IGARAKUÊ significa “canoa virada”. Era assim que os povos nativos reconheciam e nomeavam o peixe-boi quando ele subia para respirar. Mamífero aquático, o Trichechus manatus expunha o dorso arredondado sobre a água e, por um instante, seu lombo lembrava o casco de uma canoa emborcada. O nome nasceu de uma observação precisa e, ao mesmo tempo, imagética: subir, respirar e desaparecer novamente.
Entre a palavra indígena e o movimento do animal existe uma geografia, uma fauna e um passeio pelo país: água, memória, visão e percepção.
Peixe-Boi Marinho ▪️ Fotografia: Jakub Pabis
Os levantamentos históricos indicavam sua presença desde a região da foz do São Francisco até o Oiapoque. A pesquisa também buscava compreender como o peixe-boi-marinho se dispersava ao longo da costa e se relacionava, no extremo Norte, com o peixe-boi-da-Amazônia, o Trichechus inunguis.
Peixe-Boi da Amazonia ▪️ Fonte: Fapesp
Durante muito tempo, o peixe-boi foi visto como fonte de alimento e iluminação. Sua carne alimentava e sua gordura iluminava. A relação com a espécie carregava a dureza da subsistência e as marcas de um tempo em que a proteção ambiental ainda não fazia parte do cotidiano de muitas comunidades.
Foi nesse percurso que o oceanógrafo José Catuetê Albuquerque identificou, na Barra de Mamanguape, uma ocorrência frequente do peixe-boi e criou, às margens do estuário, a primeira base do Projeto Peixe-Boi Marinho. O antigo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal – IBDF iniciou ali, com apoio da UFPB, as primeiras pesquisas, criando condições para o estudo e a proteção do animal.
Naquele momento, compreendi o quanto a Paraíba ainda era pouco conhecida para mim. Eu não tinha a dimensão da Barra de Mamanguape, do litoral que se prolongava até a divisa com o Rio Grande do Norte, nem da imensa presença dos índios potiguaras e suas terras indígenas.
Atividades do Projeto Peixe-Boi Marinho em Barra de Mamanguape na década de 1980 (PB) ▪️ Acervo do autor
Minha memória do litoral parecia terminar em Lucena. Quando criança, eu vira as baleias abatidas chegando a Costinha. Aos doze anos, em Camboinha, o estuário e o mar já estavam presentes em minha vida. Brincava nas ondas e me intimidava com os bancos de capins-agulha que afloravam entre Areia Dourada e Camboinha. O caminho até Areia Vermelha era um vasto capinzal, alimento para o peixe-boi.
Filhotes de Peixe-Boi ▪️ @Our Beautiful Planet
Nesse percurso, o universo do manguezal também se abriu. Em 1989, realizei o projeto “Ver o Mangue”, voltado para documentar a vida e o extrativismo em áreas desfavorecidas e atingidas pela indústria da cana-de-açúcar, que lançava a calda diretamente nos rios.
As denúncias dos pescadores eram numerosas: poluição, devastação, conflitos e invasões de terras indígenas. O litoral além da Paraíba conhecida por mim ainda era um mundo a descobrir; assim fiz. Dois anos antes, em 1987, realizei o documentário Paz no Mangue, registrando uma passeata de pescadores que denunciavam as usinas e a mortandade de peixes.
Entre 1992 e 1993, percorremos o litoral de Pernambuco, do Rio Grande do Norte, do Ceará, do Piauí, do Maranhão, do Pará e do Amapá. Em várias praias, ouvimos pescadores, caçadores e pessoas que haviam convivido com o peixe-boi. Muitos não sabiam que sua captura era proibida. Matavam porque o animal era alimento e porque a fome também governava a relação entre as pessoas e a natureza.
À medida que avançávamos para o Norte, os relatos sobre o peixe-boi-marinho se tornavam mais espaçados. As crianças brincavam à beira do mangue e do mar, mas muitas já não sabiam o que era um peixe-boi. A espécie permanecia na água e desaparecia da lembrança.
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No Maranhão, as grandes marés, as reentrâncias, os furos e os ventos fortes compunham outra paisagem. Percorremos baías, praias, canais e furos; seguimos até a divisa entre o Maranhão e o Pará: de um lado, Carutapera, no Maranhão; do outro, Viseu, no Pará.
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Depois, chegamos à foz do Amazonas. A ilha de Marajó, as ilhas de Mexiana e Caviana e o arquipélago do Bailique formavam um conjunto atravessado por águas que se moviam e se interligavam. Com pesquisadores do Centro Peixe-Boi e do Ibama, procurávamos sinais de interação entre o peixe-boi-marinho e o peixe-boi-da-Amazônia. Durante aquela expedição, não observamos nem recebemos relatos de interação entre as duas espécies.
O peixe-boi-da-Amazônia, entretanto, permanecia presente na região e ainda integrava a alimentação de algumas comunidades. Sua captura não era apenas pesca: envolvia arpão, esforço, peso e partilha. A carne alimentava, mas os relatos não apagam a proibição nem transformam a caça em gesto simples. Registram a dependência alimentar encontrada no caminho.
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Nos lagos de Piratuba havia peixe-boi, mas o pirarucu era a presença mais visível. No Sucuriju, a gurijuba tinha valor para a pesca, e a sua bexiga natatória, conhecida como grude, alimentava uma atividade econômica. Também se viam fábricas de açaí e a exploração do palmito, produto delicado e caro, distante do alcance cotidiano de grande parte da população.
Parte da equipe avançou ainda mais, mas não encontrou o peixe-boi-marinho, apenas notícias de ocorrências. A viagem, iniciada para localizar uma espécie, revelou também a escassez de avistamentos durante o percurso. Cada trecho percorrido sem ocorrência registrada tinha uma dimensão ecológica e biológica; cada criança que desconhecia o animal indicava outra perda, feita de silêncio e esquecimento.
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IGARAKUÊ deixou de ser apenas um nome: tornou-se uma forma de olhar o litoral com cuidado. Entre o peixe-boi-marinho e o peixe-boi-da-Amazônia, entre a Barra de Mamanguape e a foz do Rio Amazonas, no Amapá, ficou a lição afetiva de um animal sutil e silencioso, cuja permanência depende também daquilo que escolhemos não destruir.


















