O que se observa na poesia brasileira contemporânea é uma verdadeira enxurrada de livros que pretendem apreender o momento conturbado por ...

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O que se observa na poesia brasileira contemporânea é uma verdadeira enxurrada de livros que pretendem apreender o momento conturbado por que passa o Brasil, espécie de Titanic à deriva, desgovernado, cujo capetão, sem diário de bordo, erraticamente, o abalroa a cada instante contra os icebergs da insensatez.

Por aí já se conclui que motivos não faltam para indignar os poetas de bom senso, embora não faltem também aqueles que, na contramão dos princípios fundamentais da democracia, façam coro com o “Pátria, família e Deus acima de tudo”, um dos lemas que resumem exemplarmente o ideário neofacista da trupe miliciana. Isso sem contar os omissos de todos os gêneros, para os quais Dante Alighieri dedicou as seguintes palavras: “No inferno os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise”.

Ocorre, porém, que a indignação é má conselheira, sobretudo quando o poeta deseja transformá-la em poema, pois, escrevendo no calor da hora, no olho do furacão, ele tem tudo para esquecer a sábia lição de Wordsworth: “A poesia é emoção recolhida na tranquilidade”.

Quando Ferreira Gullar recorreu à literatura de cordel como instrumento de doutrinação para despertar a consciência adormecida dos leitores, justamente por ser esse um gênero mais acessível, mais palatável, nada ou quase nada acrescentou à sua obra, embora não se deva nivelar os seus livros de poemas engajados com a safra dos livros participantes de hoje, a grande maioria natimorta, já que repousa na vala comum onde jaz a pretensa poesia de extração unicamente política. Comparados com esses, os livros de Gullar são obras do mais fino lavor.

Nesse ponto, cabe observar que a literatura só faz revolução no âmbito da linguagem, dentro dos seus próprios limites, jamais fora dos seus domínios, de sua circunscrição, sendo-lhe praticamente impossível instaurar uma ruptura com o status-quo, com o estamento social.

Mas a boa literatura pode provocar, sim, uma espécie de revolução silenciosa, pois ao término de um livro de ficção ou de um poema, o leitor já não é o mesmo de antes, uma vez que passa a adquirir uma nova percepção da vida e do mundo.

Os poemas excessivamente políticos, por serem geralmente diretos, objetivos, desprezam as metáforas, o jogo imagético, o apuro formal, na medida em que apostam na mimese como único recurso capaz de captar a realidade em toda sua completude, como se ao eu-lírico cumprisse apenas a tarefa de testemunhar os fatos e de esmiuçá-los à semelhança dos realistas empedernidos, de carteirinha, que, pretendendo ser mais realistas do que a própria realidade, só se dariam por satisfeitos caso pudessem dar conta, tim-tim por tim-tim, com uma precisão milimétrica, “(...) do número exato dos fios de que se compõe um lenço de cambraia ou um esfregão de cozinha”.

Se os vanguardistas mais ortodoxos apostavam tão só no virtuosismo verbal, nas paronomásias, no jogo de palavra-puxa-palavra etc., a maioria quase absoluta dos poetas engajados atenta menos na textura do poema do que na carnadura da realidade objetiva, que, nos seus poemas, já vem pronta e acabada como um prato feito para ingestão dos incautos e para a indigestão de leitores que sabem distinguir entre a poesia política de alto nível e a poesia meramente panfletária, tribunícia, muitas vezes vociferante e até mesmo histérica, que não fala nas entrelinhas, nos meios-tons. Poesia que se nutre do dejà vu, das metáforas envelhecidas, das catacreses, de uma espécie de pot-pourri de tudo o que já se escreveu sobre a liberdade e a repressão.

Em dezembro de 1864, tropas paraguaias atacaram e ocuparam um forte no Mato Grosso e apresaram, no rio Paraguai, um navio mercante brasile...

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Em dezembro de 1864, tropas paraguaias atacaram e ocuparam um forte no Mato Grosso e apresaram, no rio Paraguai, um navio mercante brasileiro. Iniciava-se o mais grave e duradouro (mais de cinco anos) conflito que já houve entre os países da América do Sul, a Guerra do Paraguai, como ficou, aqui, conhecida a luta da Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai) contra o Paraguai.

O enfrentamento entre brasileiros e paraguaios se deu em razão de antigas divergências, com respeito às fronteiras entre os dois países, à necessidade de garantia da utilização pelo Brasil da navegação através do rio Paraguai (que era a principal via de acesso ao Mato Grosso), e, principalmente, devido a um reordenamento nas relações entre Brasil, Argentina e Uruguai, que os paraguaios julgavam prejudicial aos seus interesses na região.

A “Maldita Guerra”, como o historiador Francisco Doratioto denominou sua alentada obra sobre a conflagração (Companhia das Letras, 2002), deixou como saldo o quase total aniquilamento da população masculina do Paraguai que, ao final da guerra, era constituída, em sua maioria, por menores de 10 anos. Do lado dos aliados, as baixas também foram numerosas.

Para o historiador José Murilo de Carvalho, “a guerra parecia desigual por jogar, contra o Paraguai, Brasil, Argentina e Uruguai. Mas, olhando pelo lado militar, no Brasil só a Marinha estava preparada para a guerra”. Ao contrário do despreparo brasileiro para a guerra, o Paraguai fazia dois anos que se preparava militarmente para o conflito. Na época, o exército do Brasil tinha um efetivo bastante modesto e uma organização muito precária. As tentativas de compor as tropas arregimentando a Guarda Nacional, estabelecendo cotas de recrutamento por cada Província, não tiveram muito êxito. A Guarda Nacional era uma força civil, que havia sido criada em 1830, comandada pelos “coronéis” regionais e os seus quadros de comando eram compostos pelas elites locais, que resistiram em ir para a guerra.

A saída para constituir as tropas que iam combater no Paraguai foi, então, a criação do chamado “Corpo de Voluntários da Pátria”. Foi esse agrupamento, formado pelo alistamento voluntário de pessoas, principalmente nos Estados do Norte e Nordeste, que forneceu o principal contingente do exército brasileiro.

Para cumprir as cotas de recrutamento estabelecidas para cada Província, houve, também, os chamados “voluntários da corda”, que eram, principalmente, escravos arregimentados à força para completar a cota de combatentes que fora determinada, como foi o caso de trinta “voluntários” que foram trazidos acorrentados da cidade de Pilar, “todos de gargalheiras ao pescoço”, para a capital da Paraíba, conforme registrou o historiador paraibano Adauto Ramos, no seu livro “A Paraíba na Guerra do Paraguai”.

No entanto, o chamamento para compor o Corpo de Voluntários, ao mesmo tempo, inspirou o patriotismo de muitos jovens idealistas, que, voluntariamente, se apresentaram para formar nas forças nacionais. Houve casos marcantes, como o da cearense Jovita Alves Feitosa, que vestida com trajes masculinos se alistou no Piauí, e o do filho de africanos forros Cândido da Fonseca Galvão, o baiano Príncipe Obá, que comandou trinta dos seus “súditos” e voltou da guerra como alferes, passando a residir no Rio de Janeiro, tendo acesso direto ao Imperador Pedro II.

O chamamento para compor o corpo de Voluntários da Pátria também sensibilizou vários acadêmicos de Direito, como aconteceu com alguns estudantes da Faculdade de Direito do Recife, dentre eles o paraibano Luiz Ferreira Maciel Pinheiro, então quartanista do curso.

Luiz Ferreira Maciel Pinheiro, que ficou comumente conhecido como Maciel Pinheiro, nasceu, em 1839, na capital da então Província da Paraíba, onde fez os estudos básicos. Em 1860, ingressou na Faculdade de Direito do Recife e passou a atuar na imprensa da capital pernambucana, publicando poesias e escrevendo artigos em vários jornais.

Em 1863, Maciel Pinheiro fundou e assumiu a direção de um “periodico scientifico e litterario”, chamado O Futuro, onde foram publicados, pela primeira vez, vários poemas de um jovem baiano de dezessete anos, que chegara ao Recife para cursar Direito e de quem Maciel Pinheiro ficara muito amigo.
O jovem baiano chamava-se Antônio Castro Alves e ficaria conhecido, pouco tempo depois, como o “Poeta dos Escravos”.

Naquela época, a Faculdade de Direito do Recife tinha entre os seus acadêmicos, além de Maciel Pinheiro, Tobias Barreto, Fagundes Varela, Castro Alves, José Higino, Martins Junior e outras tantas expressivas figuras que fizeram com que o período fosse considerado como o mais brilhante na história da Academia recifense.

Quando cursava o quarto ano de Direito, Maciel Pinheiro publicou, em um jornal do Recife, críticas a um professor da Faculdade. Em razão disso, foi punido pela Congregação com a penalidade de prisão, por quatro meses, nas próprias dependências da Faculdade, punição absurda e anacrônica, herdada do regulamento da Universidade de Coimbra, mas, à época, ainda aplicável em Pernambuco.

Em protesto contra a punição aconteceram várias manifestações dos estudantes, em solidariedade a Maciel Pinheiro, onde se destacava a voz já luminosa e inflamada do jovem Castro Alves. Para Jorge Amado: “será Recife quem fará do poeta um agitador e um líder. Desta cidade a voz de Castro Alves levantará as bandeiras da Abolição e da República [...] Recife será sua melhor tribuna”.

Quando da partida de Maciel Pinheiro, como voluntário, para a guerra do Paraguai, Castro Alves lhe dedicou um poema com o título “A Maciel Pinheiro”, depois incluído no seu livro “Espumas Flutuantes”, único publicado em vida pelo poeta baiano.

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“Partes, amigo, do teu antro de águias, Onde gerava um pensamento enorme, Tingindo as asas no levante rubro, Quando nos vales inda a sombra dorme... Na fronte vasta, como um céu de ideias, Aonde os astros surgem mais e mais... Quiseste a luz das boreais auroras... Deus acompanhe o peregrino audaz.”

O cognome “Peregrino Audaz”, que finaliza as seis estrofes do poema de Castro Alves, ficou como uma marca que Maciel Pinheiro carregou pelo resto da sua vida. Nas Notas finais do livro “Espumas Flutuantes”, Castro Alves se refere, mais uma vez, ao amigo paraibano:


“Maciel Pinheiro é um destes moços que simbolizam o entusiasmo e a coragem, a inteligência e o talento nas Academias. Poeta e jornalista o moço estudante, aos reclamos da pátria, improvisou-se soldado. Hoje que o tempo e a distância nos separam é me grato falar de um dos mais nobres caracteres que tenho conhecido”.

Maciel Pinheiro voltou da guerra doente, acometido pela malária, mas conseguiu concluir o curso de Direito e passou a atuar na área jurídica. Foi promotor no Rio Grande do Sul, juiz no Recife e em comarcas no interior de Pernambuco e, depois, por perseguição pelas suas ideias, foi transferido para o interior do Pará. Como escreveu seu amigo Martins Junior, “era o tempo em que se castigava pelo crime de abolicionismo”.

Inconformado com a transferência que lhe fora imposta pelo governo imperial, Maciel Pinheiro solicitou licença do cargo de juiz. Negada a licença, decidiu abandonar a magistratura. Na ocasião, o escritor e líder abolicionista pernambucano Joaquim Nabuco publicou, na primeira página do jornal O Paiz, do Rio de Janeiro um longo artigo, que tinha como título “Maciel Pinheiro”:


“em toda a imprensa brasileira não há um homem igual. Há outros que escrevem com mais imaginação e, portanto, com mais brilho [...] Não há nenhum, porém, cuja pena corte, como uma espada afiada, como a dele [...] Em Maciel Pinheiro o jornalista é o homem. Pobre, combatido por uma enfermidade cardíaca, pai de família que, a presente, de um dia para o outro ficou ao desamparo, ele quer morrer na imprensa como José Bonifácio morreu na tribuna. [...] Estudante ainda, Maciel partiu para a guerra do Paraguai como voluntário da pátria, o Castro Alves, que conhecia pela atração que sentia por ele[...] deixou o nome do seu companheiro soldado gravado nas suas belas estrofes”

Abandonando a magistratura, Maciel Pinheiro voltou para o Recife dedicando-se inteiramente à imprensa, fazendo dos jornais as trincheiras de lutas na defesa dos seus ideais, a abolição da escravidão e a instauração da República no Brasil.
Desde o tempo do jornal O Futuro e, depois, em A Província, Maciel Pinheiro desenvolveu intensa campanha contra o sistema escravista vigente no País, inclusive denunciando casos de atrocidades contra escravos acontecidas na Paraíba. Por essa sua combativa participação em favor da extinção da escravidão no Brasil ele é considerado um dos principais nomes do movimento abolicionista brasileiro.

Em junho de 1889, Maciel Pinheiro e Martins Junior, seu amigo e contemporâneo da Faculdade de Direito, fundaram, no Recife, o jornal de propaganda republicana O Norte. Durou pouco tempo a contribuição do paraibano ao jornal. Debilitado pela enfermidade contraída na guerra do Paraguai, Maciel Pinheiro faleceu, no Recife, na sua casa da Rua da Aurora, no dia 9 de novembro. Ainda não chegara aos 50 anos e faltavam apenas seis dias para que fosse implantada a República no País, regime pelo qual o jornalista tanto se batera. Para o político e historiador paraibano Tavares Cavalcanti, Maciel Pinheiro “foi dos que avistaram de longe a Terra da Promissão, mas nela não puderam entrar”.

Quando da instauração do regime republicano no Brasil, Maciel Pinheiro foi reverenciado, em várias partes do país, como um dos maiores propagandistas da República, como se observa em uma edição, do dia 15 de novembro de 1889, do jornal Libertador, de Fortaleza:

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Pouco tempo depois da morte de Maciel Pinheiro, a Paraíba Republicana rendeu homenagens ao seu destemido filho. Foi dado o seu nome às principais ruas do comércio, da capital do Estado e de Campina Grande. No Recife, a cidade que foi o palco das lutas do indomável abolicionista e republicano, foi denominada de Maciel Pinheiro a Praça Conde d’Eu, localizada no bairro central da Boa Vista, que fora construída em homenagem à vitória brasileira na guerra do Paraguai. Várias cidades do Brasil também prestaram homenagens a Maciel Pinheiro, colocando o seu nome em ruas e praças.

No meio de uma das extensas escadas rolantes do secular metrô do centro de Londres, muito profundo em certas estações, um grupo de garotas...

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No meio de uma das extensas escadas rolantes do secular metrô do centro de Londres, muito profundo em certas estações, um grupo de garotas, entre jovens e adolescentes, entoava eternas canções. Não pareciam se incomodar em ser vistas, admiradas, ouvidas, encobertas pela aura de alegria e espontaneidade com que cantavam. Afinal, a autenticidade dá brilho às manifestações nas quais o entusiasmo ofusca qualquer indício ou resquício de timidez.
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Era início da noite de sexta-feira, em um outono de Londres, e quem sabe aquela empolgação se houvera acrescida ao término de um dia de escola, de olho no fim de semana…

A cena perpassou da observação ao encanto em todos nós, surpresos ao ver que, após 50 anos, quase o triplo da idade daquelas garotas, a música dos Beatles permanecia viva. Viva porque é clássica, e como clássica se eterniza. É possível se antever que no próximo século outro grupo de adolescentes, talvez em um metrô aéreo ou numa jornada às estrelas, solfeje as inesquecíveis melodias.

Muito já se disse, muito já se escreveu, estudos abundantes confirmam os Beatles como fenômeno incomparável. Não apenas sob aspectos sociológicos, ideológicos, psicológicos, mas sobretudo pela qualidade musical de suas obras.

Concebidas em processo evolutivo que acompanhou o tempo, criou e influenciou conduta de gerações que as vivenciaram e sucederam, suas músicas refletem exatamente a amplitude diversificada de estilos, mensagem e poesia.

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Bem além das partituras em que registrou a beleza das frases melódicas, o quarteto transmitiu ao mundo um manifesto inovador em prol do amor, do romantismo poético, causando ruptura paradigmática de costumes, contagiando, convidando à reflexão sobre as relações humanas, urbanas, principalmente por entoar um clamor à paz.

A arte dos Beatles impressiona qualquer estudioso de música erudita. Na tessitura composicional se insere cronologicamente uma estrutura enriquecida gradativamente, ao longo do exercício criativo, com processos mais ousados e bem elaborados, como ocorreu com grandes compositores da história. A simplicidade presente em um minueto de Bach, numa sonata de Mozart,
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numa sonatina de Beethoven, que se enrobustece em obras posteriores, a exemplo das grandiloquentes missas e sinfonias corais, é fenômeno circunscrito ao trabalho dos geniais rapazes ingleses.

Da bucólica inocência de Love me do, à pulsante alegria rítmica de Help e She loves you, do lirismo de The long and winding road às declarações amorosas de versos plenos de poesia, à instigante Sgt. Pepper's e à densidade dramática de A day in the life e Lucy in the sky with diamonds (com requintada participação do cravo), o espectro construído pelos Beatles é artisticamente completo. Não faltou por onde distribuir talento na obra que alcançou infinitas possibilidades.

Desde as canções primeiras, ainda restritas ao reduto britânico, já se percebe a arte de criar planos sonoros justapostos em aspecto contrapontístico, estabelecidos tanto nas vozes distintas como nos coros em background e na criativa instrumentalização. Já eram composições em que se denotava apuro técnico, ainda que adquirido pela talentosa inspiração, que tantas vezes se sobrepõe ao conhecimento acadêmico.

A afinidade com a concepção clássica de música se faz nítida sob vários ângulos, principalmente na sonoridade harmoniosa de linguagens simultâneas, rítmica, vocal e instrumental.
Paul McCartney revelou em entrevista possível influência da Bourrée em ré menor, de Bach, na melodia de Blackbird. O empresário e músico George Martin, tido como “o quinto Beatle”, fez menção à “Ária na Corda Sol”, também de Bach, na trilha sonora do filme Yellow Submarine. Há quem relacione os acordes iniciais de Because com os da Sonata ao Luar, de Beethoven, e a afinidade com a música erudita também se percebe nos solos dos instrumentos de cordas que acompanham, por exemplo, She’s living home e Eleanor Rigby — uma elegante composição com traços genuinamente clássicos. Ressalte-se igualmente a requintada participação do piano e outros teclados, em que desfilam tantas de suas músicas, como em Let it be e Hey Jude, na "barroca" parte central de In my life , no órgão que acompanha Long long long , sem esquecer da valorização da guitarra como voz de expressividade cantante singular exaltada em While My Guitar Gently Weeps .

Esta sintonia certamente estimulou as orquestras sinfônicas de Londres, Vancouver, Miami, São Petersburgo e a italiana Mitteleuropa Orchestra, entre outras, a produzir célebres arranjos e transcrições em cobiçados palcos, inclusive para gravação de álbuns.


A riqueza artístico-musical dos Beatles se estendeu e se enriqueceu por seus dramas e experiências de vida até os prenúncios e concretização da separação. Uma separação apenas física, com o espírito perpetuado nas carreiras solo.

A vivência mística com o psicodelismo, as conturbações existenciais, a busca pelos insights divinos por meio de alucinógenos, a aproximação com o hinduísmo e outras inserções em planos espirituais também pontuaram notória e notavelmente sua obra de maneira impactante.

A exploração instrumental foi igualmente profícua, em vários timbres, nos sopros, metais, cordas, teclados e até em cítaras. A percussão que recheia Revolution, o ritmo sincopado de Ticket to ride, a orquestração dos álbuns Magical Mistery Tour e Yellow Submarine,
o dissonante cromatismo de Being for the benefit of Mr. Kite e Tomorrow never knows atestam claramente a intimidade com a harmonia dos instrumentos.

Os Beatles excederam os limites e contornos de todos os outros grupos de música pop. Foram muito além de tudo. This boy, Girl , e You've got to ride your love away são exemplos da essência que caracteriza a plenitude de uma balada romântica. I me mine, o espelho da nostalgia, Penny Lane resume a força telúrica-urbana, o jingle dançante é imbatível em From me to you. O mistério se escuta em Blue Jay Way, a poesia permeia I'll follow the sun como em poucas canções, a doce harmonia coral de Because e Michelle é comovente. A religiosidade tem registro impressionante em Within' you without you . Em Helter Skelter a alma do rock se eterniza, para citar alguns exemplos alcançados pelo histórico conjunto.

A grande importância da criação desta inesquecível banda se imprime justamente na originalidade e abrangência de seu universo. A manifestação solidária, a relação entre a urbe e o ser humano, a rebeldia, a liberdade, o romantismo consolidam-se emblematicamente na grandiosa mensagem de paz, poesia e amor, presentes nas três memoráveis canções: All you need is love , Something e Yesterday . Melodias que indubitavelmente soarão pelos lábios das futuras gerações, por infinitas eras, em metrôs, naves espaciais ou na simples fantasia de um submarino amarelo.

Recentemente sentei sozinha em uma pedra às margens do lago Tahoe. Na tarde gelada, um silêncio solene cabia no meu coração. Observei ...

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Recentemente sentei sozinha em uma pedra às margens do lago Tahoe. Na tarde gelada, um silêncio solene cabia no meu coração. Observei as águas lisas por muito tempo, eram de um azul-claro pacificado, como um lençol de seda estendido sobre a superfície da Terra. Uma felicidade simples preenchia os minutos. Ao redor da minha solidão havia pedras de todos os formatos e cores. Duas delas atraíram o meu olhar. Rolei-as entre os dedos e as coloquei no bolso.

Não é fácil tirar os olhos de Manaus. Já ficou muito mais distante, quando Chico Avelino, meu avô, saiu de burra do Riachão entre Areia e ...

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Não é fácil tirar os olhos de Manaus. Já ficou muito mais distante, quando Chico Avelino, meu avô, saiu de burra do Riachão entre Areia e Alagoa Nova até alcançar a Serra do Cuité, e de lá juntar-se aos cearenses da Paraíba, do Rio Grande do Norte e do próprio Ceará para se afundarem ou se afogarem nas águas e seringais ilusórios do Amazonas.

Nesse tempo, o que fosse do Norte era cearense. “Baiano” e “paraíba” vieram bem depois. O Ceará, da primeira academia de letras, de onde saiu o primeiro romance da seca, emplacava toda a região que, nas primeiras décadas do século XX, passou a se chamar Nordeste. Depois de 1922, já sob a onda da revolução modernista, ainda eram do Norte os que ousaram se estabelecer por conta própria, como José Américo. “São os do Norte que vêm!” - gritaram do Rio e de São Paulo.

O velho aprendiz agora é com vocês, jovens meus cabelos já caíram e as palavras estão feridas no último grão da semente que não g...

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O velho aprendiz
agora é com vocês, jovens meus cabelos já caíram e as palavras estão feridas no último grão da semente que não germinou falem de helenas, sim nunca de uma única helena que a poesia não deve ser refém apenas daquela musa

Assisti, por esses dias, a um documentário sobre essa famosa peça de ir à praia: o biquíni. Não foi a primeira vez que vi a história desse...

Assisti, por esses dias, a um documentário sobre essa famosa peça de ir à praia: o biquíni. Não foi a primeira vez que vi a história desses dois pedaços de pano que as mulheres vestem nas areias.

Diariamente me encontro às voltas com as plantas do jardim. É sempre um hábito diário que cultivo assim que acordo. Nasci com o “ dedo v...

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Diariamente me encontro às voltas com as plantas do jardim. É sempre um hábito diário que cultivo assim que acordo. Nasci com o “ dedo verde “. Para quem desconhece o termo, significa que tenho facilidade em fazer brotar as minhas plantinhas com certa facilidade... dom que Deus me deu e que herdei da família. À medida em que vejo florescer uma folhinha nova... um galho mais saliente, percebo que os dias estão minuto a minuto se escoando em minhas mãos.

Após passarmos o mês de janeiro de 1976 no Pantanal do Mato Grosso, participando do Projeto Rondon, Ilma, eu e Alcides Diniz tomamos um ...

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Após passarmos o mês de janeiro de 1976 no Pantanal do Mato Grosso, participando do Projeto Rondon, Ilma, eu e Alcides Diniz tomamos um trem e partimos para aquela que seria a maior de nossas aventuras: a nossa Conquista dos Andes.

Fausto Cunha escreveu que Augusto dos Anjos foi salvo pelo povo. Ele se referia ao entusiasmo e à fidelidade do homem comum ao poeta, em c...

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Fausto Cunha escreveu que Augusto dos Anjos foi salvo pelo povo. Ele se referia ao entusiasmo e à fidelidade do homem comum ao poeta, em contraste com a má-vontade de certos críticos que não teriam compreendido o significado do “Eu” para a literatura brasileira. De fato, o povo amou Augusto desde o início, e o declamou e vem declamando nos mais diversos rincões deste país. Sobretudo no interior, tem sempre alguém cujo avô ou o pai possui um exemplar do único livro do poeta, e o recita em momentos de solidão ou de congraçamento familiar.

Tenho uma amiga que adora fotografar a natureza. Adora a natureza porque a natureza está no sangue e na alma dela. Também estudou as esta...

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Tenho uma amiga que adora fotografar a natureza. Adora a natureza porque a natureza está no sangue e na alma dela. Também estudou as estações para melhor compreender as mudanças que ocorrem a cada período do ano. Mais que amar a terra, as plantas, os animais e o mar, ela busca entender a essência da espiritualidade que edifica a paz interior. Quer entender a beleza da poesia que emana da Natureza com seus componentes.

“O homem possui sua essência eterna como antecipada e entregue a ele em sua liberdade e reflexão, à medida que experimenta, sofre e atua ...

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“O homem possui sua essência eterna como antecipada e entregue a ele em sua liberdade e reflexão, à medida que experimenta, sofre e atua sua história.”
Karl Rahner

Este ensaio não visa a uma abordagem de crítica musical, e sim de uma analítica histórico-estética, ou seja, uma análise que se fundamenta em notas biográficas interrelacionadas com impressões sonoras de personalidades do jazz, suas obras e músicas. Não se trata de um ensaio sobre a rica e complexa história do jazz, o que requereria uma abordagem cronológica, por isso o recorte de músicos e gêneros, recorte esse procedimental, na medida em que se faz necessário em termos metodológicos quanto à especificação dos tópicos analíticos abordados. Também um procedimento comparativo entre autores e obras se faz presente ao longo deste ensaio, assim como uma perspectiva deleuziana (p. 12-150), já que a analítica histórico-estética em seus desdobramentos buscará a conceituação, sempre que possível, para além do mero campo delimitador de sentido, ou seja, como criação filosófica ante o objeto analisado. Ademais, o leitor encontrará neste ensaio um certo itinerário, um convite ao mundo de certas personalidades, obras e músicas do jazz. Um itinerário inconcluso, imperfeito, e que por isso de maneira alguma se quer como guia absoluto por esse rico universo musical vivo, criativo e sempre em permanente transformação.


Parte II - O Açude Velho O garoto tinha atingido o alto e já não estava longe de casa, sendo-lhe inútil agora correr ou apressar o pas...

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Parte II - O Açude Velho

O garoto tinha atingido o alto e já não estava longe de casa, sendo-lhe inútil agora correr ou apressar o passo, pois estava ensopado, fora alcançado pelo temporal no meio do caminho, onde se pôs às pressas depois que o homem, quase gritando lhe ordenara correr para casa Senão vai adoecer e sua tia põe a culpa em mim / não se esqueça da panela Debaixo do que parecia ser o céu se abrindo e fechando em questão de segundos, produzindo interferências no som apenas para não deixar escapar mais que estilhaços de ira vocálica, de imprecação escandalosa e fragmentada, e isto numa escala de som quase insuportável – brados terríveis, entrecortados, de algum deus antigo e esquecido, mas que dele não fosse aquilo resultado de nenhuma ação presente, mas apenas o eco ou memória virtual auditiva de situações remotas e incompreensíveis, sendo as falhas de voz defeitos naturais de registro, causados pelo tempo.

O bom humor do amado mestre amenizava a disciplina ensinada. Direito Comercial, árido, enfadonho, pelo menos para mim, recebia uma ducha de...

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O bom humor do amado mestre amenizava a disciplina ensinada. Direito Comercial, árido, enfadonho, pelo menos para mim, recebia uma ducha de verdor, quando o professor mesclava a matéria exposta com sutil anedota. Um passarinho, quase que declamava poemas, enquanto trocava sorrisos com o alunado.

Não é nostalgia, qualquer coisa assim que entristeça, que nos leve ao banzo por alguns momentos. É relembrança mesmo, um mimo, um brinde, ...

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Não é nostalgia, qualquer coisa assim que entristeça, que nos leve ao banzo por alguns momentos. É relembrança mesmo, um mimo, um brinde, uns picos de memorialismo perenizado, inevitáveis, que nos fazem iniciar viagens pelas décadas de ouro das noites antigas de nossa encantadora capital paraibana.

Em seu 21º episódio, a Pauta Cultural da ALCR-TV traz comentários de leitores e resume alguns textos recentemente publicados no Ambiente d...

Em seu 21º episódio, a Pauta Cultural da ALCR-TV traz comentários de leitores e resume alguns textos recentemente publicados no Ambiente de Leitura Carlos Romero.