Estou sentada em torno de uma mesa. Diante de mim, uma velha senhora, cabelos totalmente brancos, semblante tranquilo, mas, ao mesmo tempo, muito enigmático. As cartas são embaralhadas. Ela me fala para cortar o baralho ao meio. Depois, vai retirando as cartas em forma de cruz. A primeira carta é o Louco, nº 22 ou a carta nº 0. Um coringa, um homem com chapéu de bobo, uma mochila nas costas, caminhando com uma vara de apoio e seguido por um cão. Logo em sequência, situado
Arte: Elisa Cabral
no lado oposto horizontal, surge a carta nº 16, A Torre Fulminada ou A Casa de Deus, onde se vê uma edificação ruindo e um indivíduo que despenca do alto de ponta-cabeça. Na sequência, no eixo vertical acima, aparece a carta nº 1, O Mago. Um ser diante de uma mesa com vários elementos, prestes a realizar proezas com um bastão em uma das mãos, como uma varinha mágica. Parece estar no intuito de apresentar e descobrir os princípios criativos com os elementos expostos em sua mesa. No seu extremo oposto vertical descendente, surge a carta de nº 20, O Julgamento, com sua trombeta colocada no meio da imagem do sol, clamando pelo sopro da vida, ressuscitando uma família de mortos. E, para sintetizar, no meio, a carta nº 9, O Eremita, vem finalizar a cruz desse jogo. Um sábio que avança carregando em suas mãos uma lamparina acesa e um cajado.
O mesmo sonho. A primeira vez foi logo antes da minha viagem. Pensei que talvez fosse uma premonição dos acontecimentos do porvir. Agora, na segunda vez, seguem as mesmas cartas, penso, depois de despertar com o som de uma chamada para as aeromoças em uma das poltronas. Se o sonho continua, poderia haver pelo menos uma sequência, com a velha senhora explicando mais sobre o desenrolar e o significado desse jogo.
O solavanco de uma turbulência me acorda mais um pouco. Abro os olhos. As luzes ainda estão reduzidas. A maioria dos passageiros parece dormir. Mal saí de Paris e o sonho me persegue com as lembranças das cartas. Não devia ter me envolvido tanto com o jogo do Tarô e menos ainda com a pintora dos Arcanos Maiores. Os sons do avião, numa frequência amena, com o ruído leve das turbinas, as pontuais alterações dos sons e das luzes na penumbra, me induzem às lembranças dos tempos que ficaram para trás. Um voo noturno define mesmo uma situação que nos convida a refletir sobre todos os trânsitos. Um local de confluências de recordações, mescladas a sonhos e devaneios.
Tópico introdutório do livro Sonhos de Viagens, disponível na Livraria do Luiz