Na janela se debatiam as gotas de chuva, e elas tinham o seu sentido de permanência no vidro. Primeiro se chocavam no mesmo ponto e,...

O salto

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Na janela se debatiam as gotas de chuva, e elas tinham o seu sentido de permanência no vidro. Primeiro se chocavam no mesmo ponto e, atordoadas, escorriam até o peitoril da janela. Mas não foi assim com a lágrima de sangue no calor interno daquele quarto.

Ela queria abrir a janela, batia com a cabeça, dispersando as gotas que só chegavam para a provisoriedade do instante. Ela queria gritar, dizer do infalível desespero aos ouvidos do filho. Ela queria a vitória insana do desespero sobre a inocência; o martírio sublime da vítima; o sequestro da alma ingênua.

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Ele agarra os seus pés.

— Eu vou pular, quero morrer!

— Não, mamãe! Pula não, mamãe!

É o que ele podia. Agarrava suas pernas enquanto ela sacudia a janela para abri-la.

— Eu vou me jogar! Não aguento mais esta vida!

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E os gritos eram do tamanho de seu olhar alucinado, decidido; era um êxtase que fazia o menino tremer.

Embora ele não alcançasse a janela do apartamento e não visse os nove andares que aguardavam a passagem do corpo de sua mãe, ele já previa que algo definitivo aguardava como ato final daquela alucinação.

Ele chorava, uivava o nome da mãe, segurava as duas pernas que escorregavam pela janela aberta.

Agora a chuva escorria em seu rosto, lavando o verde dos anos.

Ela tomou impulso e saltou até que a barriga ficasse para fora da janela. E foi como que arrastando o corpo para o abismo.

O menino, vermelho de tanta força que fazia, agarrou-se ao robe da mãe, às pernas; saltava para alcançar a cintura, mas suas mãos molhadas escorregaram até os pés.

E viu as pernas de sua mãe na obliquidade da despedida.

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E ouviu o grito de sua mãe ao se agarrar ao peitoril da janela e puxar, com toda a força, seu corpo de volta.

E sua mãe tombou sobre ele, batendo forte com a cabeça no piso de sinteco multicolorido.

E ela ficou lá deitada, em uma respiração rápida, desencontrada.

E ele viu que estava viva.

O dia amanheceu claro, era sol, e a janela tinha sido limpa na véspera.
Ele arrastou uma cadeira e a colocou diante da janela.
Subiu na cadeira e abriu a janela.
E se pendurou até que conseguisse ver a rua de sua casa.

Buscou ver o chão e imaginou o tamanho de sua mãe no asfalto.

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