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RICHARD AVEDON (1923 – 2004) foi um imenso fotógrafo americano. EZRA POUND (1885 – 1972), um grande poeta,... americano ... preso pel...

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RICHARD AVEDON (1923 – 2004) foi um imenso fotógrafo americano.

EZRA POUND (1885 – 1972), um grande poeta,... americano ... preso pelos Aliados, na Segunda Guerra, por pregações radiofônicas, na Itália, em favor do fascismo.

Bom.

Em 75, o colega José Barbosa, da agência centro do Banco do Brasil, João Pessoa – anteriores cinco anos de seminarista em Roma e grande experiência num escritório de arquitetura do Recife - , ofereceu-me (além de grandes papos) o projeto da casa que construí, na época, no bairro dos Estados, e em que moro até hoje.

- Quanto lhe devo, Barbosa?

O céu era uma vasta abstração sobre Copenhague, na tarde em que o desfile fúnebre saiu de Christiansborg - o concretíssimo castelo que, n...

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O céu era uma vasta abstração sobre Copenhague, na tarde em que o desfile fúnebre saiu de Christiansborg - o concretíssimo castelo que, naquela época, era a residência real - o som do tambor angustiado e fundo seguindo o carro em que arcanjos tocavam clarins mudos em torno do enorme esquife. Emocionaram-me o cavalo trotando sem cavaleiro, vindo atrás, a rainha velada, o Príncipe no magnífico luto. Depois do cortejo de nobres, a cavalaria conduzindo centenas de estandartes com todos os esmaltes e insígnias da heráldica danesa. E lá íamos nós, os seres humanos, abatidos, mais uma vez livrar-nos dos despojos (com o processo de decomposição iniciado) de um dos nossos.

Fui Pilatos na Paixão de Cristo e camponês paupérrimo, que se dana e se zanga, na caatinga paraibana do filme A Canga. Fui, também, no ...

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Fui Pilatos na Paixão de Cristo e camponês paupérrimo, que se dana e se zanga, na caatinga paraibana do filme A Canga. Fui, também, no cinema, fazendeiro escravagista do Ceará dos inícios da República, tenente de polícia nada abúlica, que perseguia um cangaceiro, fui pistoleiro, delegado nada nobre, fui aposentado... doente e pobre, um pequeno tirano - empresário pernambucano,

Julho de 2014: Sérgio Lucena me pede que o entreviste Dei à nossa conversa, como título, os versos do FOUR QUARTETS ( Quatro Quarteto...

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Julho de 2014: Sérgio Lucena me pede que o entreviste

Dei à nossa conversa, como título, os versos do FOUR QUARTETS ( Quatro Quartetos ) que o mui católico Eliot fora buscar num lenço bordado pela também mui católica rainha Mary Stuart, da Escócia.

"En ma Fin gît mon Commencement..." IN MY END IS MY BEGINNING – Em meu fim está meu começo.

Sérgio não disse o motivo do pedido. O fato de ele - pessoense radicado em São Paulo desde 2003 - ter agendada uma mostra na Usina Cultural, aqui em João Pessoa, é plausível, mas... atrevo-me a imaginar outra razão: precisava de alguém pra conversar... consigo mesmo, a respeito de sua arte. Talvez como Dante, que – pra evitar um longo e monótono monólogo – apelou – mais ou menos na mesma idade - pra outro poeta, Virgílio, ao se ver avançando para uma das “crises previsíveis da vida adulta” ( cf. Gail Sheehy ) , per una selva oscura / ché la diritta via era smarrita, embora a palavra smarrita – perdida - seja demasiado forte para essa via, pois é claro que o artista sempre pode dizer como Picasso: que “Eu não procuro, encontro”.

Especializei-me em poemas longos. Alguns são “tratados poético-filosóficos”, tipo VIDA ABERTA, que foi finalista de poesia do último Jabu...

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Especializei-me em poemas longos. Alguns são “tratados poético-filosóficos”, tipo VIDA ABERTA, que foi finalista de poesia do último Jabuti, ou 1/6 DE LARANJAS MECÂNICAS, BANANAS DE DINAMITE, que está para sair pela Arribaçã do Linaldo Guedes, lá de Cajazeiras. Um outro gênero, na mesma linha, foi o “rimance”, no caso A ENGENHOSA TRAGÉDIA DE DULCINEIA E TRANCOSO. Como me fascinam os “marcos” – cordéis de Leandro Gomes de Barros e João Martins de Athayde que narram a construção de babeis bem mais delirantes que a bíblica, fiz, também este MARCO DO MUNDO, de que aqui vão alguns trechos:
Abre-se o abismo de pedra e susto e, de cristal e prata, duzentas e setenta cataratas, como as de Foz do Iguaçu, na Garganta do Diabo, cavam, sem problema, a fundação do poema. (...) E é aí que, a propósito, de la bruma de los siglos emerge la antigua capital del imperio, coronada por cúpulas de palacios y iglesias, dentre as quais a do templo más ricos del Orbe com su Torre Catedralícia, en que se exhibe una Custodia en doscientos kilogramos de plata y oro, maquete do que será o ápice do Marco e seu grande tesouro. (... ) Não se faz ideia, sequer, do que vem nos contêineres. Prosa e verso, talvez papel, pois um nome que emergiu ali, foi El Universo, Biblioteca de Babel, que, depois, ante a fragrância de begônias, tornou-se Jardins Suspensos da Babilônia, com rosas do Épiro, lírios-do-zéfiro, além de alstremérias, clívias, milefólios, amarílis, rosinhas-de-sol, cestos-de-ouro, angélicas, flores-da-Abissínia, glórias-da-manhã e trombetas-de-arauto, tudo sublimado pelo aroma da tilândsia azul em torno de contêineres vindos do sul. (...) Aí um contêiner escapa da grande altura, feito fruta madura, rebenta-se, e os operários, surpresos, dão com devoradores de sombras, que – não mais presos - assombram feito bando de cobras, no canteiro de obras, juntos de um gato escaldado, animais esféricos, e, pelos flancos, elefantes brancos, mais as vacas sagradas, bois de piranha, velhas raposas, porcas misérias, jumentos sem mãe e leões de chácara, a revoada de baratas tontas pronta pro satânico pânico, a que se acresce o incêndio causado por seres térmicos. (...) Chegam pra compor, na Torre, vários andares, as extintas Mandchúria, Tchecoslováquia e Boêmia, com seus lares, bares, bazares, altares e lupanares, mais eliminados reinos da Baviera, Nápoles, Prússia e Sardenha além da Sereníssima Veneza do grande pintor Mantegna, das repúblicas Liguriana e Cisalpina, de exótica luz bizantina, dos impérios Khazar e Romano, Austríaco e Otomano, a egípcia trinca - maia, asteca e inca - mais a União Soviética ( a Utopia que atropelou a ética ). (...) Embora espere tanto de si quanto de um pianista de bar ou de escultor de vitrina, o Poeta tem, à custa de disciplina, a mente tomada de dados, vindos de todos os lados, e, em atividade, febril, feito complexo fabril que inclui minas, bancos, shoppings, restaurantes, hospitais, laboratórios, exige que as rimas sejam reais obras-primas e em chapas de aço – como de esculturas monumentais – e, de quebra, também de pedra, como o vigoroso Muro da Reforma, em Genebra. Sem sigilo: rimas como pirâmides: ex nihilo. Rimas ricas como de haicai com heaven, not sky. Quer versos... em pentagramas, e eletroencefalogramas. Não quer um sequer como São José na Sagrada Família: triste, last and least. Porque sabe que quando se empavona, é mais pavão o pavão, e que, quando ruge, é mais leão o leão. E que também na arte, o todo é sempre menor do que sua melhor parte. Mas, se tango é exagero argentino, o do Poeta é este, traquino: sabe que em todo poema – isso já vem do sistema - há estrofes marias-vão-com-as-outras, cruzetas, que são como rodas traseiras das carretas, que apenas levam peso, seguindo a dupla dianteira. Mas sua exigência primeira é a de que todo verso tenha igual importância e, por igual, se eternize: nada de corte de quilha n´água, que na hora se cicatrize. Quer rimas de trens com metrôs, Gestas e Dimas. Quer que nuvem rime com fumaça, Graciliano com Graça, assim como Manet com Monet, o que é com não é.

VOCÊ ESTÁ ESCREVENDO UM ROMANCE – AQUI “A BATALHA DE OLIVEIROS” (com que peguei o Prêmio INL - Instituto Nacional do Livro, 1988) – QUAN...

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VOCÊ ESTÁ ESCREVENDO UM ROMANCE – AQUI “A BATALHA DE OLIVEIROS” (com que peguei o Prêmio INL - Instituto Nacional do Livro, 1988) – QUANDO SEU PROTAGONISTA – OLIVEIROS – conversando com o pai, DIZ QUE NÃO CONSEGUE SUPERAR A ANGÚSTIA DE – PRESO POR MIL DÚVIDAS - não TER acompanhado O IRMÃO – ROLDÃO – NA GUERRILHA DO ARAGUAIA. DE REPENTE VOCÊ NÃO FAZ MAIS DO QUE DIGITAR O QUE OUVE ESSE PAI (com tipo que me evocou Freud) DIZER:

Bom, você pode enxugar o texto imenso do conhecimento, eliminando-lhe as repetições. O incêndio de Moscou em “Guerra e Paz” é o mesmo de Atlanta em “E o Vento Levou”? Reduza os dois a um só. Branca de Neve morde a maçã proibida, como Eva, e se transforma na Bela Adormecida?! Faça isso de novo. E o gentil robô dourado de “Guerra nas Estrelas” – o C3PO – é o mesmo deslumbrante cyborg do “Metrópolis” de Fritz Lang? “O Grito do Ipiranga”, do Pedro Américo, é a mesma cena eternizada pelo Meissonier, no mesmo ano, com Napoleão em Friedland, no lugar de Pedro I no Ipiranga, com quase os mesmos cavaleiros ouriçados ao redor? O início da “Eneida” de Virgílio - “Canto as armas e o varão”... ecoa nos “Lusíadas”? “As armas e os varões assinalados”?

1 - Eu, candidato pelo PT? Jamais seria eleito para o governo do estado, Derly: O que a oposição argumentaria para o povo, depois de cont...

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- Eu, candidato pelo PT? Jamais seria eleito para o governo do estado, Derly: O que a oposição argumentaria para o povo, depois de contar que fui à casa do José Américo de Almeida dizer a ele que A Bagaceira, tido como o romance que livrou a literatura brasileira da inglesa, foi feita em cima do Hamlet, e que ele foi o autor intelectual da morte de João Pessoa, e que escrevi um livro com a tese de que Jesus nunca existiu, e que perdi tudo que tinha e o que não tinha num longa-metragem chamado “O Salário da Morte”?: “É doido!”

Ofélia louca, em meu romanceamento do “Hamlet”, conforme narração de Horácio (paraibano, filho de traficante de pau-brasil), colega do prí...

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Ofélia louca, em meu romanceamento do “Hamlet”, conforme narração de Horácio (paraibano, filho de traficante de pau-brasil), colega do príncipe na universidade de Wittenberg, dentro de meu livro ‘História universal da angústia":

Mas o que é uma cidade, mesmo?: um milhão de janelas? De repente lá estavam, todas acesas e cheias de gente, numa resposta de Copenhague ao soberano. Gente que logo desceu à avenida com tochas, fachos, braseiros, a multidão crescendo ao receber afluentes entusiásticos das ruas laterais, adesões acorrendo de todos os lados da capital - de Østerbro, Nørrebro, Nyboder, Christianshavn, Holmen, Vesterbro - de repente todo mundo marchando e gritando ritmadamente, em coro:
Já urrei, já urrei, já urrei: Laertes já é o novo Rei!!!

Vi o irmão de Ofélia responder alguma coisa que não entendi e a multidão semovente festejar: “Hurra!” Acabara-se de saber que Claudius, para não despertar os furores dos sitiantes, ordenara que ninguém disparasse à chegada da horda, acrescentada agora dos que viviam no avesso da comunidade, debaixo das pontes ou na miséria da periferia.

Atingimos, finalmente, o castelo de Christiansborg, e me vi a invadi-lo - as portas estavam abertas! - em meio a um mar de marinheiros, seguido de operários, soldados, estudantes, prostitutas, uma meninada infernal, os de fora empurrando os que já estavam dentro, a multidão iluminando o ambiente com archotes. Vi os suíços, inertes, atrás de barricadas feitas de improviso. Introduzimo-nos no pátio, subimos - como uma enxurrada ao contrário - as escadarias para o primeiro andar, comprimindo-nos, derrubando-nos, avançando sempre. E inundâmo-lo, correndo pelos corredores, os assoalhos estrondando, a massa gritando em coro “Já urrei, já urrei, já urrei!”

Lembrei-me dessa cena no final de 1917, ao ler os telegramas de John Reed relatando como o povo russo entrara no Palácio de Inverno, em Petrogrado, sem encontrar resistência. E me lembrei dessas duas “tomadas” - a nossa e a soviética - ao acompanhar, muito depois, em um documentário de televisão, o desvendamento da fecundação humana, sentindo uma semelhança enorme entre estar no meio daquela correria invasiva de dinamarqueses... e constar entre os milhões de espermatozóides de uma ejaculação, vendo um Laertes ou Lênin lá na frente, rumo à sala do trono, o líder entrando útero adentro, avançando para o óvulo salvador e introduzindo-se nele, passando a ser o único - entre todos - com direito de continuar a Ser - e aí estava, talvez, o sentido absoluto do monólogo de Hamlet!

Ao entrar com o maremoto marujo, vi um grupo de soldados arrebentando a coronhadas tampas de caixas de que tiravam tapetes, roupas brancas, porcelanas, cristais, Laertes gritando: “Não é para isso que estamos aqui!”, com o que Bang e os esgrimistas botaram o grupo a correr. Aí a porta da sala do trono escancarou-se... e prendi a respiração: lá estavam Claudius e Gertrude, imponentemente coroados e entronizados! Na hora, não, mas agora percebo que... o rei não se abalara com aquele quid pro quo, de Hamlet - que considerava perigoso - substituído pelo até então inimaginável Laertes. A enciclopédia do mundo ainda iria inchar muito depois de tudo aquilo, acrescentada de uma série de fatos e coisas circunstanciais - do quadrúpede A da Torre Eiffel ao lépido Z de Zorro - mas Claudius, apesar da desvantagem no Tempo, foi bem superior a seus símiles posteriores - Luis XVI e Alexandre Romanov - que iriam subestimar seus inimigos.

Laertes fez sinal de que todos ficássemos para trás e caminhou firme no tapete vermelho, espada na mão, escoltado pelos espartaquistas, gritando ao rei:

- Eu quero, primeiro: o cadáver de meu pai!

Talvez a argúcia de Claudius tenha captado o detalhe: Laertes caminhara firme... no tapete vermelho, burocraticamente, apesar de todo o espaço em volta, aberto como a própria hora.

Gertrude lhe pediu:

- Calma, meu filho!

- Calma?!!! - o berro do rapaz ecoou no salão - Se uma gota sequer de meu sangue permanecer calma, todas as outras gritarão que sou um filho da p... e meu pai era corno!!!

Continuou a avançar, Gertrude ergueu-se e desceu ao seu encontro, para detê-lo. Claudius mandou-a parar:

- Deixe-o.

Ela se deteve a custo, ouviu o marido dizer:

- É tal a barreira com que o poder divino protege um rei, que a traição nada pode diante dela!

Laertes ergueu a espada, Gertrude partiu para cima dele (“A desgraçada gosta, mesmo, do demônio!”, foi o que concluí ), Claudius repetiu, no mesmo tom:

- Deixe-o, Gertrude.

E Laertes:

- Cadê meu pai?

Claudius:

- Infelizmente morto, meu filho...

Gertrude tomou a frente do moço e vociferou-lhe, apontando para o marido:

- Mas não por ele!

Claudius, para a mulher, no mesmo tom de voz:

- Deixe-o, em paz - e ergueu-se com coroa e cetro. Em pé sobre a enorme águia de asas escancaradas do tapete, o majestoso manto de veludo vermelho bordado a ouro revelando a espada incomparável, assegurou:

- Ninguém poderá impedi-lo de obter justiça, meu bravo!

Em que se baseava Claudius para tanta fleuma, a ponto de dispensar qualquer repressão ou sequer segurança com referência ao movimento dirigido pelo duelista... que - é verdade - não pisava fora do tapete? Suas mãos não tremem. De sua testa o suor não poreja. Não há movimentos visíveis em seu pomo de adão. E... - eis a causa da calma! - lá adiante, à direita, apenas visível entre as colunas e cortinas, dentro do alcance do chamado dele: a filha de seu Conselheiro... louca. Ela não abriu caminho na multidão, na sala do trono, falando de flores, como lindamente relatou Shakespeare. Claudius chamou-a, sem tirar os olhos do rapaz à sua frente:

- Fale com ele, Ofélia...

Então o moço viu o vulto num capote cinza, grande gola erguida até o alto da cabeça, lapelas costuradas uma na outra diante do rosto visível por entre a grade de linhas, ela autoencapsulada numa espécie de casulo protetor, luvas rotas. Ao reconhecê-la, o duelista teve um choque. Nos primeiros vinte milésimos de segundo, suas pálpebras saíram da posição de repouso, nos quarenta milésimos seguintes elas se fecharam desaceleradas e, por cinquenta milésimos seus olhos permaneceram cerrados, os globos oculares afundados em 1,58 milímetros. Aí reabriram numa velocidade três vezes menor que a do fechamento - e lá estava, confirmada: sua rosa de maio se aproximando, enrustida naquele casacão militar, o rosto atrás do alinhavo, conversando com alguém para nós invisível (Hamlet , evidentemente), falando com uma pressa que não lhe tirava a meiguice da voz rouca:

- O que há de terrível em não ser, meu bem? Veja o poder que tem os zeros, capazes de transformar unidades em milhares, milhões, bilhões, trilhões!

Voltou-se para o Rei:

- Você... tem medo da Morte? - virou-se para a Rainha - Você também? Ora, mas que bobagem! - e perguntou aos dois - Por que?

Disse a Laertes, gargalhando:

- Ainda não vi uma caveira que não estivesse morrendo de rir!...

Novamente a “Hamlet”:

- Ôh, meu querido, você simplifica demais! ... Claro que não pode chamar um gato covarde de rato. Como não pode chamá-lo de pato, se é otário. Ou, se é impertinente ( e ela riu muito ao dizer isso ), de chato. Mas como é a história? - verberou - Você mata meu pai - Laertes estremeceu, para o prazer de Claudius - Você mata meu pai e diz que seu crime, qualquer crime é inimputável, seja o morto um rato, pato, ou chato?

Prosseguiu:

- Por que teria Cristo vindo ao mundo nos salvar se não sabemos o que fazemos, como ele mesmo diz, inocentando-nos? Parece que é realmente como escreveu Paulo aos Coríntios - ela comentou para Jens Bang, sorrindo-lhe entre as costuras: “Deus tornou louca a sabedoria deste mundo, mundo que Ele resolveu salvar pela loucura da pregação, escolhendo as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias”. Não foi à toa que o próprio Cristo ficou meio desorientado, dizendo que não tinha vindo para curar os sãos mas os enfermos, ao contrário do que ensinava por toda parte quando afirmava que falava em parábolas para que aqueles que não estivessem destinados a ser salvos entendessem... e fossem salvos. Mas se há os que não estão destinados a ser salvos... que culpa têm? Que culpa tem qualquer um de nós, se está predestinado a fazer o que faz, assassinar um rei, por exemplo, não é, Claudius? Ou que mérito pode ter alguém em vingá-lo, não é, Hamlet?

Ela desovava todas as minhas conversas com o amante! Laertes se aproximou, a irmã lhe disse:

- Que posso fazer? O homem e a mulher são coisas semelhantes mas não idênticas, como a estrada e o rio, que avançam durante algum tempo na mesma direção... ( e ela quase morreu de rir ao comentar) aquiacolá um em cima do outro...

À Rainha:

- A estrada quase sempre cruza com dois, três rios, não é? Sua zanga é compreensível - ponderou, vendo-a melindrada - Afinal, seu caso não é único: são necessários dois machos para pressionar o ventre da rã e ajudá-la a expulsar os ovos que eles irão fecundar, sabia? - e, voltando-se para o Rei - As fêmeas têm suas necessidades específicas, meu caro... Por outro lado, o que é uma traiçãozinha de vez em quando? De quem a culpa, se o pobre Judas foi comer o bocado de pão com Jesus e, diz o Evangelho, “com o bocado entrou Satanás” - vê como funciona? E o desgraçado enforcou-se de tanto remorso - como está no Evangelho - ou atirou-se do alto de um despenhadeiro, como está no Atos dos Apóstolos - são informes informes, ninguém tem certeza de nada. Há uma... meta na História, e ela age à nossa volta e em nós, invisível como um rio que, à noite, passando por entre o sono e o sonho, rochas e bosques, faz com que girem as mós e se movam os vultos incrivelmente pesados - de barcos carregados - para seu destino. Você - disse ao Rei, que recuou, lívido - você matou seu irmão pra ficar com a mulher dele e com o Poder, não foi, Neném? Mas foi porque Deus assim o quis, Hamlet me disse, ou Ele não teria dito a Pilatos: “Nenhum poder terias contra mim se de cima não te fosse dado.” Você tem razão - disse novamente a Hamlet - A cor existe apesar dos cegos?, o som existe, apesar dos surdos? As luminosas águas verdes movem-se sobre profundas sombras. É tudo muito estranho... até no que parece mais natural, como a Lua - essa... coisa gigantesca passando o tempo todo aí em cima, como quem não quer nada, como se fosse apenas luz.
Como o Sol - esse fogo que não para de consumir-se, eternidade afora. Igualmente “natural”, para você, meu amor, foi matar papai - disse ao invisível Príncipe - um gesto tão inevitável quanto o sono durante um sermão, não foi?: É pecado? É, não é, Laertes?, dormir durante o sermão?, mas quem é que pode evitá-lo?

Houve um longo silêncio na Sala do Trono. Ofélia se abraçou ao irmão e os dois choraram juntos, como nós todos, espartaquistas e o povo, a maioria - percebi-o ali - do Holger Danske - mudos diante da cena. Depois Ofélia se soltou, disse a “Hamlet”:

- Não é fácil entender, meu amor!....

Laertes implorou, de olhos fechados:

- Ôh, Deus, tem piedade de nós!...

- A senhora falou em piedade divina? - Ofélia perguntou ao Rei - e o que me diz dos terremotos, maremotos, furacões, erupções, enchentes, secas, pestes matando milhares de vítimas, depois de torturá-las mais do que qualquer carrasco? Horácio - disse-me, fazendo-me estremecer, pois não imaginei que pudesse ter dado por mim, naquele transe... horaciano - Você viu, da janela do “Neptun” aquele ror de gente asquerosa linchando os três rapazes como se fossem espiões? Não seria chocante ouvir alguém naquele momento citar Paulo Apóstolo dizendo que é Deus quem faz em nós o querer e o fazer segundo a Sua vontade? Entendo, meu amor - insistiu com Hamlet - entendo perfeitamente, mas é assim que a coisa funciona. Por insuficiente, a vida humana foi por nós acrescida de deuses, semideuses, vitórias aladas, faunos, fadas, ogros, ninfas, ... espectros, santos, anjos, a Trindade, Dom Quixote, ... ou apenas de amantes, se se tem os pés no chão, como sua mãe.

- Sim, claro, você é doida por ele - disse à Rainha - Já reparou como todo preso segura-se à grade? Laertes - voltou-se para o irmão, no que suspirou fundo - O que resta é vivermos intensamente nossos fragmentos de vida, exatamente como vimos no que resta dos relevos do Arco do Triunfo de Tito em Roma, lembra-se dele?, lembra-se de como nos impressionamos com o ímpeto daqueles cavalos sem patas, os corpos vivos apesar das cabeças esfaceladas?...

E, depois de algum tempo, caminhou até onde eu estava. Enxuguei as lágrimas de meu rosto ao vê-la autoenclausurada no capote costurado até a testa, ela me dizendo entre as brechas - sempre às pressas -, face à minha emoção:

- Meu raciocínio não para, não para, não para: há tanta coisa para se compreender, santo Deus! ...mas não é fácil trancar a gaveta com a chave dentro!

Foi-se.

Fora-se a revolução de Laertes e de sua multidão. Fora-se a paz entre Gertrude e Claudius.

Minha paixão pela doidinha... cresceu.

Referência: História universal da angústia ■ Waldemar J. Solha
Editora Bertrand, 2005 Disponível em https://www.amazon.com.br

Nelson Gonçalves e Adelino Moreira lançaram em 58 o samba-canção Escultura , em que o boêmio – cansado de tanto amar – começa a... escultu...

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Nelson Gonçalves e Adelino Moreira lançaram em 58 o samba-canção Escultura , em que o boêmio – cansado de tanto amar – começa a... esculturar... uma mulher-fantasia, contando, para isso, com a voz de Dulcineia, a malícia de Frineia, a pureza de Maria, além do sorriso e o olhar de Gioconda, de du Barry, o glamour, e o porte de nobreza... de madame Pompadour.

Alguém disse que é preciso estar sob teto da Sistina para se ter ideia do que um ser humano é capaz. Eu diria o mesmo sobre a leitura de q...

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Alguém disse que é preciso estar sob teto da Sistina para se ter ideia do que um ser humano é capaz. Eu diria o mesmo sobre a leitura de qualquer dos maiores poemas — clássicos e contemporâneos —, embora a pintura tenha a vantagem de que, numa vista d'olhos, se mostra, de imediato, inteira. Mozart dizia que, ao imaginar um concerto ou sinfonia, podia abarcar a obra com um único olhar, “como se se tratasse de um quadro ou estátua”, e esse momento, assegurava, “é indescritível”.

Se lhe mostro uma sequência de fotogramas, depois digito e lhe exibo e/s/t/a// s/é/r/i/e// d/e// c/o/n/s/o/a/n/t/e/s//e//v/o/g/a/i/s, alé...

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Se lhe mostro uma sequência de fotogramas, depois digito e lhe exibo e/s/t/a// s/é/r/i/e// d/e// c/o/n/s/o/a/n/t/e/s//e//v/o/g/a/i/s, além de uma tira numa revista de h/i/s/t/ó/r/i/a/s//e/m// q/u/a/d/r/i/n/h/o/s, você terá vivido três experiências semelhantes.

Os gibis e o cinema funcionam com idêntica magia (ainda maior) da escrita — que se processa em sua mente, não fora dela — como se vê neste trecho:
L/a/n/c/e/l/o/t ar/r/e/m/e/s/s/a o m/a/c/h/a/d/o, q/u/e s/a/i g/i/r/a/n/d/o n/u/m v/ó/r/t/i/c/e a/t/é e/n/c/r/a/v/a/r-s/e n/o p/e/i/t/o d/e M/o/d/r/e/d/:

Quando o maestro José Alberto Kaplan ficou paraplégico (em virtude da siringomielia que terminaria por derrubá-lo em 2009), passei a levá...

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Quando o maestro José Alberto Kaplan ficou paraplégico (em virtude da siringomielia que terminaria por derrubá-lo em 2009), passei a levá-lo em meu carro, todas as manhãs de sábado, à residência de seu grande amigo – logo meu, também - advogado Dr. Paulo Maia -, dono da maior coleção de LPs, vídeos, CDs e DVDs de música erudita da Paraíba. Era um hábito do amigo judeu argentino – de quem eu fora parceiro na Cantata pra Alagamar e no musical Burgueses ou Meliantes - , que vinha de décadas. Tomando um bom gin com tônica (“a bebida da rainha”, dizia o Dr. Paulo) , vendo o mar logo ali, atrás da vidraça, era incrível, naquelas sessões matinais, não só acompanhar as riquíssimas programações de grandes concertos em som e imagem de alta fidelidade, como absorver algo da vasta cultura musical dos dois e dos outros frequentadores, os benditos poucos, the happy few, band of brothers: jornalista Luiz Carlos Nascimento Souza, Yerko Pinto – então spalla da Sinfônica local e integrante do prestigiado Quinteto Paraíba, além de Hector Rossi - que fora professor de contrabaixo de meu filho Alexei Dmitri (1966-2017), mais o ex-governador Tarcísio Burity (1938-2003) que, em tempos áureos, não só construíra o gigantesco Espaço Cultural José Lins do Rego da capital,

         RANGEM AS ENGRENAGENS, TREME A TERRA, Há UM RUMOR. E horror!, ... mas a multidão se deslumbra: na sombra que a todos obu...

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RANGEM AS ENGRENAGENS, TREME A TERRA, Há UM RUMOR. E horror!, ... mas a multidão se deslumbra: na sombra que a todos obumbra, tudo, agora, relumbra: a Pedra... se abre... como em corte de sabre, e o que se vê ... é estupor! Na escuridão resplandece, com todos os seus vitrais, com profusão de torres

Prêmio Jabuti de Poesia 2015 Por coincidência, poucos dias antes de ler esse livro de ALEXANDRE GUARNIERI, eu resenhara o ERRE BALADA...

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Prêmio Jabuti de Poesia 2015


Por coincidência, poucos dias antes de ler esse livro de ALEXANDRE GUARNIERI, eu resenhara o ERRE BALADA, de Biu Ramos, em que o dito R. morre “com uma faca nas entrelinhas”, daí que se lê no seu epitáfio, isolado na última página:



Aqui jaz Digitus Erre Linhares.
Cap. 1, pag 13 – cap. 25, pag. 98.
Sua vida foi um livro aberto.



Guarnieri escreve na página 16 de Corpo de Festim, em
sangue | suor / e celulose (ii):



... W. J. Solha tem recado curto e grosso : Leiam O LABORATÓRIO DAS INCERTEZAS. Paulo Vieira (UFPB 2013) é dono de um senhor currículo, ...

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... W. J. Solha tem recado curto e grosso:

Leiam O LABORATÓRIO DAS INCERTEZAS. Paulo Vieira (UFPB 2013) é dono de um senhor currículo, que vai de pós-doutorado em Paris, junto ao grupo Théâtre du Soleil (1996), ao doutorado na USP com tese sobre Plinio Marcos (A Flor e o Mal, Firmo, 1994); e do mestrado com dissertação sobre Paulo Pontes (A Arte das Coisas Sabidas, UFPB 1998), à publicação de bons romances – como O Ronco da Abelha (Beca) e O Peregrino (FCJA) -, mais um Bolsa Funarte de Estímulo à Dramaturgia (2007), com o texto Anita, etc, etc, além do que é chefe do Departamento de Artes Cênicas da UFPB, universidade para a qual criou o Mestrado Institucional em Teatro e, com seus colegas, a Especialização em Representação Teatral.

Entre tantas outras coisas, impressionou-me, no romance “O Jogo da Amarelinha” (“Rayuela”) , de Júlio Cortázar, o problema de seu persona...

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Entre tantas outras coisas, impressionou-me, no romance “O Jogo da Amarelinha” (“Rayuela”) , de Júlio Cortázar, o problema de seu personagem Horácio Oliveira:

“el sentimento de no estar del todo”,

que deu nome para algo estranho que eu também vivia.

Num ensaio posterior a respeito, Cortázar diz se sentir “siempre un poco más a la izquierda o más al fondo del lugar donde se debería estar”.

Quando lancei pela Codecri, em 84, ZÉ AMÉRICO FOI PRINCESO NO TRONO DA MONARQUIA, em que apontava semelhanças d"A Bagaceira" - &...

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Quando lancei pela Codecri, em 84, ZÉ AMÉRICO FOI PRINCESO NO TRONO DA MONARQUIA, em que apontava semelhanças d"A Bagaceira" - "que rompia com a influência da literatura inglesa sobre a brasileira" - com o "Hamlet" - do mais inglês dos ingleses - Shakespeare -, semelhanças que incluíam pontos marcantes na vida do próprio autor, que literalmente transitava num palácio, o da Redenção, nas tramas que nos levaram à Revolução de 30, tive o livro contestado por Hildeberto Barbosa Filho, José Octávio de Arruda Mello e Wellington Aguiar - três nomes de peso, no estado - cada um num dos nossos grandes jornais, na época: Correio da Paraíba, A União e Jornal da Paraíba. Meu "ensaio com estrutura de romance policial" foi encarado pelos três como coisa tipo cloroquina do Bolsonaro, conceito com que permanece até hoje.

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Quando meu livro saiu em capítulos, pelo Correio da Paraíba, bem antes da publicação no Rio, o escritor, já longe das palavras entredentes que me dirigira quando eu fora à sua casa lhe falar da obra, me mandou um cartão contido: “Você leu meu romance com lentes de aumento. Seu estudo é lapidar e profundo. Mas não pode ter havido influência. Os dramas humanos se repetem”.

Na verdade, eu via algo, ali, como o que Joyce - explicitamente - fizera com a "Odisseia" ao criar o "Ulisses", publicado oito anos antes d’A Bagaceira". Talvez até ... inconscientemente, pois quando - depois do primeiro choque nosso - ele me acompanhou até o portão de sua casa, em Tambaú, eu lhe perguntei se já notara como o começo do romance dele, com os flagelados indo à casa-grande do Marzagão pedir ajuda, repetia o começo do "Édipo", com o povo de Tebas, assolado pela peste, fazendo o mesmo no palácio real, parou e disse: "É mesmo!"

Em 2005, por sinal, em minha HISTÓRIA UNIVERSAL DA ANGÚSTIA, publicada pela Bertrand Brasil, eu incluiria um romanceamento, meu, do "Édipo" e, outro, do "Hamlet".

Tudo isso começou quando associei o Lúcio - angustiado filho do Dagoberto e "que se faz de doido pra viver melhor" - a Lucius Junius Brutus, modelo evidente da saga dinamarquesa de Shakespeare: morto, em Roma, seu pai, Rei Tarquinius, o jovem – pra escapar com vida e vingar-se – fizera-se de doido (daí seu apelido de Brutus, que acabaria sendo o de sua família).
O resto foi fácil. Se o angustiado estudante de direito, Lúcio - de férias na fazenda Marzagão, em Areia - era o angustiado Príncipe universitário de Wittenberg - de férias na Dinamarca, o pai, Dagoberto Marçau, dono da terra, era o Rei Cláudio, padrasto de Hamlet. Soledade, paixão de Lúcio (e do pai dele), era Ofélia - paixão do Príncipe - e, ao mesmo tempo, Gertrudes, Rainha da Dinamarca (paixão do padrasto e - segundo Freud - também do filho). O falastrão Valentim - pai de Soledade - era o falastrão Polônio - pai de Ofélia, que ao vê-lo morto, enlouquece e sai cantando algo que falava de uma donzela que, no dia de São ... Valentim, perdera a virgindade. Pirunga - irmão de criação de Soledade - era Laertes - irmão de Ofélia.

'HAMLET E O COMPLEXO DE ÉDIPO, de ERNEST JONES, discípulo e biógrafo de Freud, foi essencial para mim, nesse estudo. Tudo que, nele, é hipótese, encontra, n’A BAGACEIRA", possibilidade da confirmação. Pergunta-se, por exemplo: Laertes teria, mesmo, um amor incestuoso pela irmã Ofélia, como assegura Jones? N'A Bagaceira”, Pirunga é apenas irmão de criação de Soledade e a deseja ansiosamente, quer casar-se com ela. O Príncipe sentiria, mesmo, um amor criminoso pela mãe? N'A Bagaceira”, Lúcio não consegue possuir Soledade, porque ela se parece tanto com senhora do Marzagão - falecida no parto em que o rapaz nascera - que ele chega a fazer que desenha o retrato da moça, mostrando-lhe, em seguida, a fotografia da finada. É isso.

A vida fascina justamente por seu intrincado modo de agir, que não se esclarece quando cloroquinamente tratado.

O fascínio de ver Ivo Barroso comentando a tradução de L'Amant – De Marguerite Duras – feita por Denise Bottmann Em maio de 2007, e...

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O fascínio de ver Ivo Barroso comentando a tradução de L'Amant – De Marguerite Duras – feita por Denise Bottmann


Em maio de 2007, ele publicou na FOLHA DE SÃO PAULO o artigo “Duras: A Doença Mortal de Escrever”. Quatro anos depois, no blog Gaveta do Ivo, acrescentou:

- Denise costuma dizer que não gosta de traduzir literatura, mas quando o faz é com resultados irrepreensíveis, como neste caso.

Como Ivo Barroso é o grande tradutor de autores como Ítalo Calvino, Breton, Jane Austen, Umberto Eco, Herman Hesse, Rimbaud e Shakespeare, pedi-lhe – com viva curiosidade - que justificasse o adjetivo “irrepreensíveis”. Ele me atendeu, quatro dias depois, no mesmo blog, com a matéria DURAS AINDA:

- Em primeiro lugar, no perfeito conhecimento das línguas, de partida e de chegada. Depois, seus dotes de escritora. Finalmente sua vasta cultura humanística, que lhe permite avaliar estilos, fases, tempos, adequações enfim.

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Ele nos passa, então, um trecho do original, seguido de tradução de Denise Bottmann. Para que se sinta melhor a comparação, junto cada frase em francês, à que ela verteu para o português. Mesmo que você – como eu – não domine o francês, é gostosa essa aproximação às duas vozes:

Très vite dans ma vie il a été trop tard. Muito cedo foi tarde demais em minha vida. A dix-huit ans il était déjà trop tard. Aos dezoito anos já era tarde demais. Entre dix-huit ans et vingt cinq ans mon visage est parti dans une direction imprévue. Entre os dezoito e os vinte e cinco anos, meu rosto tomou um rumo imprevisto A dix-huit ans j’ai vieilli. Aos dezoito anos envelheci. [...] Ce vieillissement a été brutal. [...] Esse envelhecimento foi brutal. Je l’ai vu gagner mes traits un à un, changer le rapport qu’il y avait entre eux, faire les yeux plus grands, le regard plus triste, la bouche plus définitive, marquer le front de cassures profondes. Eu o vi ganhar meus traços, um a um, mudar a relação que existia entre eles, aumentar os olhos, entristecer o olhar, marcar mais a boca, imprimir profundas gretas na testa. Au contraire d’en être éffrayée j’ai vu opérer ce vieillissement de mon visage avec l’intérêt que j’aurais pris par exemple au déroulement d’une lecture. Ao invés de me assustar, acompanhei a evolução desse envelhecimento de meu rosto com o interesse que teria, por exemplo, pelo desenrolar de uma leitura Je savais aussi que je ne me trompais pas, qu’un jour il se ralentirait et qu’il prendrait son cours normal. Sabia também que não me enganava, um dia ele diminuiria o ritmo e retomaria seu curso normal . Les gens qui m’avaient connu à dix-sept ans lors de mon voyage en France ont été impressionnés quand ils m’ont revue, deux ans après, à dix-neuf ans. As pessoas que haviam me conhecido aos dezessete anos, quando estive na França, ficaram impressionadas ao me rever dois anos depois, aos dezenove. Ce visage-là, nouveau, je l’ai gardé. Eu conservei aquele novo rosto Il a été mon visage. Foi o meu rosto. Il a vieilli encore bien sûr, mais relativement moins qu’il n’aurait dû. Claro, ele continuou a envelhecer, mas relativamente menos do que deveria. J’ai un visage lacéré de rides sèches et profondes, à la peau cassée. Tenho um rosto lacerado por rugas secas e profundas, a pele sulcada. Il ne s’est pas affaissé comme certains visages à traits fins, il a gardé les mêmes contours mais sa matière est détruite. Ele não decaiu como certos rostos de traços finos; manteve os mesmos contornos, mas sua matéria se destruiu. J’ai un visage détruit. Tenho um rosto destruído.



Ivo comenta:
- A perícia com que a frase francesa é vertida para o português, mantendo-lhe o mesmo timbre, a mesma inflexão, o mesmo contorno, o mesmo sentido, a mesma validade emocional – mas sendo sem dúvida uma frase NOVA – é o que distingue a excelência da tradução. Além disso, é necessário um envolvimento com o que se traduz – seja para amá-lo, criticá-lo ou odiá-lo – mastigando-o, ruminando-o sem deixar qualquer dúvida quanto ao significado explícito ou meramente intencional.

A tradutora lhe confidenciou:

- como vc vai ver, é um ritmo basicamente recitado, para ser lido em voz alta – como uma história que a gente vai lembrando e contando para alguém, em que as repetições não são tanto para dar ênfase, mas como quando a gente repete alguma palavra para continuar o fio da narrativa, tentando lembrar direito o que aconteceu. o léxico é absolutamente simples (como kafka – com 3 meses de alemão a gente já consegue ler o kafka porque é o vocabulário mais simples que há). isso reforça muito a sensação de que é uma história contada em voz alta para algum amigo. a sintaxe é muito interessante, como se fosse um francês reformado, tirado da caixa tradicional (vc deve saber que a língua mais formalizada, mais petrificada do mundo é o francês…) e reposto numa ordem mais simples também, mais direta, mais enxuta, embora repetitiva – muito, muito desbastado, com algumas poucas liberdades. tentei manter a simplicidade e o ritmo (li várias vezes em voz alta, em surdina, só mentalmente – acho que deu pra passar um pouco esse ritmo de cantilena). quanto a essa “purificação” sintática que ela faz, é mais difícil sentir em português, mas faz com que desapareça aquele ar meio emproado que as traduções do francês costumam ter.

O editor Maurício Ayer:

- A tradutora Denise Bottman comenta que sua atenção se deteve naquilo que chama de “untuosidade” da fala da personagem. “Pareceu-me um tipo de texto eminentemente oral – quando lido em voz alta, você sente uma espécie de onda, não fluida, não líquida, não avassaladora nem, ao contrário, ‘embaladora’. É uma fala untuosa, diria eu – não chega a envolver nem arrastar, mas como que impele leve e inexoravelmente o leitor, como se seus pés estivessem mergulhados (não presos) em um ou dois palmos de lama.

Ivo encerra:

- São cuidados e envolvimentos dessa natureza que levam a uma tradução irrepreensível.

A dedicatória, no “Grande Sertão: Veredas”: Aracy, minha mulher, Ara, pertence este livro não me levou a me perguntar sobre ela...

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A dedicatória, no “Grande Sertão: Veredas”:

Aracy, minha mulher, Ara,
pertence este livro

não me levou a me perguntar sobre ela, nem o símbolo que encerra o romance, o “oito deitado”, do infinito, a lemniscata ou laço de Moebius, ou Moebius - sobrenome original, dela.

Foi necessária uma conjura mineira pra que eu viesse a ter alguma noção acerca dessa pessoa fora do comum. O escritor mineiro, meu amigo Hugo Almeida, fez a orelha do romance do também mineiro Eustáquio Gomes – O Vale de Solombra - , que saiu pela Geração Editorial, que pertence ao escritor, outro mineiro, Luiz Fernando Emediato, onde, nas páginas 21 e 22, se lê que no consulado brasileiro de Hamburgo o vice-cônsul... mineiro - João Guimarães Rosa (depois “escritor traduzido e celebrado”) – facilitava a fuga de judeus para o Brasil, inclusive com vistos e passaportes, estes sem a “estrela de Davi” e o “J” vermelho. Lê-se, também, que isso na verdade não era iniciativa dele, mas de sua companheira, a paranaense Aracy Moebius - chefe da seção de passaportes do consulado - que liberava tudo em prazos recordes, sendo conhecida, nos círculos judaicos, como “o anjo de Hamburgo”.

Ficção do Eustáquio?

Não. Há uma pedra com o nome de Schindler no Jardim dos Justos, de Jerusalém. E outra, com o de Aracy Moebius Carvalho Guimarães Rosa.

Conta a “Concise Encyclopedia of the Holocaust”, que nem a Kristallnacht - Noite dos Cristais, de 09/11/1938 - , em que os nazistas destruíram sinagogas, residências, e estabelecimentos comerciais de judeus na Alemanha e na Áustria, dando início ao que seria a chamada de “solução final”, nem a ordem do Itamarati – então pró-Hitler – que, na Circular Secreta Nº 1.127, de Getúlio, determinava que não se mandassem hebreus pro Brasil, fizeram com que essa Aracy parasse. Metia os vistos no meio da papelada que o cônsul-geral – coisa bem de brasileiro - assinava sem ler, e chegava a esconder seus protegidos em casa, para, depois, transportá-los no porta-malas do carro do consulado, um Opel Olympia alemão.

O casal Aracy/Guimarães Rosa foi obrigado a voltar ao Brasil em 1942, quando o virandum, numa virada de casaca muito misteriosa, declarou guerra ao Deutschland über Alles.

Ela, bela filha de português com alemã, separara-se do primeiro marido, alemão, em 34, e se mandara com o filho Eduardo Tess para a terra do Führer, onde se empregara no consulado brasileiro de Hamburgo, cujo cônsul adjunto era o jovem João Guimarães Rosa, que também vinha de um casamento arruinado. Amaram-se, casaram-se no México, viveram juntos até a morte do escritor em 1967, aos 59 anos.

Mas, voltando à dedicatória no Grande Sertão: Veredas. Olha que pergunta cavilosa de Alfredo Fressia, num pequeno ensaio sobre a mulher do escritor:

- “Por qué Guimaraes le dedicó ese libro, de 1956, y no los precedentes, como Sagarana, de 1946? La historia de Grande Sertao…, recreada por la memoria caprichosa de Riobaldo, quien va recomponiendo su amor por otro hombre - que se revelará un travesti masculino -, tiene una parte de desobediencia, un juego entre la rebeldía y la aparente aceptación, que podría contener algo de Aracy, la mujer que supo desafiar el orden y las órdenes de su tiempo.”

Claro. Ela não deu a mínima pros nazistas, pro Estado Novo, nem pra nossa ditadura pós-64, quando, por exemplo, um ano após a morte de Guimarães Rosa, escondeu em seu apartamento, no Arpoador, ninguém menos do que o paraibano Geraldo Vandré, perseguido por causa da canção “Pra não dizer não falei das flores”.

Mas parece que ela foi além.

A judia alemã Maria Margarethe Bertel Levy era lindíssima. De pais ricos e liberais, falava sete linguas e viajava muito. Até Hitler chegar ao poder. Aí, com a ajuda de Aracy Moebius, ela e seu marido Hugo partiram da Alemanha no navio Cap Ancona e chegaram ao Brasil com a fortuna intacta. Uma - brasileira, católica -, a outra - alemã, judia, as duas, belíssimas, iniciaram ali uma ligação que se prolongaria no Rio até o fim de suas longas vidas.

Na entrevista que deu à repórter Eliane Brum, da Revista Época, já no fim da vida, Margarethe disse:

- Entre mim e Aracy foi um golpe de amor. Só que entre duas mulheres. Eu era sexy. E Aracy?Linda, provocante, um corpo maravilhoso.

"Quando uma ficava doente – conta a reportagem - , a outra também ficava. Parecia que sentiam as mesmas coisas. Em 2003 as duas caíram, uma em casa, outra na rua, e acabaram ficando de cama até o final."

Enquanto Margarethe morria no hospital, a respiração de Aracy Moebius, em casa, começava a falhar. Maria Margarethe Bertel Levy morreu em 21 de fevereiro de 2011– e Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa em 3 de março. Ambas com 102 anos.
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É de Piero della Francesca o afresco que a vila de Sansepolcro caia, sem reação, como indigno da terra de tão bello e sinistro nome , que ...

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É de Piero della Francesca o afresco que a vila de Sansepolcro caia, sem reação, como indigno da terra de tão bello e sinistro nome, que assim o amortalha, com Piero vivo, no interior da Itália.

O que há de ser, no entanto, tem muita força, como se lê n´A Bagaceira, em que se reformula, queira ou não queira, o que diz o vidente do Édipo Rei: o mesmo Que será, será, sucesso da Doris Day. A cal pura conserva a pintura.
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