Houve um tempo em que a depressão me pegou com tanta braveza que não sabia como sair dela. A pior época foi próxima às festas do final de ano. O Natal me fazia lembrar não dos presentes que deveria comprar e, sim, do único presente que não compraria. Cheguei a olhar um pijama que supostamente seria para ele, mas que, na minha loucura, usaria para senti-lo perto de mim.
O dorso magrinho e sumido de um livro entre dezenas da estante a um canto da recepção de um consultório me desconcentra do que possa resultar, daí a pouco, da consulta. Começo a distinguir, de alguma distância e já meio desbotado, um episódio bem particular do meu trajeto.
A partir de meados da segunda metade do século 19, tornaram-se mais intensos, em vários lugares do mundo, os experimentos com o objetivo de se conseguir voos motorizados em aeróstatos que eram então chamados de dirigíveis. Obras escritas na época, como “Cinco semanas em um balão” do francês Jules Verne, iniciavam o que viria a ser a literatura de ficção científica e estimulavam a construção de novas invenções aeronáuticas.
Romântico morrer
A luz do luar
Com a beleza
Branca do Anjo
Loiro
Já no asfalto
Sujo gigante
As contas
De Xangô
Um certo Deus dos trovões
Na ladainha
Dos tiros
Rezas não contam
Mas dança o rei
De machado duplo
Quando nos conhecemos
Numa festa em que estivemos
Nos gostamos, nos juramos
Um ao outro ser fiel
Depois continuamos
Nos querendo, nos gostando
Nosso amor foi aumentando
Qual a Torre de BabelLupicínio Rodrigues
O primeiro vocês conhecem, ou dele já ouviram falar, Jamelão. Mas de Nego Lau, duvido. Acontece que segundo o que me contou meu amigo Valdemir dos Correios (para todo mundo, o Enxuto), Nego Lau cantava o repertório de Jamelão melhor do que o próprio; isto é, melhor até do que esse notório puxador de samba da Estação Primeira, a gloriosa Mangueira.
De tempos em tempos eu “acho” alguma coisa. Esse “acho” aí é no sentido de “entendo ou descubro alguma coisa”, mas sem a certeza matemática de que aquilo que achei é verdadeiro. É uma espécie de “achologia” sincera, sem conflitos de interesse, algo surgido a partir das próprias e imprecisas reflexões.
O meu receio é de estar malhando em ferro frio, ao retornar ao assunto da língua como sistema. Vendo a exaltação, cada vez maior, dos ânimos, e sem esperança de que haja um arrefecimento tão cedo – “quem é intratável não é exigente” (“qui est farouche n’est pas sévère”), diz Victor Hugo, em O homem que ri –, volto ao tema, que aborda a linguagem neutra, mas não se encerra nela, para tentar trazer, eu não diria bom senso, pois seria uma grande pretensão da minha parte, mas argumentos técnicos e sociais, no sentido de contribuir para o esclarecimento de como funcionam a língua e a linguagem.
Vou contar uma das muitas presepadas de minha mãe.
Envolvida com o movimento da terceira idade e querendo animar as amigas, decidiu adaptar a história de Chapeuzinho vermelho para o teatro e construiu uma peça incrível. Na cabeça de Creusa Pires tudo era possível, tanto que a peça já começava com a mãe de Chapeuzinho no centro do palco dizendo para a plateia que estava muito preocupada porque o fundo da panela onde preparava as refeições havia caído. Em seguida lamentava-se: "— Ah, onde eu conseguirei um frandileiro para consertar a panela?". Na verdade, referia-se aos funileiros, porém isso menos importa.
Quando recebi a notícia, no primeiro momento, nem cheguei a sentir tanto. Um vago incômodo, certa compaixão, admito. Mas, depois, quando, aos poucos, comecei, até involuntariamente, recuperar a memória daqueles tempos de nossa convivência juvenil, então comecei a me sentir realmente muito chocado.
Eu já pensei em parar de fuçar os costumes, os acontecimentos e as artes do mundo como tenho feito em publicações quase furtivas, dessas avessas à consagração de mitos, peças e fatos. Acontece que não resisto às histórias “não oficiais”, aos enredos agora soprados, também, pelos ventos da Internet.
Antes, nós nos valíamos apenas de edições raras, ocasionais, em papel e tinta, para vasculhar intimidades, redesenhar perfis, detectar mentiras, ou impossibilidades. Presentemente, é o computador e o smartphone, sobretudo eles,
A análise do uso das expressões morais, estudadas pelo filósofo naturalizado alemão e nascido na República Tcheca, Ernst Tugendhat (1930), fundamenta em que é necessário explicar o significado tanto de “bom” quanto de “correto”; também apresenta o esclarecimento sobre a capacidade intelectual de julgar ou de criar um padrão de comportamento. Essa forma de ver a linguagem moral introduz uma maneira de superar a separação entre os modelos das causas finais e a ciência do dever e da obrigação da Ética,
Ernst TugendhatF. Allgemeine
e possui, consequentemente, necessárias implicações para os diálogos contemporâneos. Suas contribuições apresentam um “sistema normativo livre”, porque os membros de uma comunidade podem escolher normas sabendo que os outros também o farão. Por isso, a aceitação de uma atitude é uma decisão pessoal e autônoma, isto é, tem-se a escolha para cumprir ou não uma estabelecida moralidade.
Do poema em forma
o poema
pode ser complexo
inventar enredos
e palavras textos
consumir estrofes
desenhando verbos
e dar-se ao mundo
em varal moderno.
o poema
pode ser humilde
nas gramaturas do que diz
da vida que comenta
traçando retratos
nas palavras simplesmente
como se fora enredo
daquilo que se sente
Uma das máximas de nossos tempos bicudos é que quando se fala em “ganhar dinheiro”, muita gente fica com a percepção alterada, perde o senso crítico e acaba vítima de algum embuste. Para não ir longe, uma recente pirâmide financeira na Rainha da Borborema deixou pessoas aparentemente atiladas de neurônios moles e com prejuízos de monta. Grandes esperanças de lucros estratosféricos e riquezas quiméricas se esfumaram no ar. E nessas searas, não custa lembrar que ilusionistas e iludidos caminham de mãos dadas.
O sereníssimo encontro de doce e sal faz a mistura perfeita da natureza. As águas, a areia, a rocha, o verde, os corpos, o sol e a paz. A procissão adocicada serpenteia por entre tons enverdejantes e cinzentos do mangue em muitas curvas, algumas retas, várias vidas até o abraço com o salgado oceano dominante que se abre infinito.
Houve o modismo musical do acordeão. Rara a menina não frequentadora da Escola “Mário Mascarenhas” que se espremia num daqueles becos laterais da Miguel Couto e administrada pela competente d. Ozires Botelho Viana. Minha prima Vitória Maria fazia o curso. Ela e as colegas de geração se uniam, umas nas casas das outras, se alternando, a pauta sobre o tripé, os foles murmurando valsas, forrós, boleros. Lembro-me da marca preferida: “Scandalli”, branco, teclado e baixos manejados com orgulho pelas alunas.
No início de janeiro de 1960, meu pai me presenteou com uma viagem ao Rio de Janeiro, para passar 45 dias na casa de minha tia, Waldina Mendonça Barbosa. Viajei pela primeira vez de avião pela saudosa Panair do Brasil um pouco antes de completar dezesseis anos. A empresa foi uma das companhias aéreas pioneiras do Brasil. O Voo Panair do Brasil 026 era uma linha aérea que ligava a América do Sul à Europa por meio da aeronave Douglas DC-7. A linha aérea tinha seus terminais em Buenos Aires e Londres, sendo realizadas escalas no Rio de Janeiro, Lisboa e Paris. Creio que meu voo foi realizado em uma aeronave Constellation que era o avião da Panair que realizava as rotas nacionais.