19.3.24
Cerca de quatro anos pós a morte do marido, D. Zulmira começou a esquecer as coisas. Não sabia ...
Cerca de quatro anos pós a morte do marido, D. Zulmira começou a esquecer as coisas. Não sabia onde guardara roupas, sapatos ou utensílios da casa. Letícia, a filha caçula, chegou a alertar a irmã:
19.3.24
12.3.24
...
Seu Aderson era um velho amigo da família. Costumava nos visitar pelo menos uma vez por mês, geralmente aos domingos, quando ficava para o almoço. Vestia-se com a elegância que o salário da prefeitura permitia. Embora não fosse de sorriso fácil, parecia de bem com a vida.
12.3.24
4.3.24
Rir e chorar são gestos diferentes que visam a efeitos bem diferentes. Ambos responsivos, liberalizantes – mas a liberação do riso, s...
Rir e chorar são gestos diferentes que visam a efeitos bem diferentes. Ambos responsivos, liberalizantes – mas a liberação do riso, seca e sutil, vem da cabeça. A do choro, emotiva e aquosa, procede do coração. E o riso não é puramente resposta, é já alternativa.
4.3.24
27.2.24
Em recente crônica publicada na “Folha de São Paulo”, Sérgio Rodrigues comenta uma frase atribuída a Dr...
Em recente crônica publicada na “Folha de São Paulo”, Sérgio Rodrigues comenta uma frase atribuída a Drummond segundo a qual “escrever é cortar”. O cronista observa que, de tão repetida, a frase se tornou um lugar-comum. Ao mesmo tempo, chama a atenção para o fato de é preciso relativizar esse conceito; nem sempre o corte serve às intenções do autor.
27.2.24
20.2.24
O homem é um animal filosófico. A opção pelo misticismo não se estende a todos, pois exige fé, mas a filosofia é inevitável...
O homem é um animal filosófico. A opção pelo misticismo não se estende a todos, pois exige fé, mas a filosofia é inevitável em nossa relação com o mundo. Somos seres pensantes, e pensar é filosofar.
20.2.24
13.2.24
Duas histórias de Carnaval. A primeira é a do casal que resolveu “se liberar” durante a festa. ...
Duas histórias de Carnaval. A primeira é a do casal que resolveu “se liberar” durante a festa. A mulher disse ao marido: “Vá embora e só volte daqui a quatro dias”. Prontamente ele deixou a casa e alugou um flat. Estava solto e só! Como era um tipo respeitável na cidade, resolveu comprar uma fantasia que lhe cobrisse o rosto. Não queria que ninguém testemunhasse seus excessos.
13.2.24
6.2.24
Sempre fui um folião enrustido. Como tinha dificuldade de aderir à folia, a família e os amigos me consideravam anticarnavalesco – o q...
Sempre fui um folião enrustido. Como tinha dificuldade de aderir à folia, a família e os amigos me consideravam anticarnavalesco – o que não é verdade. Brinco por dentro, com uma espécie de euforia espiritual. Pode parecer contraditório falar em espírito a propósito de uma festa que celebra a carne, mas a contradição é apenas aparente. O desejo é físico mas pode se sublimar, e nesse caso a alma se funde com o corpo. Freud que o diga.
6.2.24
30.1.24
Tenho lido críticas por parte de estudiosos da língua ao uso de “Gratidão” no lugar de “Obrigado”. Alegam que esse é um caso de pe...
Tenho lido críticas por parte de estudiosos da língua ao uso de “Gratidão” no lugar de “Obrigado”. Alegam que esse é um caso de pedantismo e não deve substituir a forma clássica com que nos acostumamos a reconhecer um favor. “Gratidão”, de fato, soa um tanto pomposo. É como se, com a escolha do substantivo, o favorecido quisesse enfatizar o sentimento e não simplesmente mostrar que dele está imbuído.
30.1.24
23.1.24
Hoje se fala muito em manter o foco. São incontáveis os livros sobre o tema, que a meu ver implica basicamente dois tipos de atitude: t...
Hoje se fala muito em manter o foco. São incontáveis os livros sobre o tema, que a meu ver implica basicamente dois tipos de atitude: ter em mente um objetivo e persistir até alcançá-lo. Muitos não sabem o que querem e se esforçam em vão. Outros até miram com clareza o alvo, mas não têm constância para chegar até ele.
23.1.24
16.1.24
Vez por outra dou meus passeios na orla do Cabo Branco, pela manhã, e nessas ocasiões revejo amigos e conhecidos. Um deles – mais con...
Vez por outra dou meus passeios na orla do Cabo Branco, pela manhã, e nessas ocasiões revejo amigos e conhecidos. Um deles – mais conhecido do que amigo – foi meu colega no Liceu Paraibano e tem uma curiosa particularidade: às vezes me cumprimenta, às vezes não.
16.1.24
9.1.24
Argumentar é apresentar evidências para sustentar uma tese. Esse procedimento remonta à retórica clás...
Argumentar é apresentar evidências para sustentar uma tese. Esse procedimento remonta à retórica clássica, que codificou os principais recursos capazes de promover a adesão ao ponto de vista do orador. Aprendemos dos gregos que tais recursos consistem basicamente de “provas” e “razões”. À língua cabia servir de suporte ao pensamento e conferir beleza à expressão por meio das figuras (flores retóricas), que constituíam uma espécie de acréscimo.
9.1.24
2.1.24
As grandes datas têm sobretudo um valor simbólico. É o caso do Ano-Novo, que em essência não muda nada mas nos dá a impres...
As grandes datas têm sobretudo um valor simbólico. É o caso do Ano-Novo, que em essência não muda nada mas nos dá a impressão de que alguma coisa recomeça.
Todo ano a mais é um sinal de envelhecimento, mas insistimos em pensar que um novo tempo nasce à medida que outro morre. Em vez de sucessão, renovação. Na ingênua alegoria do nosso desejo, o Ano-Novo aparece como um bebê rechonchudo e risonho que vem substituir um velhinho magro e decrépito.
2.1.24
26.12.23
O tempo é um dos maiores enigmas humanos. Muitos já tentaram decifrá-lo, mas, ou não tiver...
O tempo é um dos maiores enigmas humanos. Muitos já tentaram decifrá-lo, mas, ou não tiveram suficientemente tempo para isso, ou desistiram pela complexidade do tema. A hipótese mais viável é a segunda, pois quem se dispõe a meditar sobre a passagem do tempo não está ocupado com outras coisas e pode se dedicar com muita calma a isso (alguém já disse que, sem ócio, não haveria filosofia nem chá dançante).
26.12.23
19.12.23
Na véspera de Natal, Dª. Teresa desapareceu no shopping. Ela saíra de casa cedo para escapar dos congestionamentos comuns n...
Na véspera de Natal, Dª. Teresa desapareceu no shopping. Ela saíra de casa cedo para escapar dos congestionamentos comuns nessa época do ano. Levava uma lista com os inúmeros presentes que pretendia comprar. Estavam na relação os filhos, genros, noras, o porteiro do prédio, as empregadas, as manicures, o professor de ginástica, o terapeuta comportamental, os colegas da repartição e pessoas que a família ignorava mas, de alguma forma, compunham o seu círculo de relações. Ela sempre se sentira no dever de presentear a todos.
19.12.23
12.12.23
Natal é tempo de dar e receber presentes. Sei que o espírito da festa se expressa melhor em dar do que em receber. Trata-se de uma...
Natal é tempo de dar e receber presentes. Sei que o espírito da festa se expressa melhor em dar do que em receber. Trata-se de uma ocasião em que o outro se constitui em alvo da nossa generosidade. Nela não cabe o cinismo com o qual um conhecido político cunhou a frase: “É dando que se recebe.”
12.12.23
5.12.23
Um dia Eustáquio adoeceu gravemente. Os médicos resolveram interná-lo, mas de nada valeram os remédios e as vitaminas que lhe da...
Um dia Eustáquio adoeceu gravemente. Os médicos resolveram interná-lo, mas de nada valeram os remédios e as vitaminas que lhe davam; o homem estava cada vez mais pálido e começava a definhar. Pelo visto, tinha pouco tempo de vida.
5.12.23
28.11.23
Li que o bilionário Jeff Bezos tem inve...
Li que o bilionário Jeff Bezos tem investido um dinheirão numa startup que pesquisa a imortalidade. Bezos, que já foi ao espaço, parece insatisfeito com a possibilidade de o homem explorar os domínios extraterrestres. Quer mais. Seu sonho é que no futuro possamos escapar de um evento que por excelência confirma a nossa condição animal – o fim da vida.
28.11.23
21.11.23
O fim dos tempos não é necessariamente o tempo do fim. É o momento em que, para alguns, não há mais respeito por valores e crenças, e o...
O fim dos tempos não é necessariamente o tempo do fim. É o momento em que, para alguns, não há mais respeito por valores e crenças, e o ser humano parece ter perdido o rumo. A impressão de que nada tem sentido o faz abdicar da esperança no amanhã. Quantas vezes na história da humanidade não ocorreram momentos como esse, em que se imagina vivenciar o caos? No entanto estamos aqui — por obra do instintivo de sobrevivência, que é mais forte do que princípios, crenças ou ideologias. O novo não aparece
21.11.23
14.11.23
Ela estranhou quando o carro parou em frente à sua casa tão cedo. Não costumava receber clientes naquela hora do dia. O homem que des...
Ela estranhou quando o carro parou em frente à sua casa tão cedo. Não costumava receber clientes naquela hora do dia. O homem que desceu do veículo tinha o semblante assustado e, ao vê-la no alpendre, lhe fez um aceno. Ela foi até o portão; antes de abrir, notou as olheiras de quem parecia não ter dormido.
14.11.23
7.11.23
Em criança, eu ouvia dizer: “Perfeito, só Deus”. Ouvia e ainda ouço muito, mas parece que o ser humano afirma isso e ...
Em criança, eu ouvia dizer: “Perfeito, só Deus”. Ouvia e ainda ouço muito, mas parece que o ser humano afirma isso e pensa outra coisa. Sabe que só Deus é perfeito, mas deseja no íntimo atingir um nível de grandeza incompatível com a sua finitude e precariedade. Quer ser além do que pode e sabe, e sofre com a percepção dos próprios limites.
7.11.23