Uma crônica que sonha ser (um) conto
Os primeiros sussurros do mangue já se ouviam nas margens dos pequenos afluentes do Rio Sanhauá. O borbulhar da lama, os primeiros deslocamentos dos seres do manguezal, que se agitam aos primeiros raios de sol, faziam-se presentes, como em todo amanhecer. O movimento lento das marés, a embalar os cascos vazios das canoas. E os ventos leves a espalhar pelo ar os ecos de todos os sons que se faziam ouvir baixinho pelos moradores das casas mais próximas do rio. E assim mais um dia amanhecia na pequena comunidade junto ao rústico porto.
O sol, com suas variações de ângulo, já fazia refletir sobre as águas os traços da vegetação rasteira do mangue. No pequeno porto, os pescadores iniciavam a preparação de suas canoas, com seus instrumentos de trabalho. Cordas de sisal para amarrar os crustáceos. A lata de carvão, o boi de fogo, para acender a fumaça e espantar os maruins, os mosquitos tenebrosos que fazem doer e deixam marcas na pele. Um pequeno vidro com óleo para usar na proteção do corpo contra as muriçocas. As botas leves de sola de couro fino, numa peça única maleável com cadarços de couro, usadas no movimento de afundar os pés, socando a lama para tapar os buracos de caranguejos, protegendo, então, os pés dos pescadores mais sensíveis dos tocos pontiagudos que surgem no lamaçal. Esse era um luxo para alguns pescadores. Muitos não usavam nenhuma proteção para os pés. Quando a maré começa a subir no mangue, pressionando os caranguejos para cima, os pescadores passam a se introduzir nos buracos, nas tocas dos caranguejos.
Seus braços e mãos afundando-se no lamaçal, no exercício de recolher os crustáceos e posteriormente amarrá-los, empilhados nas cordas de sisal.
João gosta de trabalhar só na sua canoa. Ele se sente um pouco fora dos trilhos da vida que canaliza todos os membros da pobre vila de pescadores em que vive. Muitos já trabalhavam na construção civil, mas ele não iria partir para isso. Gostava da liberdade do trabalho com os caranguejos.
Não ficava submetido a um patrão, apesar das dificuldades naturais dessa labuta e também de estar submetido a negociações com os atravessadores.
Ele sempre via os outros como um espelho de reflexão para conduzir suas ações. Observava os outros pescadores a encher a cara de cachaça no término de suas jornadas, depois de negociarem suas cordas de caranguejos com os atravessadores que, posteriormente, repassavam os crustáceos para as oficinas de extração da carne, algumas na própria comunidade, onde as mulheres e crianças, normalmente seus filhos, trabalhavam na extração para ajudar a aumentar um pouco a renda familiar. Outros atravessadores revendiam nas feiras ou diretamente para os bares e restaurantes.
João cansou de ver os pescadores, depois da cachaça diária nos bares da região, voltarem para casa caindo de bêbados. Alguns ficavam mais quietos; outros, bêbados, tornavam-se agressivos. Quando chegavam em casa, batiam na mulher ou nos filhos, sem motivo algum.
Vendo tudo isso, ele começou a se aproximar da igreja dos evangélicos, a Assembleia de Deus, instalada na comunidade. O pastor pregava a necessidade de todos se afastarem das bebidas alcoólicas. Era um fato que, assim, as coisas pareciam ficar melhores. Além da sobriedade, sem ressacas das cachaças, o dinheiro parecia render mais, mesmo passando um pouco para a igreja. A bebedeira sempre gerava um gasto a mais. Ele também começou a perceber falhas nas falas da Igreja Católica. Parecia haver uma discriminação entre ricos e pobres. Um dia, o padre falou que os pobres vinham muito maltrapilhos trazer os filhos para se batizarem. Os ricos, não. Os vestidinhos das crianças pareciam, além de limpos, trazer até as estrelas do céu. Achou muito errada essa fala do padre. Não estava certo, não. Ele tinha ido também, certa vez, até a uma sessão de umbanda para ver como era. Chegando lá, viu que estavam rezando terço de malho. Onde já se viu!
Aí ficou sem entender mais nada das religiões. Era tudo misturado. Mas o que mais intrigava João eram as histórias que o povo contava sobre o Batatão, o Pai do Mangue. Pelo que o povo dizia, o Batatão se mostrava de várias formas: um fogo que acendia de repente no meio dos arbustos do manguezal; uma desorientação de alguém que ouviu ruídos estranhos, inexplicáveis, e foi, então, xingar nomes feios, revoltando-se. E, depois disso, não conseguia sair do mangue. Ficava lá perdido por horas, dentro de um labirinto que a tontura na cabeça gerou. Ele nunca viu nada disso. Achava que eram, todas essas, crendices da imaginação do povo.
Viu também, numa notícia de jornal, sobre uma “Mãe do Mangue”, uma espécie de espírito feminino, lá para os lados dos rios do Norte do país. A história contada era de um caçador que se perdeu na mata que margeava o rio.
Ficou muito tempo perdido no matagal. Só ouvia uns assobios estridentes, com voz parecida com a de mulher. Rodou horas e não encontrava o caminho de volta. Achou que não ia voltar. A cabeça rodopiava ao som de uivos finos, agudíssimos. O que salvou o caçador foi ter encontrado uma família protestante na mata, depois de rezar muito. Mas essas coisas não o impressionavam muito. No entanto, essa notícia sobre a Mãe do Mangue abalou um pouco as ideias de João. Por aqui, todo mundo só falava no Pai do Mangue. Nunca apareceu essa versão feminina da Mãe do Mangue. O mais próximo dessa ideia era uma tal Cumadê Florzinha, que tinha o poder de atazanar o juízo dos homens. Pelo que contavam dela, era uma espécie de sereia dos matos, mas não era dos mangues. Quem sabe era um tipo de prima do Batatão na imaginação do povo.
O dia era como todos os outros para João quando saiu com sua canoa. João encostou a canoa na beira dos arbustos baixos e emaranhados do mangue. Desceu com seus apetrechos: o boi de fogo, uma lata de tinta velha, já com alguns arbustos secos para facilitar o fogo que geraria a fumaça para espantar os maruins, junto com um vidro pequeno de querosene e fósforos num saco plástico; cordas finas de sisal para amarrar os caranguejos; uma vara para apoiar os dois molhos de crustáceos, equilibrados nos ombros; um facão para proteção, além da bota de couro fino para proteção dos pés, que já estavam um pouco machucados por ter pisado em tocos da última vez que entrou no lamaçal para a captura dos caranguejos.
Fez uma pequena cama de arbustos para deixar alguns apetrechos num local onde poderia ajeitar melhor as cordas de caranguejos. Deixou preparada a fumaça no boi de fogo, para facilitar a localização. E seguiu tapando todos os buracos das tocas dos crustáceos. Ia socando os pés, afundando as pernas na lama. Foi percorrendo uma extensão cada vez maior da área do mangue. A maré já começava a subir, pressionando os caranguejos a sair das tocas. Ele trabalhava o mais rápido que podia.
Enfiava os braços nos buracos tapados, agarrando com as mãos os crustáceos e, em seguida, amarrando-os nas cordas finas, uns sobre os outros. Já tinha juntado muitas cordas quando, de repente, começou a se sentir meio tonto, com dor de cabeça, depois de topar com um arbusto pontudo que machucou um pouco seu pé direito. Ficou com raiva e fez um xingamento.
Chegou a pensar que tinha trabalhado muito rápido. Já tinha caranguejos suficientes. Decidiu voltar ao local onde deixara o boi de fogo. Olhava os arbustos um pouco assustado, pois começou a ouvir barulhos de tocos de árvores caindo. A tontura invadia cada vez mais sua cabeça. A paisagem do mangue parecia ter vida. Escutava choros e gritos longínquos. Desesperou-se, pois não conseguia avistar os sinais de fumaça. E tudo parecia girar na sua mente e nas suas visões... Resolveu gritar para ver se havia outros pescadores pela redondeza. E se assustou ainda mais porque a vegetação do mangue parecia um eco, a gritar em coro tremeluzente. Pareciam vozes de pessoas. Será que estava mesmo perdendo o juízo? E ficava tudo mais escuro. Será que o sol tinha se posto? Uns clarões, feito labaredas de fogo, surgiam, aumentando sua perturbação. Mas não eram exatamente como o elemento fogo das velas e fogueiras. Eram labaredas diferentes, sem se parecer com os fogos reais de velas ou de fogueiras. Eram mais transparentes, de uma outra materialidade, mais etéreas e fluidas, e surgiam em vários fragmentos, muito rapidamente. E depois desapareciam, surgindo novamente ao seu redor. Parecia que um círculo de luzes piscava em torno dele. Cada vez mais se desesperava.
Mas algo dentro dele se apaziguou um pouco. Imaginou, dentro da sua escuridão, na sua mente, que acendia a chama de uma vela. Concentrou-se, respirou fundo e rezou para seu anjo protetor — sabia que tinha um. Vez por outra, suplicava por proteção a ele. “Meu santo anjo do Senhor, meu zeloso guardador, sempre me rege e me ilumine...”
Foi conseguindo ir se mexendo, saindo aos poucos da paralisia em que se encontrava. Foi se arrastando, segurando as cordas na vara, rezando o tempo todo por proteção. Acalmou-se mais e mais. Avistou, depois de um tempo, os resquícios da fumaça no canto da cama de arbustos, junto com o boi de fogo. Organizou melhor as cordas de caranguejos na vara. Juntou tudo e partiu para a canoa, que estava perto. Tinha um pouco de óleo de cozinha no barco. Esfregou por todo o corpo, nas pernas, nos braços e no rosto, pois os maruins já picavam ferozmente sua pele. Já remando de volta, deu-se conta de que o sol já tinha se posto. Perdeu totalmente a noção do tempo que passou no mangue. Já deveria estar no pequeno porto havia muito tempo. Mesmo com poucos atravessadores na margem do trapiche, ficou feliz em avistar as luzes do pequeno povoado. E, sim, não tinha mais dúvidas: ele havia encontrado finalmente os pantins do Batatão. Foi muito perturbador. Ele sempre se orientava no seu dia a dia por um certo bom senso das coisas. E, depois dessa experiência, tudo ficou confuso. Será que deveria, pensou, conversar com o pastor sobre esse acontecido? Talvez não valesse a pena.
O pastor vai, com certeza, dizer que isso que viveu era coisa do diabo, do coisa-ruim, falar de possessões de espíritos do mal e tudo mais que já presenciou nas sessões da Assembleia de Deus. Mas de uma coisa ele tinha certeza: a natureza tinha seus mistérios, suas energias vivas, inexplicáveis ainda para ele. Existiam mesmo certos fortes poderes que vinham da natureza.
Talvez um dia ele viesse a compreender esses mistérios. Ele ia escutar com mais atenção os relatos e as explicações do povo da comunidade. Quem sabe até existissem livros que falassem desses fenômenos. Algo se transformou dentro dele. Um mundo novo se abriu para ele, para os mistérios, para as fantasias e para os fantasmas também.
Do livro Armário de Memórias, crônicas de sonhos e de desassossegos, disponível na Livraria do Luiz
