A pequena tela acima — com o retrato que fiz do Hamlet menino — não sei que fim levou. É fruto da cena que trago aqui, de meu romance "A angústia de Hamlet, segundo seu amigo Horácio, paraibano", que encerrou minha "História universal da angústia", Ed. Bertrand Brasil, 2004, e saiu em edição solo pela Arribaçã, no ano passado.
GD'Art
— Hamlet era infeliz já na infância?! — perguntei.
Horwendil me olhou nos olhos:
— A Rainha... não dava atenção ao garoto... Quanto ao cunhado...
— Você quer dizer que...
Ele assentiu com a cabeça.
— ... A coisa já vem de longe. Yorick achava, inclusive, que o Príncipe não era filho do rei...
— Era filho de Claudius?!
— Dele... ou de outro...
— Outro?!
GD'Art
— Não me diga!
— É mesmo? — Bernardo conseguiu articular, também estupefato.
— E por quê? — o Maestro inquiriu.
— Aí é que entra uma informação que vai pegar Hamlet pelo coração do coração, meus caros. O tio dele...
Horwendil foi incapaz de prosseguir. No que baixou o rosto para o outro lado, a luz intensa moveu-se da sua testa ao queixo. O ator levantou-se, encheu uma taça com vinho e tomou-o devagar, enquanto se recuperava. Só então voltou a sentar-se e continuou, entrecortadamente, furioso, retórico, enxugando as lágrimas:
— Aquele animal... adúltero e incestuoso..., valendo-se de seu... charme... e de presentes insidiosos... — cerrou os punhos, com ódio. — Ah, miserável espírito, malditos badulaques que possuem o dom de seduzir assim as mulheres! Satisfez os apetites da Rainha, na aparência casta, depois do vergonhoso cio que provocou nela...
GD'Art
— Na frente da criança!...
Claudius não é um personagem... terrível... como outros vilões shakespeareanos — Ricardo III, Macbeth ou Tito Andrônico. Por isso, tal qual curioso anúncio (eu gosto de publicidade) que vi certa vez, no finalzinho do século XX, em que se ampliava o micromonstro ácaro 136.758 vezes, a fim de torná-lo pavoroso o suficiente para que comprássemos aspiradores de pó da Eletrolux para eliminá-lo, procurarei obter closes, big close-ups como este, do criminoso, a fim de que se possa entender por que — enquanto houver sujeitos como ele (ou seja: sempre) — toda vez que alguém fizer o V da vitória... erguerá o indicador e o médio, ao que o resto dos seus dedos, instintivamente, ficará agachado.
Não sou de chorar, mas foi de olhos fechados com força que consegui me dominar até abri-los novamente e ver Horwendil prosseguir:
— O principezinho, assustado, correu até Yorick. Meu irmão, certo de que realmente “titio estava magoando mamãe”, foi socorrê-la... apesar da enorme imprudência... e deu com a Rainha gemendo e gritando mesmo, mas de gozo. Claudius ficou uma fúria no que foi interrompido por aquela figura ridícula do anão no quarto, roupa toda losangulada, cores berrantes. O menininho entrou correndo em seguida, no exato momento em que seu bufão era agarrado pelo assassino, que lhe partiu o pescoço num tranco, assim, olhem: Cruft!
— Puta que o pariu! — Bernardo desabafou, horrorizado.
Senti — profundamente consternado por não lhe poder acrescentar nada no momento — a presença escura de Hamlet.
“Meu Deus, por isso tanta angústia!”
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