-se da culpa.) Eu reagiria, talvez; mas finjo, embalado por passos despercebidos de vagar. Deixem-me ler as cartas dos mortos, testemunhas do solo desejado, onde a fortuna tem a marca dos seus pés. O CAMINHO DEITADO Queria deitar o meu caminho, me equiparar à terra. Mas o gemido dos tempos de indiferença, das calúnias humanas, dizia da tristeza das raízes no descompasso da eternidade.
  * Poemas inéditos que integrarão o próximo livro a ser lançado em breve pelo autor

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