Para o meu filho Daniel e minha nora, Bruna Já em São Paulo, a perplexidade foi em visitar a Cidade Matarazzo. Um megacomplexo de luxo...

São Paulo das Artes

sao paulo matarazzo pinakotheke arte exposição luxo
Para o meu filho Daniel e minha nora, Bruna
Já em São Paulo, a perplexidade foi em visitar a Cidade Matarazzo. Um megacomplexo de luxo (mas aberto ao público gratuitamente), localizado na região central da cidade. O projeto, idealizado pelo francês Alexandre Allard, está posicionado no meio de três hectares de Mata Atlântica, em um terreno de mais de 30 mil metros quadrados, onde ficava o antigo Hospital Matarazzo, a 200 metros da Avenida Paulista.

Além do Hospital, outros edifícios históricos, como a Maternidade Condessa Filomena Matarazzo (1943) e a Capela Santa Luzia (1922), também foram restaurados. Fiquei zonza de ver tanta coisa linda: jardins exuberantes, exposições de arte várias, em especial a
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Maternidade Matarazzo, parte do antigo Complexo do Hospital Matarazzo, idealizado no início do século XX por Francesco Matarazzo, célebre imigrante italiano ▪️ Instagram: @nutriflabuschgorz
com as suas linhas, cogumelos gigantes, “Somos um único fio”, de Sandra Anselmi; lojas-conceito; gastronomia distribuída em inúmeros ambientes distintos; o restaurante novo da Bela Gil, Preta Maria; fileiras de stands vendendo chás, biscoitos, geleias e outros quitutes. E muita gente diversa circulando. Um tiramisu de sobremesa que jamais esquecerei. Pelas paredes? Fotos antigas, pratos pregados no teto, madeira de demolição, cores sépia, os presuntos pendurados, os lustres, as luzes, as velas, o Hotel Rosewood. Um destaque para a instalação “Infinite Library, Biblioteca Infinita”, um labirinto de espelhos, um diálogo imperceptível entre um pergaminho e outro. Uma outra intitulada “Come Home Again, Voltar para Casa”. E mais uma: “Sou o outro do outro”. Perdi-me nos novelos, nos livros, nos espelhos e nos meus outros, literalmente.

A Pinakotheke, esse espaço recém-inaugurado com a exposição “Surrealismos – Arte para além da razão”. Com frases de Leonora Carrington, cartas de amor entre Duchamp e Maria Martins; os trabalhos de Magritte, Picasso, Escher e suas metamorfoses, Athos Bulcão, Salvador Dalí, Cícero Dias, Tunga, Louise Bourgeois e a sua anatomia do inconsciente. Tudo permeado pelo filme de Buñuel, O cão andaluz.

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Ana Adelaide com suas irmãs Claude e Bebé Peixoto, seu filho Daniel e a nora Bruna Diniz em giro recente por São Paulo (agosto, 2026) ▪️ Acervo da autora
Mas e o Centro de São Paulo? Já fui outras vezes, mas agora estava com as minhas irmãs para bater perna pela Galeria Metrópole, um dos polos criativos de arte colaborativa e gastronômicos mais dinâmicos de SP. A nos perder de vista pela loja Paiol, onde se encontra o Brasil Bonito; uma sorveteria nordestina artesanal; a Casa Jardim Secreto, uma loja colaborativa, com livros e brincos – “mais do que um lugar para comprar, é um convite ao encantamento. VISITE com tempo. VALORIZE o feito à mão. CULTIVE sonhos”; a livraria Megafauna e o Café Cuia (me apresentado pelo meu cunhado querido Murilo – In Memoriam); o restaurante vietnamita ⏤ Bánh Mì Vietnam ⏤ para lamber os beiços com os perfumes do nosso coentro e admirar o convite do lugar – EnCoentre-se. A língua ficou queimando pelas pimentas ardidas, mas as paredes, com pôsteres desse país, misturaram a ardência com o perfume das comidas.

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Ana Adelaide Peixoto com seu filho Daniel e a nora Bruna Diniz, na Pinacoteca paulistana (São Paulo, agosto 2026) ▪️ Acervo da autora
Passear pela Feira da Benedito Calixto no sábado, almoçar no Faça Homus não a guerra; jantar no Moma, em Pinheiros; tomar um café sábado à tarde na Livraria Bilra, gente com criança, idosos, cachorro, um pôster de Mrs. Dalloway, livros e croissants. Gente descolada tomando café com caramelo. Limpei a vista, como aqui se dizia antigamente.

Um filme no Reserva Cultural – Uma infância em Berlim; uma passeada na Av. Paulista no domingo e todo o fuzuê dos patins, patinetes, danças, barracas. Viajar nessa memória de saudades infinitas. Sem falar de Rita Lee, que está em Sampa, e Caetano, que a traduziu.

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A Caipirinha, pintado por Tarsila do Amaral em 1923. Reprodução tridimensional e interativa exposta na mostra O Brasil de Tarsila, em exibição no espaço Nubank Arte Lab, no Conjunto Nacional, na Av. Paulista ▪️ Acervo da autora
Mas um dos pontos mais altos foi realmente a exposição “O Brasil de Tarsila”, com cores, cheiros e formas das obras dessa artista singular. Uma mostra imersiva no Conjunto Nacional (saudades da Livraria Cultura), transformando quadros da modernista em versões para o público interagir. O visitante pode se sentir dentro das florestas pintadas por Tarsila, viajar de Minas a Paris e caminhar ao lado do Abaporu. A exposição tem a curadoria da sua sobrinha-bisneta Paola do Amaral e Juliana Miraldi, onde tantos recursos encantadores são usados: animação digital, projeções, espelhos e ilusionismos, esculturas que dão efeitos tridimensionais e passeios com o boneco Abaporu, que, junto com o sapo, nos leva por cenários de obras que marcaram a era antropofágica da arte paulista.

Ir a São Paulo, para mim, é e sempre será um passeio pelas minhas lembranças lindas e doídas do meu companheiro Juca, em SP; eu o reencontrei em 1982 e me despedi em 2013. Como também de meu cunhado Murilo, que me hospedava nessa cidade e me apresentava coisas lindas e cults e que só com ele eu tive oportunidade de conhecer, como almoçar no Terraço Itália; visitar a fábrica de chocolate Dengo, em Pinheiros; a Livraria Gato sem Rabo, produção literária de mulheres; e/ou dançar ao som de Buena Vista Social Club, no Bourbon.

Encerro a viagem com Marguerite Duras, na vitrine de uma das inúmeras livrarias a que fomos: “Um escritor é algo curioso. É uma contradição e também um absurdo. Escrever é também não falar. É se calar. É berrar sem fazer ruído”.

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