“Ó rios de minha vida: os que cruzei sem ter visto e os que fluem, com mais tinta, no pélago das retinas de quem agora os recria! Não vi o Eufrates e o Tigre, ou o esfíngico Nilo, esse que corre por Biblos e se derrama em estrias às bordas de Alexandria.”
Ivan Junqueira in O Rio / O outro lado, 2002
A Mesopotâmia (terra entre os rios), que constitui o coração do atual Estado do Iraque, foi um dos berços da civilização ocidental, assinalado pela cordilheira do Zagros, pela planície dos históricos rios Tigre (“Ad-dijlis”) e Eufrates (“Al-furat”) e, mais ao longe,
Rio Tigre ▪ Diyarbakır, Turquia ▪ Foto: D. Stanley
pelas escarpas e encostas pedregosas (denominadas Iraq), pelas áridas estepes que se prolongam pelos desertos sírios. Este mesmo território foi o berço das primeiras grandes culturas orientais e um dos primordiais pontos de partida da civilização mundial.
O rio Tigre, com a sua nascente no lago Hazar (num pequeno lago de montanha a sudeste de Elazığ), após fluir sob as imponentes paredes de basalto que circundam Diyarbakır forma durante cerca de 40 quilómetros a fronteira entre a Turquia e a Síria abaixo de Cizre (de que são principais tributários os rios Botan, Batmansu e Karpansu, o Grande Zab, o Pequeno Zab e o Diyala, afluentes do Tigre pela sua margem esquerda, a norte de Baghdad), recebe as águas do rio Khabur oriental na fronteira com o Iraque, um pouco mais adiante, numa área lodacenta em Faysh Khabur.
Os rios Tigre e Eufrates nascem nas montanhas da atual Turquia, atravessam terras da Síria e do Iraque e percorrem milhares de quilómetros até se encontrarem no sul da Mesopotâmia. Entre seus vales floresceram algumas das primeiras cidades, reinos e sistemas de escrita da humanidade, razão pela qual a região é conhecida como o berço da civilização. ▪ Fonte: Britannica (adpt.)
Chegar à nascente do rio Tigre não é tarefa fácil. Onde termina uma estrada de terra, surge uma montanha escarpada, estreita e perigosa, e um túnel de árduo acesso. Os antigos assírios, que chamavam ao rio “Idiqlat” (“rio veloz”, descrevendo a correnteza rápida e turbulenta do rio em comparação com o Eufrates), acreditavam que este seria um lugar onde os mundos físico e espiritual se encontravam. Há três mil anos, os seus exércitos deslocavam-se rio acima para oferecer sacrifícios. Um relevo em gesso e alabastro de Tiglate-Pileser, rei da antiga Assíria entre 1114 e 1076 a.C., alusivo às suas campanhas militares, permanece visível na entrada do túnel.
(1) Túnel da nascente do Rio Tigre. ▪ (2) Relevo do rei assírio Tiglate-Pileser; (3) Lago Hazar, Turquia ▪ Imagens: S. Kissatim / Ş. Zümrüt / Wikimedia
Na sua bacia despontam vales e sistemas ecológicos com características diversificadas. Por onde passa o rio Tigre desenha-se a história de mais de trinta civilizações numa fita de tempo com mais de 7.000 anos. Ainda hoje, ao longo dos seus vales, podemos admirar os 6 km de muralhas do Castelo de Diyarbakır (as mais longas do mundo depois da Grande Muralha da China) e os setecentos hectares dos Jardins de Hevsel (Hevsel Bahçeleri) - Património da Organização
As muralhas de Diyarbakır figuram entre as mais bem preservadas fortificações do mundo. Alcançam cerca de 5,5 quilômetros de extensão e testemunham séculos de domínio romano, bizantino, árabe, seljúcida e otomano. ▪ Foto: A. Jones
das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) desde 2015. Será importante referir que o índice pluviométrico do território atravessado pelo rio Tigre é muito baixo e a região é árida, apesar deste ser mais caudaloso que o seu irmão Eufrates. Além disso, o solo nas margens do rio é demasiadamente salino. Ao descer com o fluxo da correnteza, a paisagem vai-se transformando, passando de grandes plantações irrigadas a desertos desabitados.
Desde os primórdios da civilização, o rio Tigre desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento das sociedades. Durante a Antiguidade, especialmente entre aproximadamente 3000 a.C. e 600 d.C., o rio Tigre (nome relacionado com o conceito de rapidez ou agilidade semelhante a um felino), foi testemunha do surgimento e da queda de grandes impérios. O Tigre permitia a irrigação de terras férteis, o desenvolvimento da agricultura e o estabelecimento de rotas comerciais essenciais. Foi nesse ambiente que nasceram avanços como a escrita cuneiforme, códigos de leis e complexas estruturas políticas. Atualmente, o rio Tigre continua a ser vital para o Iraque, passando por cidades importantes como Mossul e Baghdad, a capital do país. Embora o cenário moderno
Baghdad é uma das cidades banhadas pelo Rio Tigre. Foto: M. Aladdin
seja diferente, a sua importância histórica permanece viva como testemunho do poder da natureza na formação das civilizações.
O rio Eufrates, o mais longo do sudoeste da Ásia, com 2.800 km de extensão, que nasce nas montanhas da Anatólia e flui para sudeste, atravessando a Síria e o Iraque, é formado pela confluência dos rios Karasu e Murat no Planalto Arménio, descendo entre as principais cadeias montanhosas do Taurus até ao planalto sírio. Em seguida, flui por oeste e pela região centro do Iraque para se unir ao rio Tigre. Juntos, correndo mais ou menos na mesma direção, para sudoeste, rasgam sulcos durante 160 km de território e criam faixas de fertilidade numa paisagem desértica de aluvião e terras arenosas, antes de se unirem no palmar da bacia do Shatt al-Arab (“rio dos Árabes”), acabando por desaparecer nos pantanais a sul. Ambos ajudaram a criar um país de mosaicos: associações de diferentes paisagens, de variadas civilizações e culturas, de distintas religiões e povos.
A antiga fortaleza de Rumkale ergue-se sobre um penhasco às margens do rio Eufrates, no sudeste da Turquia. Habitada e fortificada por diferentes povos ao longo de quase dois milênios, a posição estratégica do castelo permitia controlar uma das mais importantes rotas fluviais da região.
O rio Tigre é navegável por embarcações de pequeno porte, jangadas e outros barcos menores, em Diyala e em Ninawa, a norte do país, até Baghdad, numa extensão de cerca de 720 Km, enquanto o Eufrates apenas pode ser percorrido por pequenos barcos.
Um pequeno barco navega pelas águas do Rio Eufrates no sul do Iraque. Depois de atravessar a Turquia e a Síria, o grande rio da Mesopotâmia segue seu curso por paisagens áridas até se unir ao Tigre, formando uma das regiões mais férteis e historicamente importantes do mundo antigo. ▪ Foto: Aziz / Wikimedia
Sumérios, Acádios, Elamitas, Caldeus, Assírios, Hititas, Persas, Gregos, Partos, Romanos e Árabes e outros povos sucederam-se aos grupos pré-históricos estabelecendo-se na região mesopotâmica onde, cerca do ano 4000 a.C., nasceram a roda e o arado, assim como os cultos básicos das crenças religiosas que predominam no mundo atual. Babilónia, Ninawa, Khorsabad, Ctesifonte, a fortificada cidade portuária de Seleukeia (Selêucia do Tigre), fundada após as conquistas de Alexandre “o Grande”, e Baghdad são nomes míticos da História da Humanidade.
As ruínas da cidadela de Halabiya, também conhecida como Zenóbia, dominam uma elevação às margens do rio Eufrates, no leste da Síria. Fortificada pelos romanos, a antiga cidade controlava uma importante rota entre a Mesopotâmia e o Mediterrâneo. ▪ Foto: Bertramz
A abundância proporcionada por estes rios ajudou a sustentar populações densas e culturas sofisticadas, marcando profundamente a história da Humanidade. Foi nestas margens que nasceu o poema mais antigo da humanidade: a Epopeia de Gilgamesh, considerada a obra literária escrita mais antiga do mundo (gravada há cerca de 4000 anos em placas de argila), cujo épico relata as aventuras do rei de Uruk. O cenário do próprio Paraíso descrito no livro do Génesis faz menção a quatro rios do Paraíso: Pishon, Gihon, Hiddekel (Tigre) e Phrath (Eufrates). Os sumérios, responsáveis por uma série de descobertas e invenções que inspiraram a Humanidade, acreditavam que os rios Tigre e Eufrates teriam sido criados pelo Deus da Água, “Enki”. De acordo com o mito de Adapa, Enki faria chover para que os rios se enchessem e assim não faltasse abundância. O registo dessa lenda pode ser encontrado em tabuletas de argila, lembrando inclusivamente que o barro usado para fazer essas mesmas tabuletas teve origem nesses dois rios.
O Rio Eufrates em seu extenso percurso, por montanhas e desertos. ▪ YT Mapograph
Devido à sua localização geopolítica, a área em que se encontram os rios Tigre e Eufrates assistiu, ao longo da história da Humanidade, a uma série de conflitos. Compreender o papel do rio Tigre e do rio Eufrates é entender os segredos milenares que moldaram impérios, a História e uma parte essencial da origem da sociedade humana. Eles não foram apenas dois impetuosos cursos de água, mas dois verdadeiros eixos de desenvolvimento cultural, político e económico que influenciaram gerações e deixaram um legado duradouro na História.