Tangeu os bois da pastagem
e o leite virou água
nas torneiras Rio
de sua Casa Comercial.
O outro rio da Fazenda
seguiu cortando caminhos
com Fama
Tramontina Pial
marcas sem céu.
Nunca pensei muito nele. Muito menos em fazer planos a distância. O tempo sempre me pareceu tão longe, mas tão longe, que minha imaginação não alcançava. Vivi sempre o dia a dia. No máximo enxergando o fim de semana próximo, o Natal próximo, meu próximo aniversário.
Com atraso involuntário de alguns anos, eu alço voo na releitura de “Cesário Alvim 27”, livro de reminiscências de Abelardo Jurema Filho.
Mantenho esse livro guardado em espaço de minha biblioteca, reservado aos autores paraibanos, dele me apropriando quando preciso de uma referência sincera sobre a ditadura militar de quem viveu as amarguras de uma época, que desejamos nunca mais reviver.
Viveu cabalísticos sessenta e dois anos: francês que chacoalhou a vida musical de seu país, Hector Berlioz nasceu no início do século XIX. Lembrando-me aqui de meu admirado professor Didier Jean Georges Guigue que, durante a graduação, apresentou-me seu conterrâneo de forma mais íntima e esmiuçada do que dele já conhecera até então. Um pesquisador do timbre, das instrumentações, seu livro sobre orquestração – tempos depois, revisado e ampliado por Richard Strauss, que com sua obra, muito aprendeu – é marco original até hoje.
Corria o ano de 509 a. C., Roma tinha em seu comando o rei Tarquínio, o Soberbo, que se apoderou à força do poder e instaurou a primeira monarquia hereditária da cidade. Seu filho, Sexto Tarquínio, queimando de desejos, estupra Lucrécia, mulher de seu primo Lúcio Tarquínio Colatino, dentro do recinto sagrado do altar doméstico da jovem. Sentindo-se desonrada e maculada, Lucrécia confessa ao pai e ao marido o estupro e se suicida. Esse ato ignóbil perpetrado por Sexto leva à expulsão dos Tarquínio de Roma e, com eles, da monarquia.
Foi no século passado. Meu pai se vestindo para sair ao trabalho na loja de tecidos. Naquele tempo, anos cinquenta, os vendedores de balcão no comércio ainda raso da Rua Beaurepaire Rohan e adjacências se punham em traje formal. Era costume adotado. Demorava-se no quarto, engalanava-se para a freguesia razoável. Os shoppings não existiam e o passeio pela área comercial era preferido por muitos que iam gastar a tarde naquelas ruas pacatas, sem riscos maiores de assaltos, mesmo os de pequena monta.
Nas décadas de 1960 e 1970 a cena se repetiu em auditórios, teatros e até em respeitáveis salas de concerto, em cerca de quarenta países de quatro continentes. Na primeira parte do espetáculo, um duo de violões se apresentava em trajes compostos, compatíveis com a música que era tocada: peças de Rimsky-Korsakov, Manuel de Falla, valsas e fantasias de Chopin. Na outra parte do concerto, os mesmos instrumentistas voltavam ao palco vestidos com roupas coloridas, adornados com cocares e penas indígenas. Tocavam, então, músicas do melhor cancioneiro popular internacional como "Begin the Beguine", "Moonlight Serenade", "La Mer", "Over the Rainbow" e "I'm Getting Sentimental Over You".
O exotismo da apresentação causava impacto inesquecível nos espectadores. Mas o duo não impressionava os ouvintes apenas pelo aspecto inusitado e exótico. Em 1970, depois de um recital realizado na Alice Tully Hall, em Nova York, um crítico de música do jornal The New York Times escreveu:
“Their adaption for two guitars of such piano or violin pieces as Chopin’s ‘Tristesse’, ‘Hora Stacatto’ and ‘Liebestraum’ gave these overly familiar pieces new colors that made them seem remarkably fresh”.
“A adaptação feita pelos Índios Tabajaras para dois violões de peças escritas para piano ou violino, como 'Tristesse', de Chopin, 'Hora Stacatto' e 'Liebestraum', deu novas cores a essas famosas canções, que as fizeram parecer incrivelmente atuais”.
(livre tradução do ALCR)
Um crítico musical canadense, após assistir uma perfomance dos músicos, elogiou a qualidade das transcrições para dois violões, que foram feitas do "Noturno Op. 9, nº 2" de Chopin e de "La Ronde Des Lutins", composta originalmente para violino pelo italiano Antonio Bazzini.
A dupla de violonistas radicara-se, nos primeiros anos da década de 1960, nos Estados Unidos, onde era admirada por importantes artistas norte-americanos, como Chet Atkins, renomado violonista, e Don Gibson, autor do hit "I Can’t Stop Lovin’You", interpretado por Ray Charles. Os músicos gravaram álbuns com o duo. Na época, os discos dos dois instrumentistas eram muito tocados nas rádios, ao ponto de influenciarem um jovem músico mexicano que iniciava sua carreira e que depois se tornaria o conhecido guitarrista Carlos Santana.
"Mas, afinal que dupla de músicos era essa?", perguntaria um impaciente leitor. O duo de violões era formado por dois irmãos brasileiros, nascidos na primeira metade do século passado em uma isolada aldeia de índios da etnia Tabajara, localizada na serra do Ibiapaba, em uma região fronteiriça entre o Ceará e o Piauí. Dessa origem dos componentes vinha o nome com que eles próprios se batizaram: Índios Tabajaras. Dois depoimentos, prestados por um dos componentes da dupla, permitem que se conheça a saga desses índios, que saíram dos grotões do Nordeste brasileiro para se apresentar nos palcos de todo o mundo. Um dos testemunhos foi dado em 1981 ao jornalista Edwin McDowell, do The New York Times. O outro, em 2004, a Luís Nassif, então colunista da Folha de São Paulo.
Na entrevista a Nassif, Natalício Lima, que era o solista da dupla, narra que o seu primeiro contato com o som de um instrumento musical ocorreu quando, acompanhado de dois irmãos, encontrou um violão abandonado embaixo de uma ingazeira, em local próximo à aldeia onde viviam. Relata ele:
“Metemos a mão, fez aquele som, levamos um susto. Levamos para a tribo. O violão causou transtorno na tribo. Havia outro som que escutávamos às seis da tarde, e não sabíamos o que era. Nós, pequenos, pensávamos que era o violão. Era o sino de cidade a uns 60 quilômetros dali, o sino de Ibiapina”.
Por volta de 1929, uma tropa de militares do exército, chefiada pelo tenente Hidelbrando Moreira Lima, passou pela aldeia que se encontra atualmente localizada em terras do município cearense de Ubajara. Natalício diz que, naquela ocasião, foi a primeira vez que viu homens brancos e negros, acrescentando:
“Era muita gente e mudou nossa história [...] A tropa de militares foi para lá esperar uma tropa que vinha do Piauí [...] Passaram por lá vinte dias. Fizemos amizade”.
Um capelão do exército batizou muitos índios. Antes do batismo cristão, Natalício chamava-se Muçaperê e o seu irmão, parceiro na dupla, que tinha o nome Herundy, passou a ser Antenor Lima. Natalício também recorda:
“quando os soldados se foram começamos a sentir saudades do café, bolacha redonda de meio palmo e carne seca [...] meu pai disse: nós vamos procurar nossos amigos [...] era difícil porque eles tinham carro, canhões com rodas, e depois da chuva grande, com a terra ainda molhada, deixaram sulco e nós seguimos”.
Usando roupas que haviam sido descartadas pelos soldados, pai, mãe e catorze filhos, partiram em viagem. Por cerca de três anos, caminharam pelos sertões, veredas e estradas. Durante o percurso, conforme depõe Natalício, “algumas vezes cantávamos com aquele violão que havíamos encontrado [...] vimos violonista tocar e passávamos o dia inteiro escutando”. Ao chegarem ao Rio de Janeiro, em 1937, foram registrados com o sobrenome Moreira Lima, que era o do militar de quem tinham ficado amigos. Começaram a tocar na rua:
“a música nos entrou muito forte [...] não aprendi a ler mas, aprendi a tocar melhor violão [...] nos jogavam algum dinheiro e a gente ia vivendo bem, mas dava muita vergonha porque éramos grandes, já”.
Em 1945, foram fazer um teste para tocar em uma rádio: “a gente não dizia que era índio, porque as pessoas tinham medo”. Conseguiram um contrato com a ajuda de um diretor da rádio: “Aí contamos que nós éramos Tabajara. Aí ele disse que ia anunciar a gente como índios Tabajara. E o povo gostou”.
Passaram a tocar em circos, clubes e teatros modestos. Em meados dos anos 1950, começaram a excursionar, fazendo muito sucesso por toda a América Latina. Resolveram ir para o México. Lá, assistindo ao filme "A Song to Remember" (À Noite Sonhamos, uma película biográfica romanceada de Chopin, de 1945) tiveram o primeiro contato com a música erudita:
“Quando chegamos ao México, escutei música clássica e me apaixonei [...] Depois daquele filme me apaixonei e comecei a tocar de ouvido, mas imitando aquele som [...] Depois que escutei aquele negócio do Chopin, no outro dia sai para comprar música, Um ano no México estudando dia e noite sozinho, sem professor, e aprendi a ler música. E examinei todas as músicas de Chopin”.
Contratados pela então poderosa gravadora RCA Victor, foram para os Estados Unidos. Mesclavam o repertório com músicas clássicas e populares. Entre as peças clássicas que gravaram estava a "Valsa em Dó Sustenido Menor", de Chopin. Sobre a música, assim se refere Natalício:
“nossa gravação mais famosa [...] ninguém toca aquela valsa e o ‘Voo do Besouro’ que nem nós”.
O nível de habilidade que Natalício atingiu como músico permitiu que ele fizesse alterações na própria construção dos instrumentos que tocava. Para possibilitar a execução de transcrições, para um duo de violões, de peças clássicas compostas originalmente para piano ou violino, ele modificou a sexta corda do seu violão e alterou o número de trastes do instrumento, aumentando-o dos convencionais 19 para 26 trastes.
Na segunda semana de novembro de 1963, uma canção executada pelos Índios Tabajaras chegava aos primeiros lugares do ranking das mais tocadas e vendidas, publicado pela revista norteamericana Billboard.
Era a regravação de um antigo sucesso da orquestra de Jimmy Dorsey, o fox mexicano "Maria Elena", que suplantava, na lista da revista, músicas de Elvis Presley, Roy Orbison e até "Be my Baby", o envolvente hit de Phil Spector para o grupo vocal The Ronettes. A regravação de "Maria Elena", feita pelo duo brasileiro, vendeu mais de um milhão e meio de discos somente nos Estados Unidos.
A importância dos Índios Tabajaras como instrumentistas é ressaltada pelo jornalista Luís Nassif, que também é músico:
“Há uma técnica refinada, um estilo de tocar vigoroso, próprio da escola de João Pernambuco e Dilermando Reis - com todo respeito pelo mestre, aliás, diria que Natalício superou Dilermando [...] foram, intérpretes de um patamar superior, ombreando-se com os maiores violonistas brasileiros de todos os tempos. Suas interpretações de ‘Valsa Criola’, do venezuelano Antonio Lauro, e de ‘Valsa em Dó Sustenido Menor, de Chopin, mereciam ser ouvidas por todos os jovens violonistas cultivadores da rapidez suja. ‘Moonlight Serenade’ fica à altura das melhores interpretações do grande Oscar Aleman, que se especializou nela”.
Os Índios Tabajaras construíram um extenso acervo de gravações. Fizeram 48 dos antigos discos LPs, sendo que a maior parte deles está disponível para venda, por todo o mundo, em lojas e sites especializados em música. As plataformas streaming, como o Spotify, disponibilizam para audição mais de 40 álbuns deles. Com a impressionante trajetória de vida que tiveram e pelo reconhecimento musical que conseguiram alcançar, expresso por grandes instrumentistas mundiais, torna-se incompreensível o silêncio e o esquecimento que envolvem, no Brasil, os nomes desses dois grandes músicos nacionais, saídos como retirantes dos mais profundos rincões nordestinos, sem nenhuma cultura formal, mas que conseguiram se firmar entre os maiores músicos do mundo. Antenor Moreira Lima faleceu em 1997 e Natalício (Nato) Lima, como era conhecido nos Estados Unidos, morreu em Nova York, em 2009.
Flávio Ramalho de Brito é engenheiro e articulista
Bom humor
Sorriso que brota dos olhos
E brinca nos lábios.
Palavra fluida e leve.
Margaridas que se aquecem ao sol,
Manhã de verão,
Mas também cabe o friozinho do inverno,
Acompanhado de um vinho bom.
Se tiver de partir, não seja adeus e sim até breve.
Dependendo do olhar, tudo pode ser perfeito,
Viver pode ser uma grande aventura,
O céu será sempre bonito, independente da cor.
É preciso apenas esperança no peito
Criatividade no pensar
E uma dose de bom humor.
A matéria da jornalista Lucilene Meireles sobre a professora Adélia de França, publicada em A União deste domingo, 30 de agosto de 2020, além de oportuna, como resgate de uma grande profissional do ensino na Paraíba, serviu para fazer-me voltar no tempo e lembrar-me de quando, adolescente, fui seu aluno na casa da Rua Almeida Barreto, no Centro, para sempre associada, por mim, à imagem inesquecível da mestra.
Está no ar um novo episódio do ALCR-TV. A presente edição se divide em três partes: Atualidades do mundo cultural; comentários sobre textos publicados; e a participação de leitores no Ambiente de Leitura Carlos Romero. Não deixem de assistir até o final.
Tenho um amor muito grande pela humanidade de Antonio David Diniz. Por isso foi com encantamento que vi sair, anos atrás, o belo livro com seu nome seguido do subtítulo “30 anos de fotojornalismo”, numa caprichada edição da UFPB.
Quando pensamos que a porta está definitivamente fechada, alguém sopra com força a janela e nos escancara um novo mundo, cheio de paisagens desconhecidas, deslumbrantes. Aí, o instinto de proteção dá um sonoro aviso de alerta, que surdamente ignoramos.
Mesmo que as certezas nos resguardem de sofrer, nos peçam cautela e atenção, mesmo assim, nosso ímpeto de buscar o desconhecido prevalece e deixamos o destino tecer suas tramas e nos enredar em histórias e sonhos.
Foi assim comigo. Quando revejo o passado, assusto-me com a impetuosidade que vivi, as maneiras que o destino manipulou meus passos, as múltiplas vezes que tive que derrubar casas e reconstruí-las novamente em outro lugar, em outra vizinhança. A vida acabou me ensinando que as situações idealizadas são frágeis e que é melhor aceitar os vários recomeços, os vários tropeços com valentia, com coragem e sem lamentos.
Os caminhos podem ser conhecidos e certos, mas a força do que nos rege, acrescenta pedras a serem afastadas, montanhas a serem subidas, descidas íngremes que diminuem o ritmo de nossos passos e nos presenteiam ao final, com lindas paisagens, ipês-amarelos no meio de um pasto todo verde, brisa morna com cheiro de mato.
Nestes últimos meses, aprendi muito sobre a imprevisibilidade. Todas as prioridades, os planos, as passagens para viagens agendadas, tudo estagnou de repente para que eu preservasse a vida. Fiquei só, por longos cento e quatorze dias.
Tive a oportunidade de colocar em prática a palavra “solitude” que, segundo o dicionário Michaelis, é uma palavra poética, diferente da solidão que expressa a dor de estar sozinho, a solitude expressa a glória de estar sozinho. É a solitude que nos oferece a oportunidade de apreciar o silêncio, o tempo e principalmente, a beleza. A solitude me abriu um mundo mais íntimo, mais rico de conhecimento, mais perceptivo sobre o que vale a pena investir e principalmente, do que vale a pena desejar.
Celebro esse tempo comigo mesma, cheia de gratidão. Continuo acreditando que o imprevisível, seja lá chamado de destino, acaso, fatalidade, tem verdades que não somos capazes de entender. É aceitar, realinhar o rumo e seguir a vida.
O quarto era amplo, confortável, agradável. Todos os ambientes da casa foram decorados por um profissional, sem nenhuma interferência de Paulo, mas Dolores era mulher refinada e discreta, e nada na casa era exagerado ou de gosto duvidoso, a despeito das insistências e irritações do decorador. A cama ampla, em madeira de cor discreta, em linhas modernas, sem nenhum entalhe ou adorno, embora de estilo diverso, incrivelmente harmonizava-se com a cadeira de balanço, daquelas tradicionais com palhinha, que raramente balançava.
No Bairro dos Ipês, em Mandacaru e adjacências existe um senhor de idade avançada que cata resíduos pelas ruas, quase todos os dias, usando um sinal inusitado de anunciar sua aproximação. Chapéu de palha na cabeça e empurrando um carrinho de mão, ao longe se ouve o assobio dele. Um som fino e prolongado, por vezes imitando pássaros, sempre alegre. Escutando, sabe-se que é hora da colocar na calçada o lixo domiciliar reciclado.