O Cenário
Santana, um bairro na Zona Norte de São José dos Campos. Foi onde ocorreu o fato que vou relatar. Comecemos por minha casa. Ficava na Av. Princesa Isabel, 1610. Vamos agora à barbearia do senhor Cincinato, que já ficava um pouquinho mais ao norte. De casa até lá, não mais que 1,5 km. Localizada na Monteiro Lobato, rua que desembocava na Paróquia de Sant’Ana, atravessando a Rui Barbosa, essa, a via principal que conectava o centro da cidade à Ponte Velha do Rio Paraíba.GD'Art
Os Personagens
Comecemos por ele, Cincinato, o barbeiro. Parecia muito com Jânio Quadros, mas o detestava. Gostava mesmo era de Juscelino Kubitschek, de quem era fã de carteirinha. Tinha na barbearia um quadro exibindo uma carta escrita de próprio punho pelo presidente-sorriso, a ele, Cincinato, devidamente endereçada e com firma reconhecida para que ninguém duvidasse da autenticidade daquela missiva. Era um proseador incansável e colava à sua fala todo um gestual. Se fosse contar acerca de um telefonema, imitava a discagem, o atendimento etc., etc. Outro desta trama era eu, na envergadura dos meus 10 anos e, por fim, Luiz Carlos — o Cacau —, meu irmão, que à época estava nos 6.
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Os Cortes de Cabelo
Estamos falando do final da década de 1950. O primeiro corte era um tal de “escovinha”, o do Cascão, o do Ronaldo Fenômeno na Copa de 2002. Lembram-se? Um horror. Fui submetido a essa tortura algumas vezes, mas Jesus deve ter tido um particular nos ouvidos dos meus pais e eles pararam com isso.
O segundo era o “americano”, o do soldado raso. A parte lateral do cocuruto era a zero e a parte de cima, bem curtinha. Já o “meia cabeleira”, que se usa muito hoje, embaixo a zero também e, à medida que se vai subindo, vai-se deixando aos poucos os fiapos aparecerem e, em cima, a cabeleira com pelo menos a largura de um dedo. Por fim, o “cheio”, que, para ilustrar, era o que Gregory Peck, o bonitão da época, usava na telona daqueles anos distantes.
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A Recomendação
Minha mãe achou que estava na hora de darmos um jeito na aparência. “Estão parecendo um Zé Ninguém.” Nunca eu soube o que ou quem seria um Zé Ninguém. Mandou que fôssemos ao Cincinato e que depois meu pai iria lá para acertar as contas (eram amigos). Deviam ser umas três da tarde quando demos a partida. Mas antes determinou: “Corte americano, viu? Nada de meia cabeleira.” Ela não entendia, mas eu achava que meia cabeleira era um carimbo de masculinidade.
O Combinado
No caminho, fiz uma proposta ao Cacau: “Vamos raspar a cabeça?” Cacau pensou, pensou... “A mãe não vai brigar?” Argumentei que não haveria motivos para reprimendas; afinal, ela GD'Art
O Fato
O salão estava assim de gente. Quando chegou nossa vez, já escurecia. Cacau foi o primeiro. Sentou-se naquela cadeira “Ferrante” e Cincinato, acostumado conosco, quis confirmar: “Americano?”. Mas Cacau, resoluto, empinou seu dedinho indicador bem nas ventas do barbeiro e ordenou: “Pode raspar!”
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— Nãããããooo! Cê combinou! — foi um grito de indignação de Cacau. Era um garotinho de atitude e pegou o beco sozinho a caminho de casa.
Como demorávamos, meu pai foi nos buscar. No caminho, nem reconheceu aquele carequinha que vinha em sentido contrário, até que ouviu:
— Paiê!
Levei uma dura danada. Homem tem que ter palavra, o que está combinado deve-se cumprir, foi o que me recomendaram. Não passou disso. Cacau ficou na bronca, ganhou uma boina e a enterrava na cabeça sem nenhuma elegância. Ele já partiu para aquela viagem fora do combinado. Nunca eu soube se ele me perdoou.










