Certa vez, perguntei ao meu pai, que já havia ultrapassado os noventa anos, como ele se sentia diante da proximidade da morte.

Finados... entre a vida e a eternidade

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Certa vez, perguntei ao meu pai, que já havia ultrapassado os noventa anos, como ele se sentia diante da proximidade da morte.

Respondeu-me com a serenidade de quem havia feito as pazes com o tempo:

— É natural, minha filha. Não penso na morte como um fim. O espírito prossegue. E, sendo assim, poderei continuar estudando nas escolas espirituais.

Meu pai não temia a morte. Talvez porque não a considerasse uma despedida definitiva, mas uma passagem, uma mudança de morada, a continuidade de uma existência que não se encerra com o último suspiro.

Insisti:

— Mas, pai, olhando para trás, que sentimento lhe vem em relação à vida que o senhor viveu?

— De tudo fiz o melhor que pude. Não tenho do que me queixar. Sinto falta dos meus amigos, da companhia para jogar xadrez. Hoje eles são todos fantasmas.

Guardei essa conversa como quem guarda uma pequena herança.

Meu pai falava da morte sem solenidade, sem aquele temor que costumamos emprestar ao desconhecido. Tinha a simplicidade dos que já compreenderam que viver não é vencer o tempo, mas saber habitá-lo.

A vida é esse intervalo misterioso entre nascer e morrer. Um intervalo que não se mede apenas em anos, mas na intensidade das presenças, nos afetos que cultivamos, nas escolhas que fizemos e, sobretudo, na paz que conseguimos estabelecer com a própria consciência.

Penso que envelhecer é também aprender a se despedir. Dos lugares, das certezas, dos hábitos, das versões de nós mesmos. E, dolorosamente, daqueles que amamos.

A morte vai deixando cadeiras vazias à nossa volta. Silencia vozes familiares, interrompe conversas, recolhe abraços. Há um momento em que percebemos que já temos mais conhecidos do outro lado do mistério do que sentados à nossa mesa.

Mas será que desaparecem?

Gosto de pensar que não.

Creio que o corpo pertence à terra, mas a alma não se deixa sepultar. A alma guarda o que fomos em essência, o que amamos, o que aprendemos. E o espírito, livre da matéria, prossegue sua jornada em outras dimensões de entendimento.

Talvez a morte não seja o contrário da vida, mas apenas o contrário do nascimento. Nascer é chegar a esta experiência. Morrer, quem sabe, seja partir dela.

E o espírito continua.

Não tenho certezas sobre os caminhos do invisível. Tenho intuições, experiências íntimas, uma fé que não exige provas a cada esquina. Há mistérios que não precisam ser decifrados para serem respeitados.

Hoje é Finados.

Seguindo uma tradição da minha família, dedicarei parte do meu dia àqueles que já partiram.

Não apenas para lamentar ausências, mas para celebrar as vidas que se entrelaçaram à minha.

Sinto falta de amigos e amigas queridas. Às vezes me surpreendo conversando com eles, como se ainda estivessem por aqui. Conto novidades, recordo episódios, faço perguntas. E, por instantes, quase escuto suas respostas.

Há presenças que não dependem de um corpo.

Talvez por isso, a cada perda, eu compreenda melhor a urgência de estar verdadeiramente presente entre os vivos.

Estar presente não é apenas ocupar um lugar. É estar desperto. Olhar nos olhos. Escutar sem pressa. Dizer o que sentimos enquanto ainda há ouvidos para nos escutar. Não adiar indefinidamente o abraço, a visita, o perdão, a palavra amorosa.

Quantas vezes desperdiçamos a vida preocupados em prolongá-la, quando deveríamos nos ocupar em aprofundá-la?

Não quero chegar ao fim carregando uma coleção de palavras que não disse, afetos que não demonstrei e reconciliações que deixei para depois.

Quero a consciência em paz.

Não a paz de quem nunca errou, mas a de quem reconheceu seus equívocos, procurou repará-los e fez, dentro de suas possibilidades, o melhor que pôde.

Como meu pai.

Volto àquela conversa e imagino que, em alguma dimensão do infinito, ele tenha reencontrado seus companheiros de xadrez.

Talvez estejam novamente diante de um tabuleiro, pensando demoradamente antes de mover uma peça.

E sorrio.

Porque, se a eternidade existe, gosto de imaginá-la também povoada dessas pequenas alegrias humanas.

Afinal, talvez a morte nos ensine, mais do que qualquer outra experiência, a grande lição da vida: não basta estar vivo. É preciso estar inteiro.

E, quando chegar a nossa vez de atravessar o mistério, que possamos partir sem grandes dívidas com a consciência, deixando entre os que ficam não apenas saudade, mas alguma luz.


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