Na minha juventude , era comum a gente se apaixonar por algum artista famoso. Isso fazia parte da vida e era um acontecimento especial....

O tempo passou... que pena!

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Na minha juventude, era comum a gente se apaixonar por algum artista famoso. Isso fazia parte da vida e era um acontecimento especial. Nossos ídolos eram como super-heróis: míticos e inatingíveis. Restava-nos sonhar com a possibilidade de conhecê-los pessoalmente, um dia.

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Odair José, cantor e compositor, na capa da Revista Contigo, n. 136 / 1973 ▪ Fonte: facebook O mundo de Roberto Carlos
Ouvir suas músicas, vê-los na televisão, guardar fotos recortadas de revistas de fofocas e até escrever cartas para eles (que não eram enviadas ou, se eram, nunca chegavam e, se chegavam, jamais foram respondidas), estavam na ordem do dia.

Lembro que, naquela época, meus cantores preferidos eram Odair José e, depois, Peninha, quando estourou a música Sonhos.

Odair José era um cantor de canções muito populares, cujos temas versavam sobre amores impossíveis entre pessoas muito diferentes, separadas, principalmente, pela classe social. As melodias chorosas eram alento para quem, na vida real, esperava por um príncipe encantado, cheio de amor, respeito e riquezas. Por que não?

As composições de Peninha, por sua vez, nessa mesma linha romântica, falavam de amores não correspondidos, da solidão e do que parecia ser um encontro perfeito entre almas gêmeas que se completavam.

Peninha - Que Pena ▪ Fonte: YT Marcos Rodrigues
Eu suspirava e escrevia longos poemas de amor em um caderninho amarelado que eu guardava debaixo de sete capas.

Pois bem. Eis que no ano passado tive a oportunidade de assistir a um show de Odair. As músicas eram as mesmas dos anos 1970, mas ele, antes meu misterioso cavaleiro da triste figura, parecia um daqueles hologramas indefinidos, perdido no centro do palco, irritadiço, a ralhar com quem o atrapalhava pedindo essa ou aquela música. Pouco interagiu com o público, mas seguiu certinho o roteiro programado.

Odair José - Eu Vou Tirar Você Desse Lugar ▪ YT Edu Lopes
Ontem foi a vez de conhecer pessoalmente Peninha. Para meu espanto, havia na fila muito mais cabelos brancos do que de qualquer outra cor; mais pessoas que precisavam de apoio para descer os degraus do teatro ou para encontrar o local onde sentar, do que jovens fãs deslumbradas. E eu era uma daquelas.

Eu esperava voltar no tempo e fazer de conta que ainda estava nos anos 70. Não estava. Como quase toda a plateia, eu também era uma senhorinha de cabelos grisalhos, joelhos doloridos, ao subir a rampa, e vista curta para enxergar melhor o cantor.

Peninha - Sonhos ▪ YT Milena23
Peninha trazia nos ombros curvados e nos cabelos embranquecidos a marca do tempo. Já não era o rapaz bonito, de olhos claros, estampado na capa do compacto simples que eu guardava com tanto carinho, trazendo no lado A a música Sonhos e, no lado B, Que Pena.

No final da apresentação, ele, simpático e paciente, veio para perto do público, que o cercou e tirou fotos com ele. Eu não tive coragem de registrar esse acontecimento, inimaginável em outras eras.

Posso dizer que o artista representou bem o que eu e muitos ali estavam sentindo. Em tom de desabafo e de indisfarçável resignação, falou dos esquecimentos, pediu desculpas por errar a entrada de uma música, sentou, num dado momento do show, e pediu para cantarem com ele.

Se parei de sonhar, não sei. Mas percebo hoje que os sonhos também envelhecem e que já não sou mais aquela menina romântica que gostava desses ídolos. O tempo passou para eles e passou também para mim. E essa é, sim, a maior das minhas penas.

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