Apesar de encravada numa garganta de serras do meu mundo particular, num dos vales mais profundos ou mais misteriosos da minha paisagem infantil, vivi, já velho, o estouro da barragem do Camará, esquivando-me por aqui, sem correr atrás, salvo para abraçar os familiares no estrago que o rio fez na Rua do Tacho, em Alagoa Grande, onde sobrevivia um querido tio gago de 96 anos. A torrente grossa levou-lhe a calçada.
Tragédia de Camará, em consequência do rompimento da barragem de Camará, na noite de 17/06/2004, no Brejo paraibano ▪️ Fonte: Câmara dos Deputados
Mas terminou o cadáver da barragem reaparecendo. E fui vê-lo ressuscitado, o paredão imenso, escarpado em degraus, intrometido entre serras que venceram o primeiro desafio do homem.
Reconstrução da Barragem de Camará, no governo Ricardo Coutinho ▪️ Instagram: @paraibaagoraoficial
A primeira (e mais importante, do meu ponto de vista), a reedição atualizada do Espaço Cultural, com ganhos para o teatro, o cinema Banguê, o Museu José Lins e a Biblioteca Juarez Batista.
A segunda, e que deu mais na vista, foi a conclusão do Centro de Convenções, obra de três períodos de governo, respeitada e concluída na gestão do executivo político de
Centro de Convenções da Paraíba, idealizado e projetado no governo Cássio Cunha Lima, licitado e iniciado no governo José Maranhão, executado e inaugurado no governo Ricardo Coutinho ▪️ Foto: Matheus Jampa da Silva
Precisa dizer que desci com muito cuidado a aba de serra onde algumas vezes o fiz desembestado nas excursões de menino da Cruzada. Do outro lado ficava o engenho Cipó, do irmão do padre, o Cipó de João Borges, onde fazíamos os nossos piqueniques. Falavam em 600 metros de altura, de onde avistávamos alguns pontos de cal de Areia e Alagoa Grande. O rio, que mal se via, corria apertado, enramado, lá embaixo, sobrando alguma coisa longe, nas curvas de serra, para beirar o barracão e a bagaceira do Vitória, nossa engenhoca de então, nascida das mãos operosas de Manuel Avelino Rodrigues, restando dele apenas uns restos de casa-grande, sem mais telhado, que não era lá essas coisas como o caboclo menino imaginava.
E, com o sol muito quente, respirando curto, ainda tentei apertar a mão do então governador, mas o palanque, levantado entre escadarias que levavam ao outro lado da barragem, não me animou. Enfadado, terminei deixado no Bar de Joana, bar que era mais café, com um garrafão da cachaça destilada pacientemente do alambique de barro do finado Celestino Paulo. Mas Joana não existe mais, nem o néctar que ela conservava arrolhado debaixo do balcão, longe dos olhos e do apetite dos fiscais da mesa de renda vizinha.
Publicado hoje, 06/09/26, no jornal A União








