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Todo dia 06 de janeiro é costume de italianos e alguns descendentes comemorarem o Dia da Befana. Aqui na Paraíba, em João Pessoa, de...
La Befana
Desde quando Chico Pereira fez sua passagem ao mundo desconhecido, busco na memória uma lembrança dos encontros, uma frase, um gest...
E agora, sem Chico
Não quero ter dele a derradeira imagem retida do ataúde, mas o Chico Pereira das conversas cheias de ensinamentos,
Quero falar de Chico Pereira que conheci nos anos de 1980, época em que raspava no tacho da memória minhas crônicas e poemas escritos em momentos de saudade e pousava, acanhado, pelos recantos da cidade, respirando cultura.
Nos anos de 1970, com retardo, depois de pitigorar a Biblioteca Pública, apinhada de livros, visitar exposições de pinturas e escutar conversas nas rodas de cultura, conheci Chico Pereira. Com a calma que lhe era característica, ele apontava caminhos construídos pelas artes e pela palavra. Como sempre fui de observar e escutar conversas mais do que arriscar pitacos, nesses encontros recolhia o sentido da arte como alimento espiritual.
Sabia observar com atenção uma obra de arte, penetrar no mundo dos livros, escutar uma música — música genuína, clássica, armorial, por exemplo — ou contemplar uma pintura. Muito nos ensinou a olhar o mundo com os olhos da alma.
Homem de bom coração, pacífico, não tinha gênio azucrinado. Sempre apontou caminhos para a contemplação da arte como forma de transformação. Tinha fina sensibilidade, calmo ao extremo, nunca pronunciou palavras ásperas.
Chico provou, com seu trabalho de artista, que "a arte é uma confissão de que a vida não basta", segundo Fernando Pessoa. A beleza real está no que observamos para além do que os olhos veem. "O essencial é invisível aos olhos", escreveu Saint-Exupéry.
Chico sempre observava os lugares com um olhar diferente, captava o equilíbrio da vida urbana, mesmo que a natureza rural ganhasse destaque em sua obra. Na natureza está o estrato da poesia, que ele soube observar e extrair com afinação.
Deixou o registro de sua marca cultural, eternizou a vida pela arte. Explicava tudo com a calma de quem se deixa embriagar pela suavidade das artes. O silêncio das artes era a seiva que mantinha Chico em movimento. Foi assim
As palavras de seus filhos, por ocasião da despedida na Academia Paraibana de Letras, deram a dimensão de quanto era amado. Os gestos e as palavras de afeto emocionaram profundamente, fazendo do momento uma louvação à memória de quem cultivou as sementes da arte e do amor. Sentimos como se ele estivesse sendo conduzido pelas asas de anjos imaginários, entre cânticos de louvor e incenso perfumado.
Durante atuação na missão diaconal, procedi com diversas encomendações de corpos, mas nunca presenciei a despedida definitiva de uma pessoa com tamanha e intensa vibração de paz.
Como sempre, na última saudação ao falecido, fazemos sua encomendação a Deus, pois os ritos das Exéquias exprimem o caráter pascal da morte cristã, na perspectiva de consolo dos familiares em face da perda (2 Cor 5,5). Os cantos e orações dão esse sentido de acolhida na eternidade.
A amizade é por excelência um sentimento desinteressado. Nela não interferem o sexo nem a cumplicidade. Queremos um amigo pelo prazer...
Sobre a amizade
A casa não é mais minha , mas a esquina sim. Não a esquina de concreto e calçada, mas aquela feita de tempo e memória, que se ergue no ...
Esquinas da alma
Tudo começa no ponto exato onde o poste da luz, um pouco mais inclinado agora, desenha sua sombra alongada ao entardecer. Era ali que minha mãe esperava as tardes, com o cheiro de
O ensaio original que define os dois conceitos de liberdade do filósofo russo Isaiah Berlin (1909–1997), intitulado Esperança e Medo , ...
Medo, esperança e liberdade
Precisava chegar cedo ao aeroporto para participar de uma feira literária. Em vez de aplicativo ou qualquer outro meio de locomoção, p...
Arquitetura do tempo
Hoje, sentado ao lado dele, percebi como algumas coisas mudam. A cidade já não é a mesma — prédios recentes, casas modernas, mansões luxuosas, jardins de grama rasteira se espalhando. Foi então que um condomínio chamou a atenção do meu pai.
⏤ Olhe isso, rapaz... — disse ele, levantando levemente os óculos. — Essas casas são todas iguais. Parece fabricação em série. Mais parecem clínicas ou armazéns que moradias.
⏤ Realmente, como mudou a estrutura das novas casas — respondi. — Antigamente cada moradia tinha seu jeito. Lembra?
Ele viajou no tempo, sem tirar os olhos da pista.
⏤ Lembro demais. Antes, as casas tinham mais personalidade, mais identidade. Eram construídas de acordo com a cultura local, com o clima e com os materiais disponíveis. No Sul, por exemplo, casas de madeira, com telhados inclinados, preparadas para o frio. No Nordeste, paredes firmes, janelas amplas e arejadas, feitas para aliviar o calor. No Sudeste, os prédios e arranha-céus acompanhando o ritmo das metrópoles. Sem contar a decoração interna, que revelava, nos quadros e nas estantes, a história de cada famíla.
Meu pai deu um riso curto, meio irônico, meio saudoso.
Enquanto antes observávamos eiras, beirais, grades e paredes que imprimiam estilo, arte e cultura, hoje tudo parece ser tudo padronizado. As fachadas têm excesso de vidraças e pouca identidade.
Por alguns segundos ficamos em silêncio — aquele estranhamento dúbio de quem vê o mundo mudar numa velocidade que não pediu licença. Era como folheássemos um álbum de memórias arquitetônicas enquanto avançávamos pela cidade.
⏤ Talvez seja isso mesmo — falei, quebrando o silêncio. — O novo chega meio desconfortável. A gente estranha, compara, sente falta do que tinha. Mas, com o tempo, vai aceitando... E quem sabe, contribui de uma melhor forma a nossa nova realidade:
Ele assentiu, apertando o volante como quem segura uma lembrança antiga.
⏤ Certo, errado, bonito, feio… A vida segue, meu filho. Elis Regina já cantava: “O novo sempre vem.”
Pouco depois chegamos ao aeroporto. Desci com a mala na mão, e ele seguiu para o trabalho e para a cidade.
Já no local, o evento literário aconteceu justamente num prédio antigo, restaurado — daquelas joias que resistem ao tempo, como as de Ouro Preto. Ali, entre paredes que guardam passado, entendi: o novo chega, sim… mas o velho, quando bem cuidado, permanece como chão para que a mudança tenha onde pisar.
Quanta coisa a se dizer sobre Brigitte Bardot, um dos ícones do século XX, assim como foram Greta Garbo, Chaplin, os Beatles,...
Brigitte
Delicado também tornou-se considerar Brigitte um símbolo sexual, assim como Marilyn, Sophia Loren e outras mais. Que ela foi, foi, todos sabemos, mas é lícito proclamá-lo, sem ferir suscetibilidades contemporâneas? Para muitos, hoje em dia, alguém ser tido como símbolo sexual virou defeito.
Brigitte morreu aos 91 anos e encerrou sua fulgurante carreira de atriz aos 39, no apogeu da beleza. Isso diz muito sobre ela. Que poderia perfeitamente ter prolongado por pelo menos mais três décadas sua atuação nas telas, colhendo os frutos do sucesso, inclusive os financeiros, determinantes para tanta gente. Catherine Deneuve e Jane Fonda por exemplo, estão aí, em plena
Novinha, virou estrela mundial, sem muita consciência do que representava para muitos. Vá lá que foi, desde o começo, um sex symbol, o que foi inevitável pelas cenas de nudez que protagonizou, numa época em que tudo isso era novidade. Mas também foi mais que isso: foi a profetiza da vanguarda comportamental que os anos 1960 iriam estabelecer na sociedade ocidental. Não é pouca coisa, convenhamos. De repente, uma jovem e bela atriz aparece nas telas do mundo inteiro como Deus a fizera, nuinha, nuinha, um alumbramento, como diria Manuel Bandeira à vista de sua primeira mulher nua. E com a simples e corajosa nudez mostrou que tudo era possível, tudo era natural, libertando as mulheres – e os homens – de tanta repressão e de tanto atraso.
A estreia de Brigitte no cinema se deu em 1952, mas o seu grande sucesso inicial é de 1956, com “E Deus criou a mulher”. Parecia mesmo que o Criador tinha feito uma mulher nova a partir da lourinha Bardot, tão revolucionária ela parecia – e era. Quando maio de 1968 chegou em Paris e daí espalhou-se pelo mundo, como uma ventania renovadora, o terreno já vinha sendo preparado para recebê-lo há pelo menos dez anos por aquela lourinha com cara de anjo e corpo e modos de mulher.
Não sei avaliá-la como atriz. Isso fica para os críticos. Talvez ela não tenha sido uma Meryl Streep ou uma Emma Thompson. Mas que importa? Ela foi o que foi, o
Seu rosto na velhice revelava que não recorrera às plásticas, uma prova de caráter e de personalidade. Deixou que o tempo fizesse livremente o seu trabalho de “escultor de ruínas”, como se quisesse afirmar em alto e bom som para todo mundo: “Eis quem sou; não preciso de artifícios.”
Contraditoriamente ao que teve de revolucionária na mocidade, a estrela, no crepúsculo, resolveu dar uma guinada mais conservadora na política, a despeito de sua postura progressista na defesa dos animais e do meio ambiente. O jornalista Elio Gaspari observa que nesse movimento a atriz seguiu o próprio século XX. Mistério? Talvez. Ou, quem sabe, apenas o exercício da liberdade de pensamento e de opinião, direito sagrado de cada um. Nem por isso merece ela ser condenada ou cancelada. Quando a vida se completa com a morte, o julgamento do morto deve sempre considerar o conjunto da obra e não um ou outro aspecto isolado, às vezes fruto de equívocos e de mal entendidos. Em todo juízo os antecedentes do réu devem ser levados em conta, a fim de que o veredicto final seja correto – e mais que isso: justo.
Brigitte, Brigitte, nesta hora de adeus, as mulheres do mundo te saúdam. Os homens e os bichos, também. E os que não o fazem, não te merecem.
Faço todos os anos. Gosto de mergulhar no mar. Agradecer o ano. Pensar sobre ele. E, no dia primeiro, faço igual: meus pedidos. Poucos...
Reflexões de fim de ano
Há uma recomendação feita por Jesus aos seus discípulos que também serve para todos os relacionamentos: “Se entrardes numa cidade e n...
Quando devemos ir?
Na cultura judaica da época, sacudir a poeira era um gesto simbólico muito forte. Significava encerrar um vínculo, marcar um limite, sem agressão nem ódio. Era reconhecer que a convivência só é possível
Quando somos desrespeitados, por palavras ou por gestos, devemos partir, não por orgulho, mas por consideração a nós mesmos, como um ato de autocuidado e de autopreservação.
Há momentos na vida em que permanecer deixa de ser virtude e passa a ser covardia e desprezo por si mesmo. Nem sempre insistir é sinal de amor, e nem sempre suportar é prova de maturidade. Há relações que nos humilham, adoecem, diminuem, apagam e ferem.
Relacionamentos verdadeiramente construtivos se edificam sobre um alicerce inegociável: o respeito recíproco.
O desrespeito raramente chega de forma brusca. Ele costuma se infiltrar aos poucos: em palavras que diminuem, em “brincadeiras” repulsivas, em silêncios punitivos, em ironias recorrentes, em gestos que ignoram, em decisões unilaterais que desconsideram sentimentos. A dignidade não deve se tornar moeda de troca.
Relacionamento saudável não é ausência de conflito; é presença de consideração. É poder discordar sem humilhar, dialogar sem medo, expressar-se sem ser invalidado, deixar limites bem claros. É sentir-se seguro para ser quem se é, sem precisar se diminuir para caber no espaço do outro. Quando isso se perde, o vínculo deixa de ser encontro e passa a ser desgaste.
Permanecer onde há desrespeito contínuo não é fidelidade ao outro; é abandono de si. E nenhum afeto exige que alguém se anule para que o vínculo sobreviva.
Devemos partir quando o diálogo já foi tentado com sinceridade e não houve mudança; quando o pedido de respeito é tratado como exagero; quando o limite estabelecido é repetidamente violado; quando a presença do outro nos faz duvidar do nosso próprio valor; quando a relação exige silêncio onde deveria haver voz ativa.
Conviver só é possível onde existe cuidado mútuo. Fora disso, permanecer é insistir em um caminho que já não leva a lugar algum. Quando somos desrespeitados, devemos nos afastar, mesmo desatando laços com cuidado, em vez de simplesmente cortá-los. Mas não devemos permanecer em nenhum lugar ao preço da nossa própria dignidade.
É inquestionável a importância vanguardista do compositor carioca Noel Rosa para a transformação poética da canção popular brasileira....
O grande compositor que o Brasil esqueceu
A mais rigorosa biografia existente de Noel Rosa foi feita por João Máximo e Carlos Didier e publicada, em 1990, pela editora da Universidade de Brasília. Divergências entre os autores, até hoje não superadas, fizeram com que a obra ficasse restrita àquela primeira e única edição. Nessa biografia, foram levantadas 259 músicas com a participação autoral de Noel, que foram compostas em um pequeno período de oito anos, que findou em 1937, ano da sua morte. O pesquisador Jairo Severiano identificou, em toda a obra de Noel Rosa, 108 músicas feitas exclusivamente por ele, o que leva à conclusão de que quase 60% das músicas do poeta da Vila foram feitas com parceiros.
Quando se fala das músicas mais representativas da obra de Noel Rosa sempre são citadas “Feitiço da Vila”, “Conversa de Botequim”, “Pra que Mentir” e “Feitio de Oração”.
Quem nasce lá na Vila, nem sequer vacila Ao abraçar o samba Que faz dançar os galhos do arvoredo E faz a lua nascer mais cedo
Seu garçom faça o favor de me trazer depressa Uma boa média que não seja requentada Um pão bem quente com manteiga à beça Um guardanapo e um copo d’agua bem gelada
Embora essas músicas estejam, indelevelmente, associadas ao nome de Noel Rosa e sejam sempre indicadas entre os melhores sambas da sua vastíssima produção, nelas o Poeta da Vila participou apenas como o letrista das canções, cujas melodias foram feitas por Vadico. Muitos leitores vão se deparar, aqui, pela primeira vez, com o nome de Vadico, que foi um músico e compositor de destaque, principalmente no período que se estende do final dos anos 1920 até meados da década de 1940, comumente denominado, na historiografia, de "época de ouro" da música popular do Brasil.
Oswaldo de Almeida Gogliano, o Vadico, era paulistano, nascido, em 1910, no bairro do Brás, descendente de imigrantes italianos e de uma família de músicos. Começou a estudar piano quando era criança. Muito jovem, iniciou a sua
Em 1933, já estabelecido no Rio de Janeiro como pianista e compositor, em um intervalo de uma sessão de gravação do cantor Francisco Alves, Vadico tocava uma das suas composições no piano. O maestro Eduardo Souto, encantado com a melodia, foi numa sala ao lado onde se encontrava Noel Rosa e o chamou para ouvir a música, sugerindo que Noel fizesse a letra. Noel fez, na hora, o que se costuma chamar um “monstro”, uma letra provisória para marcar o número de sílabas com as notas. Dois dias depois, Noel trazia a letra definitiva do samba, que iniciou a parceria entre ele e Vadico e se tornou uma obra-prima da canção popular brasileira:
Quem acha vive se perdendo Por isso agora eu vou me defendendo Da dor tão cruel desta saudade Que por infelicidade Meu pobre peito invade
Vadico foi o parceiro mais constante de Noel Rosa. Fizeram dez músicas juntos. Para João Máximo, nada do que fizeram “é menos do que bom. E quase tudo é mais do que excelente”. A última música da dupla foi “Pra que Mentir", que também se tornou um clássico da música brasileira. “Pra que Mentir" foi composta a menos de dois meses da morte de Noel, que não chegou a ver a música gravada. Uma das inúmeras regravações de “Pra que Mentir" foi feita por Caetano Veloso, que a usou como tema para compor “Dom de Iludir”, intertextualizando a letra da sua música com os versos de Noel em “Pra que Mentir".
Pra que mentir Se tu ainda não tens Esse dom de saber iludir? [...] Pra que mentir Se tu ainda não tens A malícia de toda mulher?
Dois anos após a morte de Noel, Vadico viajou para os Estados Unidos, como pianista de uma orquestra brasileira que ia fazer apresentações na Feira Mundial de Nova York. Ao término do evento, decidiu ficar por lá. Atuou, inicialmente, como arranjador e, depois, como pianista do Bando da Lua, o grupo que acompanhava Carmen Miranda.
Nos primeiros anos da década de 1940, os estúdios de cinema norteamericanos, subsidiados pelo governo, participavam do empenho dos Estados Unidos
Com o desenrolar da Segunda Guerra Mundial, houve uma substancial queda no mercado para os filmes produzidos nos Estados Unidos, em virtude da restrição imposta pelos países que estavam sob o domínio da Alemanha, Itália e Japão, mercado que precisava ser recuperado em outros locais. O estúdio Disney, que era o mais afetado com a perda de arrecadação externa, se envolveu inteiramente na iniciativa do governo.
Liberado pela Fox, com quem tinha vínculo contratual, Vadico foi cedido à Disney para colaborar em um desses filmes da Política de Boa Vizinhança. A película era Alô Amigos (Saludos Amigos), que foi a primeira experiência cinematográfica de utilização de personagens reais contracenando com figuras gráficas, como o Pato Donald e Zé Carioca. Partiu de Vadico a sugestão para que Walt Disney encerrasse a película com a música “Aquarela do Brasil” que, a partir do filme, tornou-se um grande sucesso internacional com o título de “Brazil”.
Vadico resolveu deixar o Bando da Lua e ir para Los Angeles para trabalhar como pianista e estudar música com Mario Castelnuovo-Tedesco, maestro e compositor erudito italiano de origem judia, que havia emigrado para os Estados Unidos.
O aperfeiçoamento musical de Vadico fez com que ele fosse convidado a assumir a direção musical da respeitada companhia de balé da bailarina, coreógrafa e antropóloga Katherine Dunham. O grupo, que era formado por componentes negros, é considerado uma das mais importantes companhias de balé dos Estados Unidos, no século passado. Katherine Dunham era, também, uma grande ativista no combate às práticas racistas no país.
Com o grupo de Dunham Vadico (que era apresentado nos cartazes como Vadico Gogliano) excursionou pela Europa, América Latina e Brasil. Durante a passagem por Paris, Vadico teve três peças instrumentais suas, as quais ele denominou “Choros”, incluídas no disco “Voyage au Brésil”, gravado pela companhia de Katherine Durham
Após mais de dois anos de trabalho com Katherine Dunham, Vadico desligou-se da companhia. Rubem Braga, que também entrevistara o compositor quando da passagem do grupo por Paris, relata um trecho da conversa com Vadico, em que indaga sobre as moças do balé: "ele ri, conserta os óculos, mas diz que prefere as francesas.” Isso, entretanto, não era verdadeiro. Para Gonçalo Junior, em sua biografia de Vadico, o músico teria se apaixonado por uma das bailarinas, que se tornaria, anos depois, a famosa cantora e atriz Eartha Kitt.
Em 1955, por ocasião do lançamento de um disco de Eartha Kitt no Brasil, Vadico já estava de volta ao Rio de Janeiro. Em entrevista concedida na época, destaca-se o impiedoso comentário sobre a artista: “como bailarina, é medíocre; como mulher, idem; como cantora, uma droga!”. Isso mostra que a relação entre os dois não foi bem resolvida. Mas, talvez, o pacato e retraído Vadico não tivesse mesmo se amoldado à tempestuosa Eartha Kitt.
Em 1954, Vadico voltou, definitivamente, para o Brasil, retomando, no Rio de Janeiro, o seu antigo trabalho como pianista e intensificou a sua atividade como arranjador, orquestrador e, também, como compositor, com vários parceiros,
Em meados de 1956, Vadico recusou um convite do seu amigo, e também parceiro, Vinícius de Morais, para musicar uma peça que o poeta iria encenar, transportando o mito grego de Orfeu para os morros cariocas. Em depoimento, Vinícius afirma que Vadico se escusara do convite alegando não se julgar em condições para a tarefa. Para João Máximo, grande pesquisador da vida do compositor, isso não faria sentido, já que Vadico, no tempo que passou nos Estados Unidos, trabalhou na composição de músicas para filmes e peças na Broadway, e a recusa teria sido motivada por problemas de saúde que ele já vinha sofrendo desde os Estados Unidos. Para o trabalho recusado por Vadico, Vinícius de Morais encontrou um jovem maestro chamado Antônio Carlos Jobim, e a parceira entre eles mudaria a história da música popular brasileira.
Em 1979, dezessete anos após a morte de Vadico, foi produzido, por uma pequena gravadora de São Paulo, o primeiro disco somente com músicas do compositor, álbum que, hoje, é uma raridade. Nessa gravação, pode-se ter uma amostra da qualidade das músicas de Vadico que, até então, ainda permaneciam inéditas, como os dois choros instrumentais que foram interpretados no disco por Amilton Godoy, o pianista do Zimbo Trio.
Depois daquela iniciativa de 1979, novamente um véu de esquecimento voltou a encobrir o nome de Vadico. De lá para cá, já se passaram mais de quarenta anos e um absoluto silêncio envolve a obra do compositor paulistano.
Não vi, ou foi muito escasso, o aviso dourado dos pau-d’arcos neste Natal. Também não tenho saído, ou não tenho o que ver nos lugares ...
O aviso dourado
A Ilíada é, antes de tudo, um vasto canto sobre a morte. Não a morte episódica, acidental, mas a morte como destino inscrito na car...
A Ilíada e a consciência da morte
Aquiles, por sua vez, encarna a consciência da morte em sua forma mais radical e paradoxal. Ele sabe, desde o início, que seu destino está selado. Pode escolher uma vida longa e obscura ou uma vida breve e eterna na memória dos homens. Sua escolha revela um pensamento profundamente trágico: a finitude não é evitada, é instrumentalizada. Quando Pátroclo morre, a morte deixa de ser apenas destino e se torna ferida íntima. A dor rompe a couraça do herói e o lança numa espiral de violência que culmina no ultraje ao corpo de Heitor.
Assim, A Ilíada não glorifica a morte, mas a reconhece como estrutura fundamental da existência humana. O poema nos ensina que a grandeza não está em escapar da finitude, mas em encará-la sem ilusões. A consciência da morte, em Homero, não conduz ao niilismo, mas à intensidade. Cada gesto importa porque pode ser o último; cada palavra pesa porque pode ser a derradeira. A guerra é terrível, mas é também o espelho em que os homens veem, ampliada, a verdade de sua condição.
Ao atravessar séculos, A Ilíada continua a nos interpelar, porque ainda vivemos sob o signo da morte, ainda buscamos sentido num mundo em que tudo passa. O poema permanece como um canto grave e luminoso que nos lembra: somos mortais, e é dessa ferida que nascem tanto a tragédia quanto a beleza.











































































