A hipocrisia não envelhece. Ela apenas troca de vestimenta, atualiza o vocabulário e encontra novos púlpitos para pregar. Se há três séculos o fingimento moral se escondia sob o terço, as túnicas austeras e os suspiros religiosos nos salões da nobreza francesa, hoje ele se disfarça em discursos inflamados nas redes sociais, discursos corporativos sobre empatia e posturas virtuosas que duram exatamente o tempo de gravar um vídeo curto. Mudaram os cenários, mudou a tecnologia, mas o tipo humano continua assustadoramente o mesmo.
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Nascido em Paris em 1622, filho de um abastado estofador real, Molière desafiou o destino burguês traçado por sua família para se entregar de corpo e alma ao teatro. Fundou companhias, combateu a falência, excursionou pelas províncias e acabou conquistando o favor do Rei Sol, Luís XIV. Molière não era apenas um autor prolífico; era um ator visceral que conhecia a natureza humana como poucos. Sua comédia não existia para o mero entretenimento vulgar, mas sim para "corrigir os costumes rindo" (castigat ridendo mores). Ele transformou o riso em uma lâmina afiada capaz de perfurar a carcaça da vaidade e, sobretudo, do fingimento.
Nenhuma de suas obras retratou de forma tão brilhante e perigosa essa lâmina quanto a sua obra-prima, Tartuffe (ou O Impostor).
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Molière defendeu-se vigorosamente. Deixou claro em seus manifestos que não atacava a fé verdadeira, mas a usurpação da fé por canalhas.
Ele fez a distinção crucial entre a genuína devoção e a devoção performática. Para o dramaturgo, os falsos devotos eram os mais perigosos de todos os criminosos, pois usavam o que a sociedade tinha de mais sagrado, a fé e a moral, como escudo para cometer suas vilanias. O fingido cria uma blindagem moral inviolável: contestá-lo significa, teoricamente, contestar a própria virtude. E é exatamente esse mecanismo de manipulação que se
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A figura do falso devoto transcendeu as paredes das igrejas para ocupar as timelines das redes virtuais. O tribunal da internet está repleto de indivíduos que ostentam bandeiras
éticas rigorosíssimas, apontam o dedo para os deslizes alheios e exigem o cancelamento imediato de qualquer um que desafie seus dogmas. Contudo, longe das câmeras e da aprovação dos seus pares, praticam com naturalidade a intolerância, a ganância e a falta de empatia que juram combater. A moral virou um produto de consumo, uma maquiagem rápida aplicável antes do próximo post. O julgamento alheio virou o esporte nacional dos maus-caracteres.
Vemos executivos que discursam calorosamente sobre sustentabilidade e responsabilidade social em eventos corporativos, enquanto nos bastidores precarizam as relações de trabalho de seus funcionários. Testemunhamos figuras públicas que se erguem como guardiãs da família e dos bons costumes, mas cuja vida privada é marcada por escândalos de corrupção e desrespeito ao próximo. Observamos a hipocrisia nas
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Eis a tragédia que Molière já denunciava no século XVII. Quando a aparência de virtude se torna mais valiosa do que a própria virtude, a sociedade adoece. Os ingênuos, como o personagem Orgon da peça, entregam sua razão e sua vida na mão de demagogos porque estão desesperados por validação ou por respostas fáceis. O falso devoto alimenta-se dessa credulidade. Ele sabe exatamente quais palavras mágicas pronunciar para encantar a plateia e desarmar qualquer senso crítico. O teatro de Molière incomoda porque é um espelho.
Ele nos força a olhar não apenas para os hipócritas que nos cercam, mas para a pequena parcela de falsidade que podemos estar alimentando dentro de nós mesmos. Afinal, é tentador adotar uma postura moralista para esconder nossas próprias falhas e contradições. Rir de Tartuffe no palco é fácil; o difícil é reconhecer os momentos em que vestimos o manto da falsa virtude na vida real para obter vantagens ou aceitação social.
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