Natacha Rostóva, na sua ingenuidade de criança, aliada a uma vida fátua de aristocrata, embora em franca decadência, apaixonava-se com faci...

Apelo à vida

Milton Marques Júnior Guerra e Paz Ambiente de Leitura Carlos Romero

Natacha Rostóva, na sua ingenuidade de criança, aliada a uma vida fátua de aristocrata, embora em franca decadência, apaixonava-se com facilidade. Uma de suas paixões foi pelo príncipe Andrei Bolkónski, com quem chega a ter um compromisso de noivado. Instado pelo pai, Andrei propõe que eles esperem um ano, dando total liberdade a Natacha, durante esse período, até de ela se apaixonar por outro. Se, passado um ano, Natacha mantiver firme a sua decisão, eles se casarão. Por mais que seja duro para ela, Natacha aceita a situação, não sem lamentos.

Perto de completar um ano da separação, esperando a volta de Andrei para a realização do casamento, Natacha vê-se envolvida numa trama da condessa Elena (Hélène) Bezúkhova, esposa do conde Pierre Bezukhov, sendo seduzida com um beijo ardente e com a promessa de fuga e casamento, pelo irmão da condessa, Anatole Kuráguin. Fuga abortada, a contragosto de Natacha, pela intervenção de Pierre, amigo dos Rostóv, e que conhecia perfeitamente o canalha dissoluto que era Anatole. O reencontro de Andrei com Natacha, com o inevitável rompimento entre ambos, deixa a jovem mortificada a ponto de adoecer. Só a amizade de Pierre é que a faz tentar superar o acontecimento.

Natacha e Andrei voltam a se reencontrar depois da batalha de Borodinó. A sua família em fuga acolhe soldados russos feridos. Dentre eles está Andrei. Quando Natacha toma conhecimento de que o jovem príncipe encontra-se em sua casa, ferido, ela se entrega totalmente aos seus cuidados. Embora seja uma enfermeira exemplar, Andrei morre, causando nova grande dor à moça.

O amor é Deus, e morrer significa que eu, partícula de amor, vou voltar para a fonte universal e eterna
Toda essa pálida paráfrase não passaria de fabulação de um dramalhão romântico, se não fosse por um detalhe: a espiritualidade que assoma dessas páginas de Guerra e Paz.

O reencontro de Natacha com Andrei moribundo é o momento do perdão e do reconhecimento do seu amor por ela, bem como de um amor divino, a que já me referi antes, capaz de amar o seu inimigo:

“Amar uma pessoa querida é possível com um amor humano; mas só é possível amar um inimigo com o amor divino. Nada, nem a morte, nada pode destruí-lo. Ele é a essência da alma.” (Tomo III, Terceira Parte, Capítulo XXXII)

E aquele outro mundo, no qual ela antes nunca havia pensado, que antes lhe parecia algo muito remoto e inacreditável, agora era próximo e mais afim, mais compreensível do que este
A revelação da espiritualidade não se detém nessa passagem. Às portas da morte, Andrei tem nova revelação sobre o amor incondicional e divino – “O amor atrapalha a morte. O amor é a vida. O amor é Deus, e morrer significa que eu, partícula de amor, vou voltar para a fonte universal e eterna” (Tomo IV, Primeira parte, Capítulo XVI).

Segue-se a essa revelação um sonho de Andrei em que, desdobrado, vê-se a si mesmo, no quarto, porém saudável, assistindo, em seguida, à sua própria morte no sonho. Ao acordar, Andrei tem a compreensão nítida de que “a morte é um despertar”:

“A ideia se acendeu de repente em seu espírito, e a cortina que até então ocultava o desconhecido foi erguida diante de seu olhar espiritual. Naquela leveza que não o abandonou mais a partir de então, ele sentiu como que uma libertação de energias, antes presas dentro dele” (id. Ibid.).

A morte de Andrei, como já dissemos, deixa Natacha numa tristeza profunda de que ela se recusa sair. Luto demorado que a definha pouco a pouco. Nessa ocasião, Natacha não compreendera, apenas presenciara, o mistério da morte. É com o passar do tempo que ela vai se conectando com a espiritualidade – “Sempre lhe parecia que estava prestes a entender, a penetrar naquilo para onde seu olhar espiritual se dirigia com uma pergunta terrível e opressiva” (Tomo IV, Quarta Parte, Capítulo I). Natacha, aos poucos, sente abrir-se uma conexão espiritual com Andrei, olhando para o lugar de “onde ele tinha partido para o outro mundo”:

“E aquele outro mundo, no qual ela antes nunca havia pensado, que antes lhe parecia algo muito remoto e inacreditável, agora era próximo e mais afim, mais compreensível do que este mundo, em que tudo era ou vazio e destruição, ou sofrimento e humilhação” (id., ibid.)

A jovem passa a ver e a ouvir Andrei, conversando com ele, parecendo-lhe “que estava prestes a penetrar no mistério...” (id., ibid.). Mas eis que uma nova e sofrida notícia a retira, momentaneamente, desse contato com a espiritualidade: a morte de seu irmão mais novo, Pétia, em um ataque de guerrilha a um regimento francês.

Qualquer outra pessoa, na situação em que Natacha se encontrava, seria dilacerada pela notícia, por mais um revés, e dificilmente se restabeleceria. O contato aberto com a espiritualidade, contudo, havia se firmado e produziu um efeito contrário na jovem, despertando-a para a vida, de modo a cuidar da ferida espiritual que mortificara a sua mãe:

“Ela não dormiu e não se afastou da mãe. O amor de Natacha, obstinado, paciente, parecia abraçar a condessa de todos os lados, a cada segundo, não como uma explicação, nem como um consolo, mas como um apelo à vida (id., ibid.)

O despertar da vida de Natacha vem da “mesma ferida que matou a metade da condessa”, “aquela ferida nova” (Capítulo III). A força da vida, agindo de dentro para fora faz cicatrizar a ferida espiritual, afirma Tolstói. Quando, em Natacha, “o amor despertou, a vida também despertou” (id., ibid.).

O que pode mais do que o Amor e do que a vida que ele nos desperta? Tolstói esconde (apenas para os que não querem ver) entre as maçudas páginas de seu romance, todo um percurso de espiritualidade, envolvendo três de seus personagens mais importantes – Andrei, Pierre e Natacha. Escrevo, contudo, com reservas, por que estou lendo uma tradução (Rubens Figueiredo). Pela minha experiência com traduções, sei que o texto de Guerra e Paz que tenho nas mãos não deve ter modificado a essência do romance de Tolstói, mas sei também que no original essas passagens podem ser ainda mais intensas e mais cheias de espiritualidade, com o escritor fazendo mais do que um relato dos horrores da guerra e das futilidades e intrigas dos salões aristocráticos, um grande apelo à vida.

A Alcione Lucena, Suely Dias, Germano Romero e Marco Lima, que percorrem há mais tempo essa senda, deixando em suas pegadas as luzes para que retardatários, como eu, possam prosseguir na sua caminhada.


Milton Marques Júnior é doutor em letras, professor, escritor e membro da APL
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