No livro A vida passada a limpo, Carlos Drummond de Andrade reuniu seus poemas produzidos no período de 1954 a 1958. Entre eles, consta o conhecido Prece de mineiro no Rio, cujos quatro primeiros versos transcrevo a seguir para que o leitor compreenda o que rege a citada produção poética:
Espírito de Minas, me visita,
e sobre a confusão desta cidade,
onde voz e buzina se confundem,
lança teu claro raio ordenador.
O poema expressa um pouco do cansaço do mineiro com o Rio de Janeiro de então, ainda capital federal e ainda ameno, comparado com o que se tornou depois. Mesmo naqueles “anos dourados”, o poeta, vindo da bucólica Belo Horizonte, já se ressentia da “confusão desta cidade, onde voz e buzina se confundem”. Daí a invocação do “espírito de Minas” e de seu “claro raio ordenador” para que voltasse a reinar um pouco de paz e ordem em sua vida tumultuada na grande cidade.
Pois fui recentemente, em busca desse “espírito” mineiro, a Ouro Preto dos nossos dias. E não só, mas também a Mariana, Tiradentes e São João del-Rei, nas quais um dia habitou o Brasil profundo de outras eras. Essa foi uma visita que tardou, nem sei o porquê, principalmente levando-se em conta que aprecio cidades históricas, brasileiras ou não, e antiguidades em geral. Tudo isso tem a ver comigo. E, no entanto, só agora decidi ir a Minas, com pelo menos duas décadas de atraso. Mistério da vida. Mas antes tarde do que nunca.
Tinha ido a Paraty, espécie de Ouro Preto à beira-mar. Já faz tempo. Lembro que escolhi para me hospedar uma pousada pertencente ao príncipe Dom Joãozinho de Orleans e Bragança, famoso fotógrafo. Achei que tinha tudo a ver com a atmosfera colonial da cidade, tendo em vista que vários móveis e objetos da pousada pertenceram à família imperial brasileira. O ambiente era puro século XIX, uma delícia – para quem gosta dessas coisas. Mas a Ouro Preto mineira é outra história, literalmente.
Começa pelo cenário e pelo clima de montanha. As igrejas, o casario preservado e as ruas de pedra, tal como em Paraty, é certo, mas em maior quantidade. Porém, não basta apenas ver com olhos de hoje aquilo tudo; impõe-se a contemplação, que é mais que a simples visão imediata, rasa, para que seja possível imaginar a antiga urbe no seu esplendor do passado. Esta é a experiência essencial, sem a qual toda visitação não passará de turismo banal, daqueles dos quais nem a memória fica. Com uma população atual em torno de oitenta mil habitantes e com sua importante universidade federal, Ouro Preto pode distrair o visitante com alguma (pouca) movimentação urbana, impedindo-o de realizar a abstração fundamental, capaz de transportá-lo aos tempos áureos da Vila Rica de outrora, aquela que permanece silenciosa, mas presente, sob (ou sobre) a cidade de agora.
Manuel Bandeira, com seu precioso Guia de Ouro Preto, vai à minha frente mostrando os lugares. Seu olhar sensível à estética e à história dos monumentos é o adequado à ronda inevitável, na qual as igrejas se destacam, revelando a importância da religião na vida brasileira de então. Com olhar semelhante, Afonso Arinos de Melo Franco também me guia com seu Roteiro Lírico de Ouro Preto. Como posso perder-me com tais mentores? Entretanto, o fato é que até poderia dispensá-los, pois a formosa urbe é professora de si mesma e assim vai nos conduzindo naturalmente por suas ladeiras, mostrando-nos o que merece ser visto – e que é tudo. Das construções originais – e são muitas –, tudo merece calma atenção. E aí vemos – e sentimos – a presença de Portugal e da cultura ancestral que nos formou, assim como talvez adivinhemos uma discreta pitada de tempero genuinamente brasileiro aqui e acolá. Sim, porque nunca o colono é apenas mera cópia do colonizador; o colonizado, como que por sutil vingança e divina justiça, tatua algumas marcas suas no corpo e na alma do opressor. Aleijadinho, na escultura, e Mestre Ataíde, na pintura, eram brasileiríssimos e suas obras expressaram isso, necessariamente. Como bem observou o inspirado Afonso Arinos, “a arte colonial mineira foi se amulatando com a participação dos artistas nascidos na terra, até atingir a genialidade mulata de Aleijadinho”. A presença da cultura africana também não pode ser ignorada, claro, já que, afinal, tudo aquilo foi construído por mãos negras, com muito sacrifício e dor.
Em Ouro Preto, quis contemplar tudo. Mas também alimentei uma particular esperança: a de ver a casa onde morou, durante alguns anos, a célebre poeta norte-americana Elizabeth Bishop, hoje pertencente a uma família local, a qual, segundo soube, cuida do imóvel como se fosse um museu – o que de fato é. A poeta comprou e restaurou a casa antiga e bela, batizando-a de Casa Mariana, em homenagem à amiga Marianne Moore, também escritora. Este projeto não realizei, infelizmente, por razões diversas, inclusive por um certo desconhecimento da poeta por parte de moradores, o que é bem a cara de certo Brasil.
Normas municipais impõem que construções novas observem o estilo colonial das edificações antigas. Aí é preciso olho atento para distinguir o autêntico da cópia. De qualquer modo, assegurou-se com isso uma certa uniformidade arquitetônica, mesmo que artificial, e certamente melhor que a inevitável confusão que se instauraria sem tal ordenamento. Neste ponto – e em tantos mais –, ainda temos muito a aprender com as antigas cidades da Europa.
A etapa seguinte levou-me a Mariana e a Tiradentes, pequenos tesouros coloniais, na parte histórica das cidades. Com reverência, percorri ruas e contemplei a paisagem urbana. E assim fiz também em São João del-Rei, com um acréscimo: o desejo (irrealizado) de visitar o túmulo do presidente Tancredo Neves, estadista sábio e cordial, cujo estilo e valores cívicos fazem falta ao Brasil atual. Assim como em Ouro Preto paira a presença do herói Tiradentes e dos inconfidentes, em São João del-Rei paira a de Tancredo Neves, filho da terra. Percebe-se um carinho especial da população pelo conterrâneo ilustre que alcançou a presidência da República, apesar de não tê-la exercido. Há o Solar dos Neves, antigo e belo sobrado da família; o Memorial, onde funcionava o escritório do advogado Tancredo; e a estátua de corpo inteiro em praça importante da urbe. Mas, mais que isso, há o explícito carinho dos habitantes da cidade para com a sua memória, a meu ver, a maior consagração de todas, aquela que de fato importa – e fica.
Concluí o périplo em Belo Horizonte, metrópole ainda humanizada, de avenidas largas e arborizadas. O espírito de Minas, de que falou Drummond, ainda está lá. Que nunca se ausente, é o que desejo. No poema José, o poeta itabirano escreveu que “Minas não há mais”. Certamente pensava em sua Itabira do Mato Dentro, desfigurada pela Companhia Vale do Rio Doce. Mas Minas ainda há, no que restou. Minas sempre haverá, pois é eterna.
Posso dizer, enfim: espírito de Minas, visitei-te!





