A hipocrisia não envelhece. Ela apenas troca de vestimenta, atualiza o vocabulário e encontra novos púlpitos para pregar. Se há três ...

O Palco dos Santarrões: Molière, Tartuffe e os devotos de fachada do século XXI

moliere tartuffe hipocrisia moralidade religiao sociedade
A hipocrisia não envelhece. Ela apenas troca de vestimenta, atualiza o vocabulário e encontra novos púlpitos para pregar. Se há três séculos o fingimento moral se escondia sob o terço, as túnicas austeras e os suspiros religiosos nos salões da nobreza francesa, hoje ele se disfarça em discursos inflamados nas redes sociais, discursos corporativos sobre empatia e posturas virtuosas que duram exatamente o tempo de gravar um vídeo curto. Mudaram os cenários, mudou a tecnologia, mas o tipo humano continua assustadoramente o mesmo.

moliere tartuffe hipocrisia moralidade religiao sociedade
GD'Art
Foi justamente para desmascarar essa maquiagem social que Jean-Baptiste Poquelin, mundialmente imortalizado sob o pseudônimo de Molière, dedicou sua vida e sua genialidade dramática.

Nascido em Paris em 1622, filho de um abastado estofador real, Molière desafiou o destino burguês traçado por sua família para se entregar de corpo e alma ao teatro. Fundou companhias, combateu a falência, excursionou pelas províncias e acabou conquistando o favor do Rei Sol, Luís XIV. Molière não era apenas um autor prolífico; era um ator visceral que conhecia a natureza humana como poucos. Sua comédia não existia para o mero entretenimento vulgar, mas sim para "corrigir os costumes rindo" (castigat ridendo mores). Ele transformou o riso em uma lâmina afiada capaz de perfurar a carcaça da vaidade e, sobretudo, do fingimento.

Nenhuma de suas obras retratou de forma tão brilhante e perigosa essa lâmina quanto a sua obra-prima, Tartuffe (ou O Impostor).

moliere tartuffe hipocrisia moralidade religiao sociedade
GD'Art
Encenada pela primeira vez em 1664, a peça conta a história de um vigarista disfarçado de homem santo que se infiltra na casa de Orgon, um nobre ingênuo e dominado pela necessidade de parecer piedoso. Tartuffe usa uma retórica religiosa impecável, fala com voz mansa e exige sacrifícios morais de todos à sua volta, enquanto, nos bastidores, tenta seduzir a esposa do seu benfeitor e tomar-lhe a herança. O escândalo na época foi imediato. A Igreja Católica, a Devotíssima Sociedade do Santíssimo Sacramento e diversos setores influentes da corte viram na peça um ataque direto à religião. A encenação foi proibida pelo rei durante anos sob intensa pressão do clero.

Molière defendeu-se vigorosamente. Deixou claro em seus manifestos que não atacava a fé verdadeira, mas a usurpação da fé por canalhas.

Ele fez a distinção crucial entre a genuína devoção e a devoção performática. Para o dramaturgo, os falsos devotos eram os mais perigosos de todos os criminosos, pois usavam o que a sociedade tinha de mais sagrado, a fé e a moral, como escudo para cometer suas vilanias. O fingido cria uma blindagem moral inviolável: contestá-lo significa, teoricamente, contestar a própria virtude. E é exatamente esse mecanismo de manipulação que se
moliere tartuffe hipocrisia moralidade religiao sociedade
GD'Art
projeta no tecido social dos dias atuais com uma precisão estarrecedora. Olhe ao seu redor. Quantos "Tartufos" você encontra no cotidiano moderno?

A figura do falso devoto transcendeu as paredes das igrejas para ocupar as timelines das redes virtuais. O tribunal da internet está repleto de indivíduos que ostentam bandeiras

éticas rigorosíssimas, apontam o dedo para os deslizes alheios e exigem o cancelamento imediato de qualquer um que desafie seus dogmas. Contudo, longe das câmeras e da aprovação dos seus pares, praticam com naturalidade a intolerância, a ganância e a falta de empatia que juram combater. A moral virou um produto de consumo, uma maquiagem rápida aplicável antes do próximo post. O julgamento alheio virou o esporte nacional dos maus-caracteres.

Vemos executivos que discursam calorosamente sobre sustentabilidade e responsabilidade social em eventos corporativos, enquanto nos bastidores precarizam as relações de trabalho de seus funcionários. Testemunhamos figuras públicas que se erguem como guardiãs da família e dos bons costumes, mas cuja vida privada é marcada por escândalos de corrupção e desrespeito ao próximo. Observamos a hipocrisia nas
moliere tartuffe hipocrisia moralidade religiao sociedade
GD'Art
pequenas relações: o vizinho que exige silêncio absoluto no prédio, mas organiza festas barulhentas; o colega de trabalho que prega a colaboração, mas rouba a autoria dos projetos alheios. O ser humano contemporâneo aprendeu a dominar a arte de parecer, em detrimento do ser.

Eis a tragédia que Molière já denunciava no século XVII. Quando a aparência de virtude se torna mais valiosa do que a própria virtude, a sociedade adoece. Os ingênuos, como o personagem Orgon da peça, entregam sua razão e sua vida na mão de demagogos porque estão desesperados por validação ou por respostas fáceis. O falso devoto alimenta-se dessa credulidade. Ele sabe exatamente quais palavras mágicas pronunciar para encantar a plateia e desarmar qualquer senso crítico. O teatro de Molière incomoda porque é um espelho.

Ele nos força a olhar não apenas para os hipócritas que nos cercam, mas para a pequena parcela de falsidade que podemos estar alimentando dentro de nós mesmos. Afinal, é tentador adotar uma postura moralista para esconder nossas próprias falhas e contradições. Rir de Tartuffe no palco é fácil; o difícil é reconhecer os momentos em que vestimos o manto da falsa virtude na vida real para obter vantagens ou aceitação social.

moliere tartuffe hipocrisia moralidade religiao sociedade
GD'Art
Molière morreu em 1673, tragicamente, após passar mal enquanto atuava justamente na peça O Doente Imaginário. Ele não teve direito a um sepultamento cristão tradicional no solo sagrado da igreja, uma ironia final imposta, justamente, pelos clérigos que ele tanto criticara. Mas sua voz atravessou os séculos inabalável. Seus textos continuam vivos porque a matéria-prima de suas comédias permanece intocada. Enquanto houver quem use a moralidade como disfarce e a fé como instrumento de dominação, a lição do dramaturgo francês continuará urgente. O riso de Molière é uma arma de libertação: ao rirmos dos falsos devotos, desmascaramos seu poder, tiramos sua autoridade e devolvemos à verdade o lugar que lhe cabe. Que saibamos usar essa herança para enxergar além dos discursos perfeitos e das aparências impecáveis do nosso tempo.

COMENTÁRIOS

leia também

Postagens mais visitadas