QUERIA
Queria escrever poesia Mas não posso Estou entregue aos fatos à razão ao rumor dos acontecimentos Queria o verbo sem condicional Mas não posso As palavras passam fluidas escorrem entre os dedos minhas mãos não as alcançam Voltam para o coração Queria o querer sem queria Mas não posso Há pressa Há prazo Há um compasso duro marcado pelo tempo presta atenção. Queria Ah, como queria A poesia largou-se de mim Cumpro regras atravesso horas domestico impulsos sufoco a emoção Há medo até no bem-dizer Alguma coisa ronda as palavras mede o gesto vigia a frase estreita o espaço onde antes havia voz Há sombras no caminho da linguagem Então me recolho ao centro do ovo onde a vida ainda germina sob a casca branca e fina. Ali no escuro quente alguma coisa pulsa Uma prece Uma centelha. Uma fé pequena e obstinada apontando direção no desatino do mundo em turbilhão Queria escrever poesia Mas não posso Há sol atrás das nuvens escuras Sei que há Mas já quase não ouço os pássaros Pisaram as flores as manadas sem rédeas sem rumo sem direção Há um grito mudo no ar Há orações nos lábios das mães dos pais Há crianças aprendendo cedo demais o gosto da desesperança. Há fome de amor no prédio que toca o céu e na favela que deságua na lama E eu queria — queria o claro vencendo a treva as cores livres ocupando o espaço o humano de um abraço a leveza de um traço a boa semente da verdade Queria a paz vibrando agora no coração da humanidade Queria Mas diante de mim ergue-se o espetáculo Homens inflamados vozes em excesso gestos que se exibem como se tamanho fosse verdade O poder embriaga A aparência convence A palavra veste a palavra e já não sabemos o que nela permanece vivo O que me assusta não é somente o que vejo É o que virá As jaulas parecem abertas Há feras no picadeiro há leões sem domador há ira transmitida em tempo real E o povo assiste Às vezes ri Como criança órfã que recebe um pirulito e por instantes esquece a fome Também rio Uma risada curta nervosa Mas o circo não é imaginário Procuro nas palavras algum perfume de rosa algum sinal de lucidez uma voz capaz de lembrar que acima do poder existe o humano Queria Mas já não quero o verbo no condicional Quero Quero acreditar no que existe depois da curva. Quero seguir em paz o meu caminho Quero preservar o espanto Quero ainda reconhecer uma flor quando ela nascer entre os escombros Quero a palavra inteira Quero a voz Quero a poesia E talvez seja isto o que ela sempre foi: não a ausência do medo mas a palavra que atravessa o medo e permanece
Queria escrever poesia Mas não posso Estou entregue aos fatos à razão ao rumor dos acontecimentos Queria o verbo sem condicional Mas não posso As palavras passam fluidas escorrem entre os dedos minhas mãos não as alcançam Voltam para o coração Queria o querer sem queria Mas não posso Há pressa Há prazo Há um compasso duro marcado pelo tempo presta atenção. Queria Ah, como queria A poesia largou-se de mim Cumpro regras atravesso horas domestico impulsos sufoco a emoção Há medo até no bem-dizer Alguma coisa ronda as palavras mede o gesto vigia a frase estreita o espaço onde antes havia voz Há sombras no caminho da linguagem Então me recolho ao centro do ovo onde a vida ainda germina sob a casca branca e fina. Ali no escuro quente alguma coisa pulsa Uma prece Uma centelha. Uma fé pequena e obstinada apontando direção no desatino do mundo em turbilhão Queria escrever poesia Mas não posso Há sol atrás das nuvens escuras Sei que há Mas já quase não ouço os pássaros Pisaram as flores as manadas sem rédeas sem rumo sem direção Há um grito mudo no ar Há orações nos lábios das mães dos pais Há crianças aprendendo cedo demais o gosto da desesperança. Há fome de amor no prédio que toca o céu e na favela que deságua na lama E eu queria — queria o claro vencendo a treva as cores livres ocupando o espaço o humano de um abraço a leveza de um traço a boa semente da verdade Queria a paz vibrando agora no coração da humanidade Queria Mas diante de mim ergue-se o espetáculo Homens inflamados vozes em excesso gestos que se exibem como se tamanho fosse verdade O poder embriaga A aparência convence A palavra veste a palavra e já não sabemos o que nela permanece vivo O que me assusta não é somente o que vejo É o que virá As jaulas parecem abertas Há feras no picadeiro há leões sem domador há ira transmitida em tempo real E o povo assiste Às vezes ri Como criança órfã que recebe um pirulito e por instantes esquece a fome Também rio Uma risada curta nervosa Mas o circo não é imaginário Procuro nas palavras algum perfume de rosa algum sinal de lucidez uma voz capaz de lembrar que acima do poder existe o humano Queria Mas já não quero o verbo no condicional Quero Quero acreditar no que existe depois da curva. Quero seguir em paz o meu caminho Quero preservar o espanto Quero ainda reconhecer uma flor quando ela nascer entre os escombros Quero a palavra inteira Quero a voz Quero a poesia E talvez seja isto o que ela sempre foi: não a ausência do medo mas a palavra que atravessa o medo e permanece






