Era um domingo modorrento daqueles em que até o sol tem preguiça de aparecer. As chuvas de junho haviam trazido as criaturas do mofo para dentro da casa.
Entre um chá sem graça e umas torradas igualmente sem graça, li alguma notícia daquelas que se repetem ao longo dos anos neste carrossel sem grandes novidades que é a temporalidade humana.
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Lavei a pouca louça que havia usado. Os orientais já falam que na casa há muitos espíritos, gênios para os árabes, anjos e demônios para o mundo cristão. Pois bem, reza a sabedoria que bagunça, sujeira e descuido podem atrair estes entes devoradores da paz numa casa. Melhor mesmo é acompanhar o Feng Shui e manter o equilíbrio entre cores, formas e harmonia nos espaços.
Pensando nisto, resolvi então usar meu domingo preguiçoso para limpar as minhas gavetas. Não eram tantas, porém eram diversas.
Melhor começar com as mais simples. Gavetas de meia e cuecas. Uma primeira seleção: as que ficam e as que se vão. Classificação simples, sem muito método. A segunda gaveta tinha gravatas e umas pachiminas raramente usadas. Um cheirinho de roupa guardada que poderia ser resolvida numa lavagem rápida. Assim sucedeu com a gaveta de roupa de praia e coisas de frio.
Arrumar gavetas é uma ação terapêutica. As primeiras que escolhemos são as mais fáceis e que requerem quase um trabalho meramente mecânicos de divisão e escolha. As últimas, hum, estas se situam naquela região do inconsciente, cujos objetos lá contidos foram talvez há muito
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esquecidos pelo tempo das memórias.
Assim me aventurei em abrir aquela gaveta. Quase secreta. Quase escondida. Mas ali, presente como o mofo e ausente como um cofre, estavam minhas reminiscências misturadas pelo tempo que conserva os restos.
Ela exalava um misto de coisa velha, um odor amadeirado e aroma de papel bolorento. Parecia ser mais organizada do que as outras, pois havia uma seleção de pacotinhos amarrados com fitas e umas caixinhas de cubos de madeira em marchetaria. Havia também um antigo bloco de notas e umas canetas usadas ao seu lado.
Cuidadosamente, desatei o laço e fui examinando os papeis. Eram cartas antigas, recebidas de parentes, amigos e professores de um antigo curso de línguas. Todas escritas à mão, com caligrafia gótica alemã, na sua maioria. Havia diplomas antigos e até uns cartões postais de uma viagem aos Andes.
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Curioso, abri o bloco de notas já com as páginas amareladas pelo suor do tempo. Nas primeiras páginas uma série de contas matemáticas em duas colunas que me pareciam uma contabilidade mensal. Reconheci minha letra de adolescente. Abaixo da somatória, o objeto de desejo: uma bicicleta. Nem me lembro mesmo se a minha primeira bicicleta foi presente ou foi comprada com minhas economias. Depois um rol com nomes de pessoas que compunham uma excursão para um final de semana na praia, com os respectivos alimentos e bebidas que cada um deveria levar. Em sequência, um desenho tosco de uma casa, como um croqui, cuja memória em mim foi borrada.
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Havia, após, uns pedaços de papel rasgados, folhas destacadas do bloco, cujo conteúdo eu nunca terei acesso. Findava com esquemas de símbolos mágicos, à maneira de hieróglifos, separados em conjuntos de três. Eram triângulos sobrepostos, um conjunto de ankhs e um grupo de olho de Hórus em diferentes formatos, todos eles desenhados em nanquim. As folhas finais eram dedicadas a escritos incompletos sobre talvez projetos de uma futura profissão e uma lista com três livros: Eram os Deuses Astronautas (Erick Von Daniken), O Livro dos Mortos do Antigo Egito e Tarot e Cabala (de Samael Aun Weor).
Na caixa de marchetaria, esta deixada por final (Jung explica), havia uma preciosidade: um antigo conjunto de cartas de Tarot de Thoth. Estava dentro de um saco aveludado que exalava um cheiro amadeirado puxado ao sândalo, que imaginei ser da caixa. Debaixo do deck de cartas havia uma capa de veludo solta. Notei que embaixo dela tinha um papel, um envelope azul. Estava aberto. Dentro dele, em papel acinzentado, uma carta.
Areia, 5 de setembro de 1990.
Nem sei se esta carta algum dia chegará ao seu destino: suas mãos.
Hoje é o primeiro dia após sua partida. Não por coincidência, um dia nublado e meio gelado como é de praxe nestes invernos.
Agora estas montanhas de Areia são mais uma cordilheira a nos separar. Você vai em busca de planícies férteis e eu me encurralo nesta serra fria.
Logo cedo passei pela garagem e vi seus instrumentos de jardinagem: a tesoura, a pazinha e o ancinho junto aos sacos de estrume. Me subiu uma raiva daquele vazio e minha vontade foi salgar as flores do seu jardim. Sim, fui cruel como é este destino que me afundou neste poço de saudade.
Na primeira noite após sua partida, eu rolei na cama sem teu calor. A maldição da insônia me possuiu como um obsessor. Uma cama de faquir com os pregos me sangrando noite adentro. Para me conformar, busquei no travesseiro seu cheiro, nem que fosse ao Água de Colônia 4711 que você tanto gostava.
Ainda trôpego e insone, bati no porta-retrato com aquela foto em que estávamos tão felizes. O vidro rachou exatamente entre nós,
como se adivinhando o que seria este outro dia.
Aqui na gaveta da minha escrivaninha ficou aquele canivete suíço que você sempre zombou: “Você não vai usar nem a metade desses instrumentos que tem nesse canivete, né?”
Ah, seu riso. Seu riso fácil que me enchia os olhos de brilho.
Olhei para tantos cortantes daquele canivete e minha vontade era de me escapelar todo, de retirar minha pele. De fazer sangria e me renovar feito vampiro. De sangrar de amor como a canção de Gonzaguinha.
Hoje chove. Chove forte. Vou sair pelas ruas molhadas para a chuva enxugar meu pranto. Você bem sabe que eu nunca gostei de ninguém me ver chorar. Tomara que meu relógio enferruje e não me dite mais estas malditas horas sem você. E que um raio caia na torre da igreja matriz, fazendo cessar as badaladas das horas.
Ah, eu sei que se você lesse esta carta iria mangar de mim muito, muito. Me lembro tanto de você reclamar dos meus dramas. Mas também me lembro de seus olhos marejados ao ler um dos meus poemas.
E foi isto que sempre amei em você. Riso fácil e aquelas cacimbas negras de seus olhos.
Minha insônia é o vazio das palavras não ditas. Você sabe que eu me escondo na escrita, este túmulo das emoções.
No segundo dia após sua partida, eu me enrosquei nos arames farpados do amor. Me salguei em lágrimas e sangue. Como aqueles penitentes que conhecemos na viagem ao Crato,
me chibatei pelas palavras não ditas. Dizer do meu amor é chamar o castigo para mim, para você.
Assim, meu amor é um sarcófago secreto, quem dera nunca encontrado, nunca decifrado. Como cantou nosso Milton Nascimento, tenho a sede dos peixes, o que não tem solução.
Eu bem sei das nossas impossibilidades. Pelo menos da sua, eu sei. Agora o destino vai lhe tragar como fez com tantos outros amores partidos. Eu também serei engolido por estes ventos frios de junho.
Sou um covarde no amor. Pareço um colecionador de raridades que não compartilha suas belezas com ninguém.
Eu sei que esta carta já está longa e repetitiva. Reflete minha ferida que pulsa latejante.
Passei mais cedo na casa de dona Eudócia e vi o rebolo de bilros cheio de alfinetes que ela usa nas suas rendas de labirintos. Fique me lembrando da dança das linhas em vai-e-vem suspensas
nos bilros e de como elas se emaranham na tecitura final. Lembrei de nós dois. Contudo, nossa tecitura ficou mais um enlinhado do que uma renda. Meu amor é assim: um desalinho.
Talvez esta seja mesmo uma carta nunca postada. Ou aquelas cartas enviadas a um endereço incerto que voltam ao remetente.
Você tem razão: sou um romântico meio trágico.
Uma vez você me disse para prestar mais atenção na música Travessia: “vou querer amar de novo e se não der não vou sofrer...” Eu já não tenho certeza disto. Amar chegou para mim como uma pequena morte. Amar o impossível. Amar calado. Amar para si. Amar você é um risco. Inclusive o de lhe perder. Daí, então, esta carta nunca deverá ser enviada.
Amar seria então um exílio? Eu não sei. Porém, o que sei é que há em minha retina seu olhar, seu riso, seu jeito virginiano de
calcular emoções, seus atos de amor.
Agora escuto os ecos naquele longo corredor antes de sua partida. O tintilar dos pratos que terminamos juntos lavando depois do seu bota-fora. Daquela água fria de agosto correndo pelos canos de ferro e desaguando nas nossas mãos. Foi como executar uma peça a quatro mãos. Depois o silêncio que só o amor é capaz de ecoar.
Não me arrependo de nada. Tudo faz sentido para mim. Nosso silêncio e o barulho ensurdecedor das nossas respirações. Talvez o amor é este silêncio embaraçoso. Mesmo que todas as palavras estivessem naquele brete da garganta, doidas para sair desembestadas para você. Eu me calei. Não aprendi que falar desata nós. Desata-nos.
Por tudo e por nada que houve, sou imensamente grato por ter em você o meu despertar para o oceano que nos povoa, às vezes chamado de amor.